Sergei Zelensky via The New York Times
Sergei Zelensky via The New York Times

Uma antiga família de mestiços

DNA de um humano híbrido mostra a diversidade da humanidade

Carl Zimmer, The New York Times

03 Setembro 2018 | 10h15

Numa caverna bem acima do Rio Anui, na Sibéria, cientistas descobriram os fósseis de um ser humano híbrido. O fragmento de osso de 90 mil anos atrás veio de uma mulher cuja mãe era de Neandertal. Mas seu pai pertencia a outro ramo da antiga humanidade, conhecido como os hominídeos de Denisova.

Com a descoberta do híbrido Neandertal/hominídeo de Denisova, um retrato do mundo de dezenas de milhares de anos atrás começa a ficar mais nítido: o lar de uma maravilhosa diversidade de espécies humanas.

Em 2010, pesquisadores que trabalhavam em uma caverna siberiana, conhecida como Denisova, encontraram DNA num fragmento de osso que representava um grupo desconhecido de humanos. Os cientistas ainda não sabem dizer qual era a aparência dos hominídeos de Denisova, mas está claro que foram separados do homem de Neandertal e dos humanos modernos por centenas de milhares de anos de evolução.

Até agora, os cientistas tinham pistas indiretas indicando que havia reprodução cruzada entre o homem de Neandertal, os hominídeos de Denisova e os humanos modernos. Mas o novo estudo, publicado na revista Nature, traz provas conclusivas.

A descoberta em 2010 do primeiro fóssil de Denisova (chamado Denisova 3) levou pesquisadores russos a aprofundarem a exploração do solo da caverna. Este é coberto por fragmentos de ossos.

Muitos foram enviados a Svante Paabo, diretor do Instituto de Biologia Evolutiva Max Planck, em Leipzig, Alemanha. Sua equipe encontrou o genoma de um homem de Neandertal num osso do dedo do pé com idade de 120 mil anos. Os hominídeos de Denisova apareceram mais tarde, e a partir dos fósseis era difícil saber ao certo se os hominídeos de Denisova e o homem de Neandertal entraram em contato. Mas o DNA era indicativo de uma união: o genoma de Denisova 3 continha vestígios de DNA neandertal.

Em 2014, colaboradores russos enviaram à equipe de Paabo 2 mil fragmentos de ossos muito danificados extraídos da caverna. "Nem sequer conseguimos determinar se são de humanos ou de animais", disse Paabo.

Apenas um fragmento de osso continha colágeno semelhante ao nosso. Viviane Slon, que na época era estudante de pós-graduação no instituto, comandou uma busca por vestígios de DNA. Em 2016, Viviane e seus colegas informaram ter obtido DNA mitocondrial, que se assemelhava muito ao material genético do homem de Neandertal. Os pesquisadores batizaram esse indivíduo de Denisova 11 e começaram a busca por DNA nucleico.

Estranhamente, apenas alguns dos fragmentos de DNA nucleico correspondiam aos genes do homem de Neandertal. A presença de DNA do hominídeo de Denisova no osso era proporcional. "Eu me indagava, 'Onde foi que errei?'", lembra Viviane.

Para cada par de cromossomos, um deles era do homem de Neandertal, e o outro, de um hominídeo de Denisova. Ela concluiu com os colegas que esse indivíduo seria um híbrido. "Encontramos provas convincentes de que esta era uma situação real", disse ela.

Um exame do cromossomo X revelou que Denisova 11 era uma mulher. Como o DNA mitocondrial é transmitido apenas pelas mães, a mãe dela era de Neandertal. O DNA de seu pai, um hominídeo de Denisova, assemelha-se bastante ao material genético de Denisova 3, que viveu na caverna alguns milhares de anos depois de Denisova 11. Mas a mãe de Denisova 11, uma neandertal, tinha mais parentesco com o homem de Neandertal encontrado milhares de quilômetros ao oeste, na atual Croácia, 20 mil anos após a morte de Denisova 11. Seu parentesco com os homens de Neandertal que habitaram a caverna 120 mil anos atrás era apenas distante.

Apesar da reprodução cruzada, o homem de Neandertal e os hominídeos de Denisova nunca formaram uma população única. "Eles não se encontravam muito, mas, quando isso ocorria, parece que não havia preconceitos, e todos se misturavam livremente", disse Paabo.

Uma reprodução cruzada mais ampla pode ter ganhado força quando os humanos modernos emergiram da África há cerca de 70 mil anos. As pessoas sem antepassados africanos têm fragmentos de DNA do homem de Neandertal em seus genomas, e o DNA do hominídeo de Denisova está presente nos habitantes do Leste Asiático, nos aborígenes australianos e em outras populações.

O pesquisador Svante Paabo indaga se é apenas coincidência o fato de esses ramos da humanidade terem desaparecido dos registros de fósseis depois que os humanos modernos chegaram aos seus territórios.

"Talvez o homem de Neandertal e os hominídeos de Denisova tenham sido absorvidos pela população de humanos modernos", disse Paabo. "Esta pode ser uma parte importante da história".

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