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Um príncipe que buscou refúgio no Catar fala de rivalidades em seu país

Intrigas cercam uma deserção dos Emirados

David D. Kirkpatrick, The New York Times

25 Julho 2018 | 15h00

LONDRES - A fuga de um príncipe dos Emirados para o Catar proporciona um rápido vislumbre das tensões existentes entre os governantes dos Emirados Árabes Unidos e acrescentou um complicador ao seu conflito com o Catar, seu rival regional.

O príncipe, Xeque Rashid bin Hamad al-Sharqi, 31, é o segundo filho do emir de Al Fujayrah, uma das menores e menos ricas das sete monarquias que constituem os Emirados Árabes Unidos. Até pouco tempo atrás, ele dirigia as operações da mídia favorável ao governo de Al Fujayrah.

No dia 16 de maio, o xeque Rashid apareceu inesperadamente no aeroporto de Doha, a capital do Catar, e pediu asilo.

Ele contou às autoridades do Catar que temia pela própria vida por causa de uma disputa com os governantes de Abu Dhabi, a cidade-Estado que domina os EAU, como o xeque Rashid e um catari confirmaram em entrevistas. Os governantes de Al Fujayrah não puderam ser ouvidos.

A fuga do xeque Rashid para Doha é aparentemente a primeira, nos cerca de 47 anos de história  dos EAU, de um membro de uma das suas sete famílias reais que criticou publicamente os governantes, afirmam estudiosos. Em uma entrevista com “The New York Times”, o xeque Rashid  acusou os governantes dos emirados de chantagem e de lavagem de dinheiro, mas não forneceu provas.

Ele falou também de tensões entre os emirados, anteriormente discutidas somente em sussurros, e principalmente de  ressentimentos com a liderança de Abu Dhabi no caso da intervenção militar no Iêmen.

Os governantes de Abu Dhabi, ele declarou, não consultaram os emires dos outros seis emirados antes de levarem suas tropas à guerra contra uma facção aliada do Irã no Iêmen. Mas os soldados de emirados menores, como Al Fujayrah foram responsabilizados pela maioria das vítimas da guerra, que segundo novos relatos dos Emirados, seriam cerca de 100.

O xeque Rashid disse esperar que a atenção do público ao seu problema proteja sua família em Al Fujayrah da pressão de Abu Dhabi. Mas a sua chegada em Doha colocou um dilema para Catar, em parte por causa da incerteza a respeito da disputa do xeque Rashid com Abu Dhabi.

Os EAU e a Arábia Saudita lideram uma campanha para isolar o Catar. Por outro lado, Abu Dhabi tem hospedado alguns membros exilados da família real do Catar, enfatizando suas críticas ao emir que  lá se encontra.

Um porta-voz do Catar não quis comentar o caso.

O xeque Rashid acusou as agências de inteligência de Abu Dhabi de chantageá-lo com a ameaça de divulgar vídeos comprometedores de natureza pessoal. Ele afirmou que se trata de material “forjado”.

Estudiosos do Golfo Pérsico disseram que os líderes dos outros emirados frequentemente criticaram em particular o predomínio de Abu Dhabi sobre os EAU e sua política externa. Mas segundo David B. Roberts, um professor do King’s College d Londres: “É raro que a política da elite seja revelada de maneira tão publica nos EAU”.

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