Steve Gschmeissner/Science Source
Steve Gschmeissner/Science Source

Uma criatura microscópica capaz de vencer os efeitos do tempo

Cientistas estudam como transferir para células humanas a capacidade dos tardígrados de entrar em estado de dormência

Steph Yin, The New York Times

04 de março de 2019 | 06h00

Existem situações na medicina em que seria útil parar o avanço do tempo - ou ao menos retardá-lo. Isso poderia evitar a amputação de um membro, impedir a paralisia após um derrame ou salvar uma vida após um ataque cardíaco.

Há muitos organismos que podem essencialmente trapacear o tempo por meio da desaceleração de sua biologia. O principal deles é o tardígrado, criatura do tamanho de um grão de areia que pode sobreviver a condições extremas de temperatura e pressão, ao vácuo do espaço e a todo tipo de cenário apocalíptico graças à sua capacidade de entrar em um estado de dormência chamado anidrobiose.

Uma equipe da Faculdade de Medicina de Harvard estuda os tardígrados na esperança de encontrar tratamentos médicos para deter os danos em tecidos. Em especial, os cientistas estão se inspirando em proteínas específicas que talvez estejam envolvidas na animação suspensa alcançada pelos tardígrados. Seu objetivo é sintetizar uma versão dessas proteínas que possa entrar nas células humanas e pausar processos que levam à morte celular.

"Quando alguém se fere, há um intervalo limitado para levar a pessoa a um médico ou hospital", disse Pamela Silver, professora de biologia de sistemas. "Assim, nossa meta maior é descobrir como prolongar esse intervalo".

Também conhecido como urso-d'água ou leitão-do-musgo, o tardígrado parece um croissant de oito perninhas quando visto ao microscópio. Esses invertebrados vivem em qualquer lugar onde haja água, dos ambientes do cotidiano - como um estacionamento ou no musgo de uma pedra - até os ambientes mais extremos da Terra, como as fossas oceânicas, fontes de água quente, os cumes do Himalaia e as profundezas do gelo antártico.

Durante a anidrobiose, os tardígrados se encolhem formando uma bola ressecada chamada tonel, reduzindo seu metabolismo a 0,01% do normal. Podem permanecer nessa forma por décadas e retomar suas vidas quase imediatamente depois de serem reidratados.

Em 2017, os cientistas descobriram proteínas únicas, chamadas proteínas intrinsecamente desestruturadas do tardígrado, que podem ajudar a colocar as células das criaturas num estado protegido. Ainda não se sabe exatamente como funcionam essas proteínas, segundo Roger Larken Chang, que dirige o laboratório de Pamela Silver. Pesquisas indicam que talvez elas formem um vidro biológico que imobiliza todo o funcionamento de uma célula durante períodos de estresse. Chang está analisando essas proteínas intrinsecamente desestruturadas, bem como as proteínas associadas à tolerância ao estresse em outros organismos.

Para estabelecer as bases da engenharia de uma nova proteína sintética, Pamela e Chang procuraram Debora Marks, bióloga computacional de Harvard cujo laboratório criou um algoritmo capaz de procurar padrões recorrentes em milhões de sequências de proteínas.

"Poderíamos usar isso para compreender melhor a estrutura das proteínas, suas funções, efeitos e mutações ou, melhor ainda, para gerar sequências destinadas à engenharia", disse Débora.

Segundo Pamela, a equipe recebe recursos do exército dos Estados Unidos para buscar tratamentos à base de proteínas para retardar o sangramento e a necrose de tecidos em ferimentos traumáticos. 

Chang explicou que, além do combate, há muitas outras aplicações em potencial, incluindo a preservação sem refrigeração de medicamentos à base de proteínas, de óvulos para a fertilização in vitro e de órgãos para transplante. Em um futuro distante, esse trabalho poderia abrir caminho para a preservação de corpos inteiros e vivos, o que seria útil para a viagem espacial e situações de emergência.

"Sei que parece uma hipótese remota, mas, se demonstrarmos a eficácia desse procedimento em células e tecidos, é possível começar a pensar em usos desse tipo", disse ele.

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