Marian Carrasquero/The New York Times
Marian Carrasquero/The New York Times

Um time de softbol de mulheres indígenas vence os oponentes e o machismo

Um time maia de uma pequena comunidade na Península de Yucatán tem causado sensação e se destacado pois as atletas jogam descalças e usam vestidos tradicionais, quebrando barreiras a cada jogo

Adam Williams, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 05h00

HONDZONOT, México - Jogando descalças e usando vestidos maias tradicionais conhecidos como huipiles, o time de softbol Little Devils rebate muito bem, usa as unidades de linha e corre pelas bases no calor sufocante de uma cidade na selva da Península de Yucatán.

Recentemente, o time teve uma vitória esmagadora de 22 a 2 sobre seu oponente, o Felines, mais um triunfo em uma temporada que fez do Little Devils uma sensação nacional, não apenas pelo seu estilo de jogo, mas também por quem elas são: um grupo de mulheres indígenas de uma comunidade tradicional que antes desencorajava as mulheres a praticarem esportes, vistos como domínio dos homens.

E o Little Devils agora tem companhia, o Yaxunah Amazonas, cujas mulheres também jogam descalças e com trajes tradicionais e têm ajudado a levantar a cultura esportiva de Yucatán.

“Aqui, uma mulher deve ficar em casa e não sair para praticar esportes”, disse Fabiola May Chulim, capitã do time e gerente do Little Devils, conhecido aqui como Las Diablillas, seu nome em espanhol. “Quando uma mulher se casa, ela deve fazer tarefas domésticas, cuidar do marido e dos filhos. Decidimos há alguns anos que isso não nos impedirá mais de praticar um esporte quando quisermos. ”

Há quatro anos, as mulheres do time da pequena comunidade, Hondzonot, começaram a jogar uma versão modificada do beisebol à tarde. A ideia era fazer algum exercício depois de cumprir as tarefas domésticas, e cresceu a partir daí. As Diablillas não tinham luvas, apenas um taco caseiro de madeira. Elas jogavam com uma bola de tênis. O jogo seguia as regras do beisebol, embora, como no kickball, um corredor seria considerado expulso se atingido pela bola.

Um time feminino de uma cidade próxima também jogou o beisebol modificado com uma bola de tênis e desafiou as Diablillas para uma partida. As mulheres de Hondzonot venceram, receberam 1.500 pesos (cerca de US $75) uniformes e um treinador da prefeitura local para ensiná-las as regras do softbol.

Embora agora tivessem camisetas, as mulheres de Hondzonot preferiam jogar softbol como antes - descalças e com vestidos huipil, que elas mesmas fazem e usam com frequência na comunidade. Essa decisão se tornaria a característica definidora das Diablillas e ajudou a impulsioná-las para a fama.

“Vestimos o huipil com muito orgulho, é algo que nos representa como mulheres maias”, disse May Chulim. “Também não estamos acostumadas a usar sapatos e, quando usávamos, ficávamos com bolhas. Por que usaríamos algo que nos deixa desconfortáveis?”

Conforme as Diablillas disputam mais jogos - todos amistosos porque não há uma liga de softbol estabelecida para elas - nos estados mexicanos de Quintana Roo e Yucatán, sua fama na região cresce. Agora, apenas alguns anos depois de aprenderem as regras do softbol, elas jogaram em estádios diante de milhares de fãs e seus rostos estão em um mural na cidade turística de Playa del Carmen, localizada nas redondezas. Na primavera passada, o presidente Andrés Manuel López Obrador, do México, convidou May Chulim para participar de uma de suas coletivas de imprensa diárias na Cidade do México.

O estrelato do time trouxe mudanças nas percepções dos homens da cidade. Enquanto integrantes das Diablillas costumavam pedir permissão para algo tão simples como sair de casa, agora elas dizem que se sentem mais livres e fortalecidas.

“À medida que melhoramos no campo, minha vida também melhorou”, disse Alicia Canul Dzib, que joga na segunda base e é arremessadora do Diablillas. “Eu só saía de casa, na verdade, para ajudar meu marido com a plantação. Agora, graças ao softball, tenho permissão para sair de casa, me divertir com os amigos e visitar novas cidades. Isso me motiva a continuar jogando e dar um exemplo para minha filha.”

O exemplo das Diablillas deixou as mulheres da Península de Yucatán - e do resto do país - esperançosas por mais recursos para um esporte que, apesar do quarto lugar da seleção mexicana nas Olimpíadas de Tóquio, tem recebido um apoio intermitente e limitado a nível nacional. Embora por quase um século o México tenha uma liga de beisebol profissional em todo o país que às vezes conta com jogadores da Liga Principal de Beisebol, as ligas de softbol feminino existem apenas nos níveis estadual e municipal.

Há esperança, no entanto, de que a popularidade do Diablillas e do Amazonas representará um “momento divisor de águas” para o crescimento do esporte no México, Abel Fernández, presidente da associação estadual de beisebol de Quintana Roo, disse em uma entrevista recente por telefone.

Não é comum que mulheres maias ou indígenas se envolvam em esportes em suas comunidades, e as Diablillas estão rompendo com esses estereótipos”, disse Fernández, acrescentando que Quintana Roo havia criado recentemente uma associação estadual de softbol. “Elas chamaram muita atenção e agora estamos vendo um crescimento no interesse por softball e esportes entre as mulheres da região.”

Em um treino recente, o Amazonas, com 15 jogadoras de 15 a 64 anos, se comunicou em uma mistura de maia e espanhol, gargalhou e jogou a bola ao redor do diamante enquanto algumas de suas cabras baliam do campo externo, onde estavam amarradas a árvores.

Assim como o Diablillas, o Amazonas tem sido cada vez mais procurado como adversário de times de mulheres que usam chuteiras e uniformes tradicionais. E em julho, o Amazonas foi convidado a se apresentar no campo do Yucatán Leones, organização profissional de beisebol com sede em Mérida, capital do estado.

A capitã do time, Fermina Dzid Dzul, disse que desde sua formação, há três anos, a equipe tem lutado para mudar os paradigmas de gênero sobre a participação esportiva em Yaxunah.

“Quando comecei a jogar, os homens da minha família faziam piadas e comentários como ‘Você está apenas perdendo seu tempo jogando softbol’”, disse Alvi Yajaira Diaz Poot, que joga em várias posições pelo Amazonas. “Agora, quando chego em casa dos jogos, eles ficam ansiosos para saber como foi e até me trazem algo para beber.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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