Ross Mantle para The New York Times
Ross Mantle para The New York Times

Uma loja de departamentos voltada para quem não usa internet

Dunham’s atende os clientes que optaram por fazer as coisas à moda antiga

Michael Corkery, The New York Times

14 Dezembro 2018 | 06h00

Não espere encontrar na loja Dunham’s pilhas do brinquedo mais desejado do Natal. Nem pense que eles terão promoções comparáveis às da internet. “Pedimos desculpas pela demora, mas o trabalho bem feito exige tempo”, lamenta o site da Dunham’s. “Nossa loja online estará no ar em breve.”

As mudanças ocorrem num ritmo lento na Dunham’s, uma das poucas lojas de departamentos de propriedade familiar que restaram nos Estados Unidos. A loja foi fundada no início do século 20 em Wellsboro, Pensilvânia, uma cidade de aproximadamente 3.200 habitantes cercada por fazendas de laticínios e florestas. “Não entramos na onda da Black Friday’’, disse Nancy Dunham, 75 anos, referindo-se à tradicional promoção após o dia de ação de graças. “Tentamos oferecer algo diferente.”

Num momento em que as gigantes do varejo concorrem entre si na velocidade e conveniência, muitas lojas de departamentos se tornaram símbolo do obsoleto e do decadente. Mas, na Dunham’s - administrada por Nancy, o marido e as duas filhas -, pode-se encontrar uma variedade limitada de móveis, artigos para o lar e peças de vestuário, concorrendo de maneira limitada com a Amazon e uma superloja do Walmart nas imediações.

A família Dunham criou um nicho de mercado atendendo aos clientes que o comércio eletrônico deixou para trás, ou que optaram por fazer as coisas à moda antiga. A Dunham’s ocupa três edifícios de diferentes alturas e projetos na avenida principal, refletindo a história da loja. A loja maior, num edifício de três andares construído durante a Grande Depressão, traz o nome da família esculpido na fachada.

Numa fria manhã de neve em novembro, os fregueses chegavam aos poucos: um homem procurava agasalhos, uma mulher procurava botas de inverno para a mãe, e Jim Rice estava à caça de uma camisa de flanela. Para Rice, não é nenhum esforço dirigir por 45 quilômetros de sua casa até a Dunham’s para fazer compras. “Sempre gostei dessa loja", disse Rice, 77 anos. “Eles sabem como tratar o cliente.”

Nos seus primeiros anos, a Dunham’s funcionava como uma “loja itinerante”, um caminhão que viajava até as fazendas para vender açúcar, roupas e doces. Na época, Wellsboro era um vibrante centro agrícola e manufatureiro. Havia uma fábrica de lâmpadas da Corning Glass na região.

Durante a 2ª Guerra Mundial, a fábrica de vidro começou a fazer decorações de Natal quando os enfeites alemães foram proibidos nos Estados Unidos. Para a cidade, a fábrica era tão importante que as pessoas se revezavam vigiando os céus em alerta para a presença de bombardeiros alemães que pudessem tê-la como alvo. Esse passado já ficou distante. As fazendas de laticínios estão em crise e a fábrica de vidro fechou. A área atrai turistas durante os meses mais quentes, além de caçadores e veranistas. Mas, no inverno, há pouco movimento.

A loja dá pequenos passos na tentativa de incentivar as vendas. Quando as gigantes do varejo oferecem descontos numa linha de roupas para senhoras, conhecida pelas calças de poliéster com cintura de elástico, a Dunham’s ampliou sua variedade de artigos. “Meu tipo de cliente, a senhorinha, é cada vez mais esquecida", disse Ann Dunham Rawson, filha de Nancy Dunham.

A loja sobreviveu a uma enchente, um incêndio e um tornado. Mas o período mais difícil foi nos anos mais recentes. De acordo com ela, os hábitos dos clientes pareceram mudar drasticamente. Homens e mulheres adotaram um estilo mais casual, frustrando a lógica que pautou por anos a atividade varejista. Então, o pai dela, de 81 anos, desenvolveu mal de Parkinson, e os dois irmãos, também envolvidos no negócio, morreram.

A geração mais nova assumiu o comando. O marido de Ann, Joe Rawson, aviador da Guarda Nacional, administra a loja de ferramentas da família. A irmã dela, Ellen Dunham Bryant, deixou o escritório de advocacia e voltou de Washington para administrar o café da loja de departamentos e um hotel do outro lado da rua.

A Dunham’s tem cerca de 50 funcionários nos meses mais movimentados, muitos deles em meio período. A loja contrata principalmente mão de obra mais velha, funcionários que desejam complementar a aposentadoria. “Estamos no pé da escala de remuneração", disse Nancy Dunham. Embora os Dunhams acompanhem com apreensão a indústria, eles não se deixam levar pelas modas. Ainda não definiram uma data para o início das vendas no seu site.

“Espero que as pessoas não percam o hábito de interagir umas com as outras nas lojas físicas", disse Nancy. “Fico assustada em pensar num mundo em que isso não exista.”

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