James Hill para The New York Times
James Hill para The New York Times

Uma fábrica russa para produzir astros do futebol

Academia Konoplev tem três de seus ex-alunos jogando pela seleção do país anfitrião na Copa do Mundo

Rory Smith, The New York Times

21 de junho de 2018 | 15h00

TOLYATTI, RÚSSIA - Nos tempos do governo comunista, esta cidade era o lar da indústria soviética de automóveis. A cidade cresceu em torno da enorme fábrica de carros localizada em seu centro, projetada para alimentar os 320 quilômetros de linhas de produção com autopeças.

A fábrica ainda está lá - administrada pela AvtoVaz, da Renault-Nissan -, estendendo-se por dezenas de quarteirões. A fábrica, a maior da Rússia, ainda é o principal foco da cidade, mas não é o que um dia já foi. A AvtoVaz foi atingida pela crise econômica russa e pelas sanções do Ocidente. Houve milhares de demissões. Em 2015, Tolyatti foi qualificada como a mais pobre cidade grande da Rússia.

Ainda assim, produtos são fabricados aqui. No silencioso bairro de Primorski, há uma outra fábrica. Nos últimos 15 anos, ela tem produzido jogadores de futebol.

Quando os moradores de Primorski ouviram que o magnata Yuri Konoplev havia comprado uma grande fatia de terra, pensaram que ele estava construindo uma luxuosa casa de campo. Quando ele disse que construía uma academia de futebol, ninguém acreditou nele. “O sonho dele era criar uma academia de excelência na Rússia”, disse o filho dele, Andrei Konoplev. “Ele queria formar jogadores que poderiam jogar para a seleção do país, que poderiam ajudar a vencer as Olimpíadas, os campeonatos europeus, a Copa do Mundo.”

Apesar de a Rússia estar sediando a Copa do Mundo, poucos acreditam que ela possa vencer a competição. Mas isso não significa que a visão de Yuri Konoplev não tenha se realizado. Três de seus ex-alunos estão na seleção: o zagueiro Ilya Kutepov e o volante Roman Zobnin, juntamente com Alan Dzagoev, jogador do CSKA Moscou, considerado o melhor do país.

Nos anárquicos anos 90 na Rússia, Konoplev fez fortuna na indústria automobilística. Sua paixão, porém, sempre foi o futebol. Estima-se que ele tenha gasto cerca de US$ 30 milhões na academia, que conta com 10 campos de futebol, ginásios, piscinas, jacuzzis, saunas e instalações médicas.

A academia foi inaugurada em 2003. Inicialmente, treinava somente jogadores locais, trazidos da região de Samara. Mas Konoplev estava convencido de que o enorme tamanho da Rússia e a sua heterogeneidade atrasava o país; os melhores jogadores tinham de ser reunidos para estimular uns aos outros. Ele queria que Tolyatti fosse o ponto de encontro.

A primeira medida de Konoplev foi contratar jovens técnicos conceituados, vindos de toda a Rússia. Foi desta maneira que Dzagoev, nascido em Beslan - 1.600 quilômetros ao sul de Tolyatti - veio jogar aqui. O treinador dele se juntou à academia, e ele veio atrás.

Konoplev também pagou para que os times da academia jogassem em torneios de todo o país. E a academia abrigou competições. Desta maneira, Zobnin, da Sibéria, foi descoberto. “Ele chamou nossa atenção durante um torneio aqui”, afirmou Serguei Belousov, técnico-chefe da academia.

Segundo Andrei Konoplev, quando a fama da escola se espalhou, “os garotos ligavam eles mesmos e pediam para ser convocados”.

Em 2006, a Rússia venceu o campeonato europeu sub-17. O time tinha seis jogadores da academia de Konoplev. Poucas semanas depois, ele morreu de enfarte, aos 39 anos.

Cerca de uma semana antes de sua morte, Konoplev recebeu um telefonema de Roman Abramovich, o bilionário dono do Chelsea FC, que sonhava com Tolyatti como a peça central de sua Academia Nacional de Futebol, um projeto para melhorar o padrão do futebol juvenil de todo o país.

Abramovich entrou no negócio e inaugurou mais campos de futebol, pagou por viagens para jogos contra os melhores times juvenis da Europa - Manchester United, Barcelona, Real Madrid - e convidou os mais graduados alunos de Tolyatti para treinar no Chelsea. Mas, em 2012, ele declarou que a Academia Nacional de Futebol tinha alcançado seu objetivo. “Paramos de receber financiamento”, disse Andrei Konoplev. “Não sabemos por quê." 

O estado russo salvou as instalações, mas há apenas quatro campos de futebol em uso atualmente. De novo, a maioria dos jogadores é local. Ainda assim, Belousov não tem dúvida de que Tolyatti estimulou times russos como Spartak Moscou, Zenit São Petersburgo e FK Krasnodar a renovar suas instalações.

“A academia”, disse ele, “transformou a maneira com a qual a Rússia forma jogadores de futebol".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.