Robyn Beck/Agence France-Presse- Getty Images
Robyn Beck/Agence France-Presse- Getty Images

Um novo tipo de astro do pop dominou 2018: o versátil

Representantes de subculturas tiraram o destaque das cantoras e cantores mais tradicionais

Jon Caramanica, The New York Times

28 de dezembro de 2018 | 06h00

O pop pode ser uma demonstração de algo popular, ou pode ser o rótulo para um gênero musical, indicando uma sonoridade específica. Mas, durante boa parte das três décadas mais recentes, essas duas definições coincidiram: a animação cheia de confetes coloridos de Katy Perry, os gritinhos sussurrados de Justin Timberlake, a teatralidade de Lady Gaga, a falsa manha de Taylor Swift. Uma sonoridade que se pauta pelo brilho, euforia, êxtase e espetáculo.

Nos anos 1980, esse tipo de música pop - Michael Jackson, Madonna - era na prática uma monocultura, motivo pelo qual os dois significados do pop se tornaram difíceis de dissociar. Mas, nos dois anos mais recentes, essa estrutura foi desmantelada, graças principalmente ao consumo de música via streaming.

Estilos antes considerados meros sub-gêneros do pop - K-pop, trap latino, hip-hop melódico e outros - passaram a ditar as regras do momento. É o Pop 2.0 - música vinda de diferentes cenários, com seu próprio conjunto de regras. Anteriormente, quando artistas vindos do hip-hop, country ou hard rock eram apontados como rumando na direção do pop, a implicação é que estariam sacrificando algo essencial. 

O pop era uma concessão. Agora, graças à evolução da fórmula usada pela Billboard para calcular a popularidade das canções - somando o consumo via streaming aos números de vendas de divulgação no rádio -, tais estilos dominam as paradas. O streaming é dominado pelo hip-hop. Trap latino e reggaeton fazem sucesso no YouTube. O k-pop, estilo dominante na Coreia do Sul, alcançou imensa popularidade em todo o mundo. Tudo isso fez com que as paradas de sucessos da Billboard adquirissem uma aparência muito diferente daquela de dez anos atrás.

Tomemos como exemplo a parada de álbuns de mais sucesso da Billboard na última semana de agosto de 2018. “Love Yourself: Answer", do grupo de k-pop BTS, estreou na primeira posição. A outra estreia mais popular, na sétima posição era “Aura”, de Ozuna, o astro de voz doce do pós-reggaeton, que foi também o artista mais visto no YouTube este ano.

Os vários representantes do hip-hop preenchiam o restante do top 10: Drake, líder da geração atual; o maximalismo divertido de Travis Scott; as tiradas meio folk, meio rap de Post Malone; fusões de emo-rap de artistas que ganharam popularidade no SoundCloud como XXXTentacion e Juice WRLD; hip-hop pronto para ser transformado em memes, cortesia de Cardi B.

Embora tenham surgido em cenas diferentes, todos esses artistas cantam e fazem rap, alternando entre os dois estilos ou misturando-os. O clima é melancólico. A produção empresta elementos do trap, o estilo de rap nascido no sul dos Estados Unidos na década mais recente. Alguns são bilíngues e alguns emprestam ideias de todo o mundo. São artistas tão versáteis que fazem participações nas canções de outros e mantêm a própria carreira solo. E aprenderam a se inventar também na internet, e não apenas no estúdio.

Agora, é hora de pensarmos na música pop - a variedade praticada por Katy Perry, Justin Timberlake, Britney Spears e afins - como um mero sub-gênero, um componente do pop. Em seu lugar temos um novo pop, absolutamente moderno e cada vez mais global, o resultado de uma progressão de gêneros que vem se aproximando ao longo de dez anos.

O palco para essa substituição foi preparado pela ascensão do rap-pop do fim dos anos 1990 e início da década de 2000. Na época, o hip-hop foi criticado por ter trocado seu lado incisivo e crítico pela aceitação do grande público.  Mas o que estava ocorrendo era uma reconfiguração da caixa de ferramentas do pop: o rock deu lugar ao hip-hop, instrumentos reais deram lugar a programas de computador (ou são usados com eles). E havia também a internet, que começou a mudar o acesso de determinados públicos a certos gêneros. O hip-hop logo aprendeu essa nova linguagem, disseminando-se mais rápido do que nunca.

Ao mesmo tempo, o hip-hop estava se transformando. Os tons melódicos propostos por Kanye West e Pharrell Williams foram adotados por Drake, que se tornaria o principal agente de transformação do gênero no final da década de 2000. Normalmente, os rappers chamavam cantores para cuidar da melodia entre os versos falados. Drake cuidava sozinho dessa parte, transformando a melodia em algo de importância central para o gênero.

Quase todos os astros e inovações do Pop 2.0 que conhecemos nos dez anos mais recentes estão ligados a Drake - direta ou indiretamente. E astros que se agarraram ao velho estilo 1.0 como Perry e Timberlake perderam muito de sua relevância. Dito isso, há fortes elementos do Pop 2.0 na obra de Rihanna, a mais moderna de todas as cantoras pop. 

Ela é fluida - canta, faz rap e improvisa -, sente-se à vontade com baladas R&B, batidas eletrônicas mais rápidas e ritmos dançantes do dancehall. E vemos flexibilidade também em Beyoncé; ela flerta com o rap em “Everything Is Love", álbum em colaboração com Jay-Z lançado este ano, e o resultado é bom.

E quanto ao talento de Ed Sheeran, capaz de lotar estádios? Visto de longe, o cantor parece um representante da velha guarda, um cantor folk ao estilo antigo. Mas ele também tem seus momentos de rapper, e faz participações nos discos deles. E também nos de músicos africanos contemporâneos. E, possivelmente, também com o BTS, de acordo com o que ele deu a entender num comentário recente. Sente-se à vontade jogando pelas regras antigas, mas também sabe jogar com as novas.

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