Jialun Deng para The New York Times
Jialun Deng para The New York Times

Uma dose de realidade para a indústria chinesa da tecnologia

'Incidente da ZTE' expõe dependência tecnológica chinesa em relação ao Ocidente

Li Yuan, The New York Times

22 de junho de 2018 | 15h00

HONG KONG - Antes ridicularizada como tecnologicamente atrasada e afeita a imitações, a China tem agora um orgulho justificável de sua prosperidade tecnológica. Seus habitantes se transportam pelo país em trens de alta velocidade. Podem usar seus smartphones para comprar e pagar por praticamente qualquer coisa. Para os chineses viajando no exterior, o restante do mundo pode parecer lento e antiquado.

Agora, esse progresso foi colocado em dúvida.

O governo Trump anunciou no dia 7 de junho um perdão à ZTE, que emprega 75 mil funcionários e é a quarta maior fabricante de equipamentos de telecomunicação do mundo.

A ZTE, que tinha violado sanções americanas, concordou em pagar uma multa de US$ 1 bilhão e permitir o acesso de inspetores às suas instalações. Em troca, a empresa, que já foi símbolo do progresso e experiência da engenharia chinesa, receberá permissão para comprar os microchips, software e outras ferramentas (todos feitos nos Estados Unidos) dos quais necessita para sobreviver. Parece que a prosperidade da tecnologia chinesa foi construída usando a tecnologia ocidental.

Para muitos chineses, o incidente da ZTE, como o episódio é chamado na China, revela o quanto a tecnologia do país ainda precisa avançar.

A professora-adjunta Dong Jielin, do Centro de Pesquisa para a Inovação Tecnológica da Universidade Tsinghua, em Pequim, disse, “percebemos que a prosperidade da China foi construída sobre a areia".

A China sente agora grande urgência para mudar essa situação.

A próspera indústria da tecnologia é a epítome do chamado modelo chinês, segundo o qual as pessoas podem subir na vida e prosperar mesmo sob rígido controle do governo. Mas o quase colapso da ZTE abalou os empreendedores de tecnologia, investidores e cidadãos comuns na China.

“O recente incidente envolvendo a ZTE nos fez enxergar claramente que, independentemente do quanto seja avançado nosso sistema de pagamento com celulares, sem os serviços móveis, microchips e software, não podemos concorrer de maneira competente", disse Pony Ma, diretor executivo da gigante chinesa da internet, Tencent Holdings, num fórum científico em maio.

A China sente uma nova urgência para ampliar suas capacidades tecnológicas. O projeto atual, chamado Made in China 2025, é a principal causa da piora nas relações entre EUA e China. Mas os problemas com a ZTE, que teve receita de US$ 17 bilhões em 2017, vai apenas estimular os chineses a seguir adiante.

“A autonomia é o princípio que vai levar a China a manter com firmeza sua posição no mundo, e a inovação independente é nossa única maneira de escalar a montanha da ciência e da tecnologia globais", disse o líder chinês Xi Jinping a seus principais cientistas em maio.

Ding Jichang, fundador e diretor executivo da chinesa Mobiuspace, que desenvolve aplicativos para celulares, disse que a ideia da China como potência tecnológica não está equivocada. Ele destacou que as empresas chinesas logo descobriram como usar o poder do celular no cotidiano. A ZTE e outras empresas são competitivas em áreas como tecnologia de dados para celulares.

Mas muitos na China também se viram presos num outro ciclo. A poderosa máquina de propaganda abafou as vozes racionais, disse a professora Dong, da Universidade Tsinghua. A prosperidade da tecnologia se encaixa perfeitamente na grande narrativa de Pequim a respeito de um rejuvenescimento nacional.

Inovação e empreendedorismo são políticas nacionais, com imenso suporte financeiro por parte do governo.

O período de prosperidade impediu muitos de fazerem perguntas difíceis. Eles nem indagaram por que a China ainda importa 90% de seus componentes semicondutores apesar de a indústria ter se tornado uma prioridade nacional em 2000.

O tom mudou.

Algumas empresas chinesas estão redobrando os esforços para desenvolver os próprios chips. A Gree Electric Appliances, de Zhuhai, maior fabricante mundial de ar-condicionados, começou a construir seus próprios chips para ar-condicionado três anos atrás na tentativa de reduzir custos e controlar melhor a cadeia de fornecimento.

“Após o incidente envolvendo a ZTE, percebemos como é importante a capacidade de fabricar os próprios chips", diz Tang Xiaohui, executivo-sênior encarregado do desenvolvimento de chips e celulares da Gree.

A presidente da empresa anunciou em rede nacional de televisão que a Gree gastaria US$ 7,8 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de chips nos próximos três anos.

Os chips desenvolvidos pela Gree podem não ser tão bons quanto os americanos, disse Tang. “Mas precisamos de um plano B.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.