Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Uma livraria que pode ser alugada por semana

Em Wigtown, na Escócia, turistas têm a oportunidade de gerenciar uma livraria ao alugar um apartamento

Dwight Garner, The New York Times

13 Julho 2018 | 15h30

WIGTOWN, ESCÓCIA - Isak Dinesen (pseudônimo da escritora dinamarquesa Karen Christence) teve uma fazenda na África. Recentemente, tive uma livraria na Escócia, ainda que apenas por um dia. 

Não foi fácil chegar a Wigtown, cidadezinha de mil habitantes, na remota região escocesa de Dumfries and Galloway. Mas a viagem valeu a pena. Trata-se de um vilarejo verdejante com o cheiro do mar. Com uma dúzia de livrarias e sebos, o lugar é um paraíso para o turista de inclinações literárias.

E o melhor de tudo é que Wigtown oferece uma experiência literária diferente de qualquer outra que eu conheça. Há na cidade um excelente sebo de livros usados chamado Open Book, com um apartamento no andar de cima, que pode ser alugada por uma semana. Quando começa nossa estada, a loja passa a ser administrada pelo hóspede, como este achar melhor. Recebi as chaves da porta e da caixa registradora e fui orientado a mudar a decoração e a organização das prateleiras conforme a minha conveniência. 

A Open Book é administrada por uma organização sem fins lucrativos. A ideia encontrou eco em tantas pessoas em cada continente que o sebo já está alugado até 2021, data máxima das reservas aceitas pelo Airbnb. Depois disso, há uma lista de espera (o aluguel é de £ 28 por noite, ou cerca de US$ 37). Consegui que me encaixassem por uma noite depois de pedir e implorar como um cachorrinho que perdeu um pedaço de salsicha embaixo da geladeira.

Abri a loja às 10h da manhã de uma segunda-feira fria e nublada. Minha primeira tarefa de proprietário foi um pouco imprevista: o que deveria escrever no quadro negro que fica armado na fachada?

Lembrei de uma de minhas citações favoritas. Rabisquei: "Leiam à vontade! Leiam à vontade! - Randall Jarrell". 

Meus primeiros fregueses foram um casal que parecia analisar o estabelecimento antes de cometer um assalto, mas apenas grunhiram uma saudação e começaram a olhar as prateleiras. Depois de 10 minutos, o homem se aproximou do caixa com dois exemplares: os romances de ficção científica de Arthur C. Clarke, "The Garden of Rama" ("O Jardim de Rama") e "Rama II" ("O Enigma de Rama").

Minha primeira venda! Juntos, os livros foram vendidos por £ 8.

Minha segunda cliente foi uma mulher descabelada que aparentava nervosismo e não olhou para mim ao entrar na loja. Escolheu um livro ilustrado intitulado “Shrubs and Climbers” (“Arbustos e trepadeiras") e pagou £ 2.

Depois disso, houve um período de seca. Bebi meu café e olhei pela janela.

Então, algo excelente aconteceu. Um jovem casal, Beth Porter e Ben Please, chegou com a filha pequena, Molly. Eles traziam consigo instrumentos musicais: Beth tinha um violoncelo; Ben, um ukulele; e Molly, um xilofone de brinquedo. Eles são os principais membros da Banda do Sebo, que compõe canções inspiradas em livros e as toca nas livrarias.

Durante o dia todo, moradores excêntricos e gentis passaram para dizer oi. Uma mulher me trouxe um pão doce. Outros, preocupados, aproveitaram a ocasião para perguntar a um americano a respeito do presidente do meu país.

Comprei uma pequena pilha de livros para mim mesmo - foram tantos que, somados a outros títulos que tinha comprado na viagem, resultaram numa multa por excesso de bagagem.

Antes de fechar a loja, guardei o quadro negro e tranquei a porta da frente. Mentalmente, eu fazia planos para administrar o lugar a partir de 2022 ou 2023, por tanto tempo quanto eles me deixarem.

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