Fotos de Billy H.C. Kwok para The New York Times
Fotos de Billy H.C. Kwok para The New York Times

Um pedaço da natureza sobrevive em uma cidade cara e congestionada

Um canto bucólico de Hong Kong atrai ansiosos para escapar das multidões

Austin Ramzy, The New York Times

28 de novembro de 2018 | 06h00

HONG KONG - Espremida entre duas megacidades com uma população conjunta de 20 milhões de habitantes,  estende-se uma das várzeas mais importantes do Leste Asiático. Olhando para cima, vemos destacar-se sobre este ambiente rústico os inúmeros arranha-céus de Shenzhen, na China. Atrás de algumas colinas próximas ao sul estão as ruas congestionadas de Kowloon e da Ilha de Hong Kong.

Mas logo além, a noroeste de Hong Kong, dezenas de milhares de cormorões, garças, garças reais e outras aves, até mesmo espécies ameaçadas, reúnem-se todos os anos no inverno para se alimentarem nos baixios inundados. Árvores de eucalipto trilham um caminho que corta os camarões e o viveiro de peixes, onde pequenos restaurantes servem o produto da pesca do dia.

Para os observadores de aves, ciclistas e viajantes que saem de Hong Kong, os terrenos alagados proporcionam um descanso depois do caos das multidões da cidade, embora os chamados dos pássaros sejam normalmente interrompidos pelos sons de um distrito industrial nas proximidades.

Em um lugar em que os preços dos terrenos são alguns dos mais caros do mundo, a área está se tornando cada vez mais atraente para as incorporadoras. “Dentro de alguns anos, tudo isto aqui estará coberto de casas”, disse Yip Ka-kit, 32, descansando do seu passeio de bicicleta em volta de Nam Sang Wai, um pântano de 160 acres separada por dois rios.

Placas que avisam das multas por incêndios dolosos - até prisão perpétua - estão penduradas na área inundada. Uma série de incêndios ocorridos nesta primavera queimou partes de Nam Sang Wai, que ambientalistas e autoridades acreditam tenha sido provocado a fim de prejudicar a sua importância ecológica.

Há décadas, os proprietários destas terras tentam urbanizar a área, mas seus pedidos são rejeitados pelas agências governamentais e pelos tribunais. As dimensões totais são cerca 1.760 hectares. Parte disso está fora do alcance dos projetos em grande escala, inclusive a Reserva Natural de Mai Po, que é protegida por um tratado para a sua conservação.

A reserva inclui lagos para fazendas de produção de camarões que desapareceram em grande parte da China. 

Os pequenos lagos, conhecidos como gei wai, usam as marés para se encherem de camarões jovens de Deep Bay. Então são fechados, permitindo que os camarões cresçam até poderem ser apanhados lugares protegidos drenando a água durante uma maré baixa. “Quando recolhem os camarões, há peixes pequenos e camarões que não queremos, e os pássaros vêm e se alimentam deles”. disse Wen Xianji, diretor assistente da reserva de Mai Po.

A reserva natural tem a proteção da sua localização ao longo dos limites de Hong Kong com Shenzen, onde as autorizações para o ingresso a Hong Kong são limitadas, e uma cerca de arame farpado impede que as pessoas entrem nos alagados. As outras áreas próximas, como Nam Sang Wai, são menos protegidas. A proposta de incorporação mais recente incluiria apartamentos para 6.500 pessoas no local.

Por enquanto, a área continua um destino muito procurado nos fins de semana, com a entrada a uma breve caminhada de um shopping que fica sobre uma estação de trem. Um rápido passeio de sampan (tipo de barco) leva os visitantes até um ramo do Rio Shan Pui.

“Evidentemente, quero que eles preservem este lugar”, disse Yip.”Se eles encherem Hong Kong de habitações, nada mais restará a fazer aqui”.

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