Emily Rose Bennett/The New York Times
Emily Rose Bennett/The New York Times

Uma lição a cada dia, para superar o déficit de atenção

Campo em ascensão nos EUA, o coaching para quem sofre do transtorno do TDAH avança na busca do controle das emoções

Christina Caron, The New York Times

13 de novembro de 2021 | 05h00

As manhãs dos dias de semana viraram uma “operação de saída para a escola” para Dan e Melissa Roberts e seus quatro filhos. O casal, que mora perto de Grand Rapids, Michigan, deixou que cada filho se revezasse na escolha da música. Imagine Dragons, Ed Sheeran e Sam Smith são os atuais favoritos.

Hoje em dia, eles são bem pontuais. Mais do que isso: ninguém fica reclamando. Bem diferente do jeito como as coisas eram: crianças que pareciam não conseguir tirar os pijamas, mochilas deixadas para trás na corrida porta afora. “As transições são difíceis”, disse Melissa Roberts. “Se não for interessante, a gente não consegue se concentrar nessa transição – não é uma escolha.”

Tanto ela quanto o marido têm transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, ou TDAH, uma condição de neurodesenvolvimento que dificulta o controle do tempo e das emoções. Seus dois filhos mais velhos, de 9 e 7 anos, também foram diagnosticados com TDAH. (Os mais novos, de 4 e 2 anos, ainda não fizeram testes.)

Melissa atribui a rotina matinal mais tranquila à coach de TDAH Tamara Rosier, que vem ensinando toda a família a se manter na linha. Isso significa, às vezes, trazer todos a bordo para cantar em família e começar o dia com uma vibe positiva. “Temos um cérebro que quer diversão”, diz a coach Rosier, que – assim como muitos coachs de TDAH – também tem o transtorno. Tarefas como lavar roupa, pagar contas e se arrumar para a escola podem ser chatas, então “tentamos gamificar (técnica que usa jogos em situações que não são brincadeira) tudo”. Muitos de seus clientes “podem fazer coisas brilhantes”, ressalta, “mas não vão para a cama na hora certa”.

Campo Novo. O coaching para TDAH é considerado um campo novo, ainda em ascensão. Entrevistas com coaches e clientes, além de uma série de estudos avaliando estudantes universitários, sugerem que a abordagem pode ajudar a controlar os sintomas de TDAH – desatenção, hiperatividade, impulsividade –, melhorando as habilidades funcionais e a autoestima.

Ao contrário de um terapeuta ou coach executivo, o coach de TDAH trabalha em colaboração com cada cliente para desenvolver uma regulação emocional mais forte, cumprir metas, encontrar autoaceitação e criar soluções que os ajudem a manter o foco. As sessões não são cobertas pelos planos de saúde.

“Estamos vendo uma demanda crescente por esse tipo de serviço de apoio”, afirmou Lisa Joy Tuttle, do Programa de Pesquisa e Tratamento de TDAH na Universidade da Pensilvânia. “Estamos realmente tentando ajudar as pessoas a desenvolver seus próprios insights e soluções”, afirmou.

Pessoas com TDAH também podem precisar de ajuda com emoções como ansiedade, raiva e vergonha. Estudos ligaram os sintomas do TDAH a regiões específicas do córtex pré-frontal, especialmente em partes do cérebro que regulam o comportamento e a atenção e também nos ajudam a planejar, tomar decisões e a gerenciar nossos impulsos.

A regulação emocional é uma das habilidades mais vitais que os clientes precisam aprender, informou Tamara Rosier, que preside a ADHD Coaches Organization e é autora de Your Brain’s Not Broken (Seu Cérebro Não Está Doente) novo livro sobre como navegar pelas emoções poderosas que podem acompanhar o TDAH.

“Em outras palavras, como faço para não enlouquecer o tempo todo?”, acrescentou. “A partir daí, introduzo a flexibilidade cognitiva – a capacidade de saber que tenho opções diferentes a cada momento.”

Ela ensinou as crianças da família Roberts a rotular emoções usando macacos de brinquedo com nomes como Ian Irritado ou Chico Chorão. Quando querem se jogar no chão ou se recusam a fazer o dever de casa, as crianças podem se perguntar: “Quem está no controle agora? O que está acontecendo? Oh, acho que é o macaquinho tal”, observou Melissa Roberts.

Pesquisa promissora. A mais recente pesquisa revisada por pares sobre coaching parece promissora. Mesmo assim, seu foco são estudantes universitários e, em menor medida, em grupos adultos, então ainda há muito mais a aprender sobre como os adultos individuais se saem com esse tipo de abordagem. Entre os estudantes universitários, o coaching de TDAH pode gerar melhoria nas notas, bem-estar e processos mentais que os ajudam a planejar, focar e lembrar as instruções.

Elena Schmitt, de 24 anos, que se formou este ano na Universidade de Michigan, atribuiu ao coaching para TDAH a melhoria de suas notas e a ajuda para obter seu diploma.

Ela tinha se saído bem na escola até o primeiro ano de faculdade, quando as notas começaram a cair. Seus pais, que são psicólogos clínicos, a ajudaram a obter uma avaliação que acabaria por levar ao diagnóstico. “Passei 21 anos sem saber que tinha TDAH e dislexia”, disse Elena. Ela trabalha com sua coach, Rosier, há quase três anos. Para crianças com TDAH, não adianta nada os pais lhes dizerem: “Faça isso e pronto”, adverte ela. “Se as crianças soubessem como fazer – se tivessem as habilidades – elas fariam. As crianças não querem é não conseguir fazer as coisas.”

‘Temos de ajudá-los a entender que não estão quebrados'

A ideia de recorrer a coaches para controlar o TDAH muitas vezes remonta aos anos 1990, quando o popular livro Driven to Distraction discutiu o coaching como uma “força estruturante” na vida de alguém com TDAH, um processo distinto da psicoterapia.

Desde então, os coaches formaram uma organização sem fins lucrativos, a ADHD Coaches Organization, para estabelecer padrões profissionais, fornecer treinamento contínuo e criar uma comunidade. Empresas privadas como a JST Coaching and Training e a ADD Coach Academy estão treinando a próxima geração de coaches. Seus sites também trazem endereços de profissionais. Eles podem trabalhar com pessoas de qualquer lugar dos EUA ou outros países, por telefone ou vídeo.

No coaching individual, o cliente define metas e o seu ritmo ideal para fazer mudanças. Já o coaching em grupo pode seguir um cronograma e ter um ritmo definido. “Temos de ajudá-los a entender que eles não estão quebrados”, disse David Giwerc, presidente da ADD Coach Academy, que treina coaches nos EUA e no exterior./TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

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