Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Uma disputa envolvendo cruzes na Baviera

Os símbolos religiosos estão voltando depois que a Alemanha aceitou mais de um milhão de imigrantes, sendo a maioria formada por muçulmanos

Katrin Bennhold, The New York Times

29 de junho de 2018 | 10h15

DEGGENDORF, ALEMANHA - Quando chegou a ordem de pendurar uma cruz na entrada de cada prédio estatal da Baviera, o prefeito de Deggendorf não se incomodou muito.

As cruzes são onipresentes em Deggendorf, cidade digna de um cartão-postal às margens do Danúbio. Há uma no escritório dele e outra no salão onde os funcionários municipais realizam os casamentos civis.

Há uma cruz na parede da base dos bombeiros, e também em quase todas as salas de aula. “É uma questão de cultura, não de religião”, disse o prefeito, Christian Moser.

A religião está em declínio na Alemanha, mas os símbolos religiosos têm sido retomados como parte da guerra cultural travada desde quando o país abriu suas portas a mais de um milhão de imigrantes, muitos deles vindos de países de maioria muçulmana.

A ordem de pendurar cruzes veio do novo premiê conservador da Baviera, Markus Söder, cuja União Cristã Social está numa disputa acirrada antecipando as eleições estaduais de outubro. Ele tem como adversário a extrema direita, encarnada no partido antimuçulmano Alternativa para a Alemanha, que vem ganhando espaço na Baviera (de maioria católica) e promove sua campanha com base no medo da islamização. Para os críticos, a ideia das cruzes é uma iniciativa para roubar votos da extrema direita.

Söder insistiu que “a cruz não é um símbolo religioso”, mas de identidade e cultura, e sua exibição não consiste numa “violação do princípio da neutralidade" das autoridades estaduais.

O raciocínio dele ecoa uma decisão polêmica do Tribunal Europeu de Direitos Humanos de 2011, segundo a qual uma cruz exibida em público seria “um símbolo passivo". Em geral, a Alemanha seguiu a regra estipulando que cruzes podem ser exibidas, a não ser que alguém fique suficientemente ofendido a ponto de questionar sua presença. Isso raramente acontece.

Mas os críticos dizem que a exibição sistemática de um símbolo cristão nos edifícios do governo reduz a separação entre estado e religião.

Os conservadores logo chamaram os críticos do decreto de “inimigos da religião", algo surpreendente se pensarmos que o arcebispo de Munique acusou Söder de “instrumentalizar” um símbolo cristão para finalidades políticas.

Mas as pesquisas de opinião mostraram que a maioria dos bávaros é favorável à iniciativa, que entrou em vigor no dia 1.º de junho. Mais da metade dos cristãos praticantes na Alemanha acredita que o Islã é incompatível com os valores e a cultura alemã, de acordo com um levantamento recente realizado pelo Pew Research Center. Recentemente, o ministro do interior, Horst Seehofer, foi além. “O Islã não é parte da Alemanha", disse ele.

Seehofer, que já foi o premiê bávaro, visitou Deggendorf em maio. Falando a uma multidão, ele disse que o sistema de valores da Alemanha era “moldado pela cristandade", antes de encerrar o discurso com “Deus abençoe a todos” - uma expressão que os políticos alemães não costumam usar.

Na escola do ensino médio Robert-Koch, os estudantes rezam todas as manhãs. Logo antes de uma prova de matemática numa manhã recente, os estudantes rezaram pedindo “calma" e “clareza de pensamentos".

“Talvez isso ajude", disse o diretor da escola, Heinz-Peter Meidinger, que comandou a prece. Cerca de 7% dos estudantes são muçulmanos, disse ele. Espera-se deles que fiquem de pé, mas não é necessário que rezem. “Isso nunca causou nenhum problema", disse ele.

Ugur Bagislayici, um bávaro de origem turca que fala com um sotaque da baixa Baviera e é conhecido pelo nome artístico de Django Asül, disse, “no é tanto uma questão de onde as cruzes são penduradas, e sim como elas são usadas nas eleições”. Bagislayici come carne de porco e bebe cerveja como seus vizinhos. “Talvez todos aqueles que falam em nome dos muçulmanos ofendidos devessem primeiro perguntar o que esses muçulmanos de fato pensam", disse ele.

Não há muitos muçulmanos em Deggendorf, cidade de pouco mais de 36 mil habitantes. A comunidade turca existe faz tempo: os primeiros trabalhadores convidados chegaram nos anos 1960 e 70, como o pai de Bagislayici. Alguns dos 350 refugiados que vivem no abrigo local para solicitantes de asilo são de Serra Leoa. Mas, antes mesmo da chegada deles, as pessoas desenvolveram o medo de uma “invasão muçulmana", disse o padre católico Martin Neidl.

“O medo não é racional", disse ele. “Mas o medo é poderoso.”

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