Jaime Sampaio/Agence France-Presse - Getty Images
Jaime Sampaio/Agence France-Presse - Getty Images

Uma 'metrópole' de 200 milhões de cupins escondida em uma floresta brasileira

Montículos de cupins - alguns com 4 mil anos - estão espalhados em área do tamanho da Grã-Bretanha

Kenneth Chang, The New York Times

04 Dezembro 2018 | 06h00

Stephen J. Martin notou grandes montículos de terra, alguns de três metros de altura e nove de largura, enquanto dirigia em uma região remota do Nordeste do Brasil.

“Depois de vinte minutos, ainda estávamos viajando no meio deles, e eu me perguntei: ‘Mas o que é isto?’ ” disse Martin, entomologista da Universidade de Salford, na Inglaterra, que estava trabalhando no Brasil.

Ele pensou que a terra que tivesse sido retirada de algum lugar para a construção de uma estrada, mas os seus acompanhantes falaram que os montículos deveriam ser cupinzeiros.

Em uma viagem posterior, Martin conheceu Roy R. Funch, ecologista da Universidade Estadual de Feira de Santana, que logo tratou de realizar datações radioativas a fim de determinar a idade dos montes.

Martin, Funch e alguns colegas posteriormente relataram os resultados de vários anos de pesquisas. Eles calculam que cerca de 200 milhões de montículos sejam o trabalho do Syntermes dirus, uma das maiores espécies de cupins com cerca de um centímetro de comprimento. Os montes, distantes em média cerca de 18 metros uns dos outros, se espalham por uma área do tamanho da Grã-Bretanha.

“Nós, humanos, nunca construímos uma cidade deste tamanho, em nenhum lugar do mundo”, afirmou Martin. Os cientistas também se surpreenderam quando receberam os resultados da datação de 11 montes. Os mais novos tinham cerca de 690 anos. Os mais antigos tinham pelo menos 3.820 anos, ou quase a idade das grandes pirâmides de Gizé, no Egito.

Os cientistas também estimaram que, para construir 200 milhões de montes, os cupins devem ter escavado 10 quilômetros cúbicos de terra - volume equivalente a cerca de 4 mil grandes pirâmides de Gizé.

Quando os cupins cavavam redes de túneis em baixo da superfície, carregavam a terra por um tubo central até o topo de um monte e a empurravam para fora.

Isto poderia explicar também o espaçamento regular entre os montes. Inicialmente, Funch e Martin pensaram que fosse o resultado da competição entre colônias. Eles compararam um cupim de um monte ao de um monte vizinho e constataram que pertenciam à mesma família.

Concluíram então que o esquema era apenas um espaçamento eficiente das pilhas de entulho. A maioria dos montes mais antigos parecia inativa.

Poucas pessoas que não eram da região sabiam da existência dos montes porque estavam escondidos no meio da mata fechada. As temperaturas chegam a 38º Celsius ou mais na maior parte do ano e as árvores são brancas, queimadas pelo sol. Nesta região a paisagem fica verde depois de uma breve estação chuvosa, e então as folhas caem, e ela volta a ficar desolada.

“Estes cupins vivem das folhas mortas, e se alimentam uma vez por ano”, explicou Martin, que está interessado em conhecer melhor a relação entre os insetos e a vegetação. Quando parte da floresta é cortada, os montes permanecem, mas os cupins se mudam porque não têm mais nada para comer.

Os cientistas também querem observar os cupins durante a fase em que se alimentam depois que a floresta floresce, e estudar o que eles fazem durante o resto do ano.

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