Alexander Coggin para The New York Times
Alexander Coggin para The New York Times

Uma experiência de terror onde nem tudo é de mentira

Na Disneylândia da Califórnia, a Mansão Assombrada perdura há cinco décadas

Caroline Arbour, The New York Times

08 de dezembro de 2019 | 06h00

O videoclipe de seis minutos, filmado com uma câmera digital portátil, apresenta bolas de fogo explodindo e um grande tubarão branco protético, que tem uma morte prematura ao ser eletrocutado por cabos de alta tensão. Nos últimos sete anos, ele foi visto mais de 160 milhões de vezes. O vídeo é de Jaws: The Ride, uma atração temática no Universal Studios em Orlando, na Flórida, que foi baseada no filme Tubarão, de 1975. A atração acabou sendo fechada em 2012.

"Isso era melhor que o filme", escreveram em um comentário. Emoções e imersões fantásticas atraem os que procuram aventura aos parques temáticos. Mas há uma explicação diferente para o motivo de algumas atrações terem a visita das mesmas pessoas repetidamente, mesmo que apenas assistindo a um vídeo: nostalgia.

"As pessoas têm associações positivas de quando foram a um parque quando crianças", disse Jason Sheridan, apresentador do podcast The Rid, que narra as atrações do parque de diversões. "Elas pensam: 'Ah, essas coisas estarão lá para sempre.' Então, quando a Disney acaba com a atração, elas se sentem um pouco melancólicas."

Essa nostalgia impulsionou a popularidade do gênero incomum de vídeos de "último passeio", como o clipe Jaws, que permite aos espectadores passearem virtualmente por atrações que fecharam suas portas há muito tempo. Mas algumas atrações resistem à aposentadoria. Na Disneylândia da Califórnia, a Mansão Assombrada perdura há cinco décadas. Seus lentos carrinhos conduzem os visitantes durante o passeio que vai de ilusões fantasmagóricas até uma animada festa do cemitério.

Superfã da atração, R.J. Crowther Jr., vendedor de livros em San Diego, visitou a mansão mais de 200 vezes, e ganhou um certificado que o declara cidadão honorário do parque. "Quando você é mais jovem, tudo é real e mágico", disse Crowther. "Existe algo maravilhosamente sobrenatural que captura a imaginação das pessoas". 

A combinação de diversão e medo ressoou profundamente entre os visitantes do parque. "Acho que a Mansão aproveita o nosso desejo de ter medo e perceber que conseguimos sobreviver com segurança, que fomos capazes de superar nossos medos, lidar com eles e sair bem", disse Alan Coats, filho do cenógrafo responsável pela versão original, Claude Coats.

No Action Park, em Vernon, Nova Jersey, os visitantes também fizeram fila para superar seus medos. Mas, nesse caso, sair ileso não era uma garantia. Ossos quebrados, concussões e dentes lascados eram apenas algumas das lembranças que os visitantes levavam para casa regularmente. "As pessoas estavam sangrando por todo o lugar", disse Susie McKeown, que se lembra de ir ao Action Park há mais de 30 anos. 

Pelo menos 14 ossos quebrados e 26 ferimentos na cabeça foram relatados em 1984 e 1985, e seis mortes - incluindo afogamento e eletrocussão - ocorreram entre 1978 e 1996. O Action Park chegou até a comprar novas ambulâncias para a cidade a fim de garantir o transporte dos visitantes aos hospitais.

O "Parque de diversões mais perigoso dos Estados Unidos", como era chamado às vezes, está fechado há muito tempo, mas a nostalgia por ele ainda é profunda. Um documentário em breve analisará o legado do parque. "Muitas pessoas olham com carinho para a atração, como se fosse uma experiência de amadurecimento", disse Seth Porges, um dos criadores do documentário. "Como você concilia a diversão com o preço humano pago?"

Alguns ainda romantizam o parque como "o lugar mais divertido do mundo", disse Porges. Mas talvez seja melhor deixar algumas atrações em nossas memórias ou em nossas telas. "Eles dizem que há muitas regras agora, muita regulamentação e antes as coisas costumavam ser divertidas", disse Porges. "Sim, as coisas costumavam ser divertidas - se você sobrevivesse."/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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