Valerio Mezzanotti/The New York Times
Looks em desfile de alta costura Primavera Verão 2022 da Dior. Valerio Mezzanotti/The New York Times

Looks em desfile de alta costura Primavera Verão 2022 da Dior. Valerio Mezzanotti/The New York Times

Um réquiem pelos vestidos de festa perdidos

O retorno nunca aconteceu, então, o que vestimos agora? Schiaparelli, Chanel e Dior se agarram lindamente com a pergunta

Vanessa Friedman , The New York Times - Life/Style

Atualizado

Looks em desfile de alta costura Primavera Verão 2022 da Dior. Valerio Mezzanotti/The New York Times

PARIS - A última leva de coleções de alta-costura foi o primeiro reencontro do mundo da moda, esse circo itinerante que se reúne somente durante os desfiles, depois de mais de um ano de trauma pandêmico.

Isso foi em julho de 2021, e as ruas de Paris borbulhavam de euforia; os beijos a distância foram substituídos por abraços de corpo inteiro, e comentava-se que o pior já tinha passado. As vacinas haviam chegado. Restaurantes estavam reabrindo, festivais sendo promovidos. Todos precisavam de novas roupas, que seriam providenciadas pelos estilistas. A Moda com "M" maiúsculo estava de volta.

Toda aquela promessa se evaporou diante da realidade da variante ômicron. Este ano, em Paris, quiosques oferecendo testes de antígenos salpicavam as calçadas praticamente desertas. Coquetéis e jantares estavam fora de cogitação.

E, embora os desfiles de alta-costura tenham retornado (ainda que com a ausência de algumas marcas: a Armani cancelou definitivamente seu desfile exclusivo; a Azzaro e a Giambattista Valli se abrigaram no meio digital), o que se viu na passarela foi nada mais nada menos do que um réquiem para todos que perderam a esperança.

Ou, como escreveu Daniel Roseberry, diretor criativo da Schiaparelli - que teve um 2021 emblemático, vestindo Lady Gaga na posse do presidente americano, Beyoncé no Grammy e Bella Hadid no Festival de Cannes -, nas observações de seu desfile: "A perda da certeza; a perda da segurança; a perda de nosso futuro coletivo."

Ele poderia ter acrescentado: a perda, logo antes do início da temporada, de duas das mais vívidas personalidades do mundo da moda: André Leon Talley, o operístico editor e devoto da alta-costura; e Thierry Mugler, o primeiro designer de prêt-à-porter a ser convidado para o circuito da alta-costura, cujas exuberantes produções transformavam os desfiles em espetáculos. Nem mesmo o imbróglio de Kanye West e Julia Fox na fila do gargarejo foi capaz de oferecer mais do que uma distração momentânea.

Será que a moda está no limbo? Bom, desta vez, talvez todos conheçamos essa sensação.

Teria sido extremamente deprimente, se, em alguns momentos, não tivesse sido tão lindo. Essa é a alquimia do evento: transformar até mesmo nosso mal-estar generalizado em algo belo.

Nem sempre funciona: em sua segunda coleção para a Alaïa, que fica entre a alta-costura e o prêt-à-porter, Pieter Mulier parecia estar preso entre o legado do fundador da marca e as ideias próprias.

Os vestidos colantes de tricô, que lembravam as tânagras de Picasso - esculturas cerâmicas do fim da década de 1940 que brincavam com o corpo feminino -, estavam incríveis, mas a tentativa de resgatar os inconfundíveis babados da saia Alaïa como bocas de sino exageradas não impressionou. Elas apareceram em macacões de renda de tricô (ou macacões de crochê de uma perna só), nos jeans e no cano de botas. Usadas com vestidos curtos colantes que deixavam à mostra uma faixa de pele, dando a impressão de que a "saia" flutuava sobre as pernas, pareciam ilusão de ótica em busca de um ponto fixo. Ou uma festa (agora, cancelada).

Mas na Schiaparelli, em sua ambivalência e em suas dúvidas sobre o futuro, Roseberry encontrou inspiração, trocando alguns dos exagerados efeitos cenográficos que marcavam seus trabalhos anteriores por uma silhueta mais ajustada, quase inteiramente em preto, branco e dourado.

Sim, havia alguns dos acessórios metálicos com duplo sentido que ele tornou famosos, como os "toe shoes" (sapatos com artelhos dourados e unhas proeminentes) e palmeiras brotando dos ombros, além de um impressionante conjunto de vestido, adereço de cabeça e luvas combinando, feitos do que pareciam ser labaredas folheadas a ouro e pedras preciosas, fazendo com que a modelo parecesse uma sarça ardente.

Mas havia principalmente bermudas de ciclismo e jaquetas acinturadas com gola curvilínea bem alta, espartilhos e saias lápis. Um vestido tomara que caia preto curto tinha anéis ao redor dos braços e do corpo que pareciam órbitas planetárias; em outro, finas tiras metálicas saíam do decote sem alças, lembrando uma chuva de meteoros. Uma grande jaqueta preta ostentava ornamentos dourados bordados; uma gola de veludo eclesiástica repousava sobre um vestido fino de seda branca. O efeito final foi o de uma ordem religiosa de outro planeta. (Roseberry confessou ter desenvolvido "uma leve obsessão" pelo novo filme Duna durante o isolamento social.) Quando surgiu uma modelo de cujos olhos escorriam lágrimas de cristal, com um chapéu dourado semelhante a uma auréola, seu corpo uma nesga de preto, a cena parecia um poema triste.

Como símbolo, o único outro recurso visual que chegou perto desse efeito foi o círculo preto pintado ao redor de um dos olhos de algumas das modelos da Chanel, que, segundo o porta-voz da marca, conversava com o cenário construtivista criado pelo artista contemporâneo Xavier Veilhan, mas que, na prática, parecia mais um olho roxo.

Isso, em parte, porque hoje em dia pensamos sempre no pior. E também porque Charlotte Casiraghi, embaixadora da marca e dedicada amazona, abriu o desfile montada a cavalo, e foi difícil não imaginar todos os tipos possíveis de acidentes equestres. Andamos com uma sensação generalizada de termos levado um coice no rosto.

Os olhos pintados de preto foram o ponto de conexão com os tailleurs de buclê sobrepostos, como camadas protetoras, sobre roupas íntimas finíssimas e graciosos vestidos negligê da década de 1920, de caimento leve. Exceto por algumas combinações estranhas de calças harem com jaquetas de tweed, essa foi a melhor coleção que a designer Virginie Viard produziu desde que assumiu o cargo em 2019, depois da morte de Karl Lagerfeld. Pelo menos a coleção não tentou afirmar sua relevância jovial contemporânea tão desesperadamente.

Está claro agora que ninguém pode prever o futuro, nem mesmo o que vestiremos daqui a seis meses. O máximo que os designers podem fazer é oferecer cuidados paliativos para uma vida que está pausada.

Foi o que fez a diretora artística da Dior, Maria Grazia Chiuri. Trabalhando predominantemente com tons de preto, branco e prata, assim como Roseberry, da Schiaparelli, e preocupada (como ele) com o atual papel da moda, ela apresentou um desfile que valorizou a habilidade artesanal - o detalhe revelador em vez da declaração bombástica. Seu estilo é cada vez mais minimalista - às vezes, tão sutil que parece que será soprado para longe -, forçando o público a olhar cada vez mais de perto para entendê-lo: bordados tão delicados que parecem tecido; vestidos suspensos por pregas a partir da gola.

Túnicas de lã cor de marfim com capuz solto revelam nas costas um painel de contas translúcidas, remetendo à pureza das freiras, alternadas com leggings translúcidas com pedrarias elaboradas usadas com pequenos bodies de um ombro só, ou sob saias midis transparentes - sempre com meias soquetes com bordados metálicos e sapatos de salto fino médio cobertos de pedrarias, para melhor exibir o trabalho minucioso de seu ateliê.

Tudo isso contra um fundo de 340 metros quadrados de painéis de parede criados pela escola de bordado Chanakya, da Índia (essa é a terceira vez que a escola trabalha em um desfile da Dior), replicando as obras do casal de artistas plásticos Manu e Madhvi Parekh. Nos bastidores, Chiuri disse que a mensagem era que "a habilidade artesanal não tem nacionalidade". E que o trabalho manual, geralmente relegado ao posto de arte popular, é tão valioso quanto qualquer arte decorativa.

Essa é uma ideia mais politicamente radical e interessante do que o feminismo que ela geralmente defende na passarela, e potencialmente mais eficaz. Ela está pensando pequeno, mas da maneira mais grandiosa.

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