J L Cerejido/EPA, via Shutterstock
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Raphael Minder, The New York Times

20 de outubro de 2018 | 06h00

MADRI - Santa Ana, a padroeira da aldeia de Rañadorio, no noroeste da Espanha, agora tem lábios cor magenta, os olhos destacados com delineador e uma veste colorida. A Virgem Maria tem cabelo turquesa. O menino Jesus se assemelha a uma figurinha do Playmobil.

As imagens, que fazem parte de um conjunto de estátuas de madeira do século 15 em uma capela da região de Astúrias, chamaram recentemente a atenção da dona de uma loja local, que decidiu que tinham um aspecto “horrível” e precisavam de uma nova pintura. “Não sou uma pintora profissional, mas sempre gostei disso, e essas imagens precisavam mesmo de uma mão de tinta”, afirmou a lojista María Luisa Menéndez, ao jornal “El Comercio”, acrescentando que o clero local dera a sua permissão. “Então pintei o melhor que pude, com as cores que me pareceram certas, e os vizinhos gostaram”.

E de fato, os jornais locais citaram moradores que defendem a restauração. Mas a reação de outros não foi nada positiva.

A pintura das estátuas de Rañadorio parece mais “uma vingança do que uma restauração”, disse Genaro Alonso, o ministro da Cultura e Educação da região de Astúrias, segundo o jornal “La Voz de Astúrias”.

A associação para a preservação da arte espanhola, conhecida como ACRE, tuitou: “Será que ninguém se importa com esta constante devastação no nosso país?”

Não se sabe se a pintura que María Luisa aplicou às figuras em Rañadorio poderá ser removida, e se a pintura policroma original poderá ser recuperada. As autoridades regionais declararam que entrariam com um processo, citando leis de proteção do patrimônio cultural espanhol, e exigindo total indenização por eventuais alterações, mesmo que a intenção fosse boa.

O caso das estátuas é a mais recente de uma série de tentativas de alguns fiéis espanhóis de usarem os seus talentos artísticos - embora limitados - à restauração de obras de arte religiosa que estão se deteriorando.

Em 2012, a restauração canhestra de um afresco do “Ecce homo” de Jesus em uma igreja católica em Borja, no nordeste da Espanha, foi tão ruim que inicialmente foi considerada um ato de vandalismo pelas autoridades locais. Constatou-se que a autora fora Cecilia Giménez, uma senhora de mais de 80 anos que decidiu restaurar o afresco porque ela temia que a representação de Jesus fosse desaparecer pela ação do tempo.

Em junho, a restauração de uma imagem de madeira de São Jorge do século 16, em uma igreja de Estella, no norte da Espanha, provocou indignação porque ficou parecendo mais uma reprodução infantil de um personagem dos desenhos animados do que uma preciosa obra de arte.

Tanto estardalhaço, entretanto, pode ter resultados surpreendentes. A renovação do afresco do “Ecce homo” acabou dando um impulso significativo ao turismo em Borja, porque os visitantes se interessaram em ver o que havia sido descrito como a pior restauração de uma obra arte de todos os tempos.

Rañadorio tem uma população de apenas 16 almas. Mas se localiza em uma importante rota turística de peregrinação, o Camino de Santiago, que leva os peregrinos ao santuário na catedral de Santiago de Compostela.

Resta ver se as novas cores das estátuas atrairão estes viajantes.

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