fotografias de Tristan Spinski para The New York Times
fotografias de Tristan Spinski para The New York Times

Uma busca por lugares que prezam pelo silêncio

Poluição sonora está aumentando nas áreas de preservação em todo o território dos Estados Unidos

Jess Bidgood, The New York Times

09 Outubro 2018 | 06h00

BENTON, NEW HAMPSHIRE - O andarilho seguiu por uma estrada vicinal usada pelas madeireiras até chegar a um vale, uma rota que parecia chamar pouca atenção. Nada de vistas impressionantes das montanhas. Mas ele parou subitamente, em júbilo, depois de caminhar por cerca de 6,5 quilômetros. 

Tinha encontrado o que estava procurando: silêncio.

“Vamos ver como passamos três minutos de silêncio", disse o andarilho, Dennis Follensbee.

Nessa época de tanto barulho - com adversários políticos gritando na televisão, caminhões cortando as ruas e celulares apitando - quem poderia recusar um pouco de paz e tranquilidade? Mas alguns dos amantes da natureza levaram sua aversão um passo além, viajando até algumas das regiões mais remotas dos Estados Unidos numa busca pelo silêncio total.

Armado com o Google Maps, ferramentas para andar na mata e 16 anos de experiência em caminhadas na região, Follensbee, um programador de Lebanon, Nova Hampshire, se dedica a uma exaustiva busca pelos recantos e bosques silenciosos das Montanhas Brancas de Nova Hampshire.

“Sei que há lugares que posso procurar para encontrar um pouco de paz", disse Follensbee, 39 anos, que já mapeou 23 lugares do tipo até o momento, embora não tenha compartilhado com os demais a maioria delas (de acordo com ele, se um local silencioso se tornar conhecido, “deixará de ser silencioso”).

Os entendidos do silêncio dizem que alcançá-lo é cada vez mais difícil, mesmo em ambientes selvagens, escapando do barulho de veículos, indústrias e vozes. Um estudo publicado no ano passado na revista científica Science revelou que a poluição sonora estava dobrando os níveis de barulho em boa parte das áreas preservadas dos Estados Unidos.

O barulho criado pelos humanos pode ser irritante e até perigoso para animais que dependem da audição para caçar sua presa e evitar predadores. “Estamos começando a compreender as consequências do barulho e a importância do som natural”, disse Rachel Buxton, bióloga da Universidade Estadual do Colorado Colorado.

Na Universidade Estadual de Washington, o ecologista acústico Gordon Hempton assumiu a missão de preservar o que ele chama de "uma polegada quadrada" de silêncio no Parque Nacional Olympic. Ele e outros chamaram a atenção para o barulho alto dos jatos da marinha, mas diz acreditar que o Parque Nacional Olympic seja um dos cerca de 12 lugares no território continental americano onde uma pessoa poderia passar 15 minutos sem ouvir nenhum som produzido pelo homem.

“Precisamos defender os lugares silenciosos que restam e limpar a poluição sonora de lugares que deveriam ser silenciosos", disse Hempton.

No Monumento Nacional Muir Woods, na Califórnia, as autoridades adotaram medidas para limitar o barulho, como distribuir avisos pedindo às pessoas que falem baixo. Durante anos, os preservacionistas que tentavam limitar o barulho dos visitantes e dos voos de helicóptero no Grand Canyon enfrentaram a oposição das empresas e tribos indígenas que dependem do turismo e da recreação. 

E as pessoas cujas paixões fazem barulho - como os motociclistas - dizem que também têm o direito de desfrutar das áreas selvagens.

“O som faz parte da experiência emocionante de andar de motocicleta", disse Peter Spinney, 75 anos, de Nova Jersey, que atravessou de moto as Montanhas Brancas em agosto. “É parte da atração.”

Follensbee visitou um de seus lugares silenciosos outro dia e sacou o celular para gravar os sons. 

Por três minutos, um leve zumbido de insetos, folhas farfalhando e cantos de pássaros foi tudo que se pôde ouvir. Então aproximou-se um veículo, com seu motor cada vez mais alto.

“É um pouco frustrante", disse Follensbee. “Estamos tão longe de tudo.”

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