Kemal Jufri para The New York Times
Kemal Jufri para The New York Times

Uma ministra nada convencional em defesa da vida marinha

Susi Pudjiastuti declarou guerra aos pesqueiros estrangeiros que avançavam nas águas da Indonésia

Hannah Beech e Muktita Suhartono, The New York Times

26 Julho 2018 | 10h15

PANGANDARAN, Indonésia - Susi Pudjiastuti cravou no chão um salto alto imaginário. “É isso que posso fazer se os chineses tentarem brincar comigo", disse Susi, ministra da pesca e de assuntos marítimos da Indonésia. “Posso ser muito simpática e sorrir, mas também sei usar o salto alto.”

Susi não é uma indonésia convencional, e muito menos uma ministra comum. Ela fuma sem parar, gosta de café forte e de beber champanhe. “Minha família acha que sou um pouco maluca", disse ela.

A ministra fez muitos inimigos pelo caminho, em seu país e no exterior, mas ela diz que seu sucesso pode ser medido pelas melhorias observadas nas reservas pesqueiras da Indonésia.

Quando foi nomeada para o cargo, em 2014, Susi herdou um ministério que corria o risco de ser extinto. Mas ela declarou guerra aos pesqueiros estrangeiros que avançavam nas águas da Indonésia, ameaçando alguns dos mares de maior biodiversidade do mundo, a um custo de pelo menos 1 bilhão de dólares ao ano em recursos perdidos. Sob o comando dela, centenas de embarcações estrangeiras de toda a Ásia apreendidas em águas da Indonésia foram mandadas pelos ares. Mas foi o seu envolvimento com os chineses que mais chamou atenção.

A Indonésia não reivindica oficialmente nenhum dos territórios contestados do Mar do Sul da China.

Mas a linha tracejada que a China usa nos mapas para demarcar a extensão do Mar do Sul da China que faria parte do país sobrepõe-se a águas que banham ilhas da Indonésia. E aí que Susi entra. “Não sou o exército nem ministra das relações exteriores", disse ela. “Os chineses não podem se zangar comigo, afinal, estou apenas falando de peixes.”

Em junho de 2016, um navio de guerra indonésio rebocou um pesqueiro chinês flagrado perto de ilhas indonésias. Uma tentativa anterior de rebocar outro navio chinês foi impedida pela Guarda Costeira da China. Os dois incidentes ocorreram dentro da zona econômica exclusiva da Indonésia, de acordo com a definição no direito internacional marítimo. Mas o ministro chinês das relações exteriores se refere a essas águas como “tradicional fonte de pesca” da China.

Susi respondeu: “Os indonésios navegaram até Madagascar na antiguidade. Devemos alegar que o Oceano Índico inteiro é nossa ‘tradicional fonte de pesca’?”

Depois que ela assumiu o ministério, a maioria das 10 mil embarcações estrangeiras que invadiam as águas indonésias desapareceu. A população de peixes aumentou mais de 100% entre 2013 e 2017, de acordo com o governo. Mas, no início do ano, o vice-presidente da Indonésia, Jusuf Kalla, disse que as táticas dela estavam afastando os investidores estrangeiros. Até a comunidade de 2,4 milhões de pescadores da Indonésia protestaram contra as tentativas de Susi de impedir práticas destrutivas como a pesca usando dinamite.

A ministra da pesca não cede às críticas. “Quando comecei no ramo dos frutos do mar, os peixes eram desse tamanho", disse ela, afastando os braços. “Então, tudo ficou pequeno. Os peixes sumiram, pescados quase à extinção, e o governo não se importava.”

Susi nasceu numa cidade de pescadores no litoral sudeste de Java. Abandonou a escola no ensino médio. Casou-se pela primeira vez e teve um filho, casou-se pela segunda vez e teve outro filho, e envolveu-se pela terceira vez e teve outro filho. 

Traz a tatuagem de uma fênix na canela direita e ganhava a vida como caminhoneira. Mudou para o ramo dos frutos do mar, e suas necessidades ligadas ao transporte levaram à criação de uma empresa de aviação. Fahri Hamzah, vice-líder da maioria no parlamento, comentou que a tatuagem de Susi fazia dela "uma gângster". Mas seus defensores sugeriram o nome dela como possível colega de chapa para o presidente Joko Widodo, que deve se candidatar à reeleição no ano que vem, embora a lei exija que os candidatos para os principais cargos do país tenham concluído o ensino médio. Ela não quis comentar os rumores.

Durante uma viagem no início do ano a Pangandaran, onde cresceu, Susi relaxou entrando no mar com uma prancha e um remo.

“Dane-se Jacarta", disse ela. “Fico feliz quando estou no mar.”

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