Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

Uma chance de passar mais de 99 anos em Veneza (em um túmulo)

Lotes no cemitério de San Michele podem ser adquiridos em leilão

Elisabetta Povoledo, The New York Times

05 Julho 2018 | 15h00

VENEZA - Alugam-se: quatro pequenos lotes por 99 anos (renováveis), em uma ilha exclusiva de Veneza. Necessitando reparos. Vizinhos ilustres: Igor Stravinsky, Joseph Brodsky, Emilio Vedova. Preço inicial no leilão: aproximadamente US$ 300 mil.

Essa foi a essência do edital de licitação que apareceu no site municipal de Veneza em março. Quatro capelas mortuárias no cemitério de San Michele, a “ilha dos mortos” de Veneza, iriam a leilão. 

O cemitério, construído depois que o governo de Napoleão ordenou que os moradores da cidade enterrassem os seus mortos longe do centro por razões de saúde, há mais de 200 anos, é o local do descanso final dos venezianos, bem como de estrangeiros ilustres que receberam uma autorização especial.

Agora, esta honra irá para quem der o maior lance. O prefeito Luigi Brugnaro colocou em leilão cinco capelas particulares construídas por antigas famílias da cidade, mas que estão abandonadas há anos. Os lucros serão usados para restaurar partes mais antigas do cemitério.

É uma rara oportunidade de passar a vida após a morte - ou pelo menos 99 anos dela, renováveis por mais 50 - em um lugar exclusivo que normalmente só é aberto aos moradores de Veneza, à parentes dos que estão enterrados no cemitério e à celebridades que tiveram uma forte relação com a cidade.

Estejam prevenidos: As capelas precisam de restauro e precisarão de cuidados por toda a eternidade. Uma capela aqui precisa “da mesma manutenção de um palazzo do centro histórico”, disse Massimiliano De Martin, o vereador responsável pelo planejamento urbano.

Em março, um empresário francês garantiu a Capela Salviati com um lance de 350 mil euros no primeiro leilão.

Os novos proprietários - Dominique Vacher, diretor geral dos Laboratoires Genevriers, uma companhia farmacêutica - e sua esposa, já eram proprietários de um apartamento na cidade da laguna, e decidiram esticar a sua permanência.

No cemitério de San Michele, os parentes dos falecidos costumam cuidar dos túmulos, e recentemente, venezianos de várias idades levaram flores frescas, limparam os túmulos e escorraçaram os mosquitos esfomeados.

Entretanto, muitas tumbas mais antigas necessitam de um trabalho de restauração especializado, questão esta de grande urgência porque a população de  Veneza está minguando. Atualmente, há apenas 85 mil pessoas descansando em paz na ilha, em comparação com os 56 mil venezianos que vivem no centro histórico; eram 175 mil em 1951.

“Há mais venezianos mortos do que vivos - é um fato”, disse De Martin.

O cemitério tornou-se uma atração turística, tanto para prestar homenagem às celebridades ali enterradas, quanto para os que querem desfrutar de sua paz e solenidade.

“Sabe, você está sorrindo aqui no cemitério”, disse De Martin. “Você não morre aqui. Este é o sentimento que queremos dar: que em Veneza, ninguém morre. Você vive para sempre, de outra maneira, mas continua vivendo”.

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