Tristan Spinsky para The New York Times
Tristan Spinsky para The New York Times

Uma nova zona de conflito: os Estados Unidos

Especialistas em mediação usam experiências de guerra para solucionar divisões aprofundadas após a eleição de Trump

Sabrina Tavernise, The New York Times

16 de fevereiro de 2019 | 06h00

LEVERETT, MASSACHUSETTS - A psicóloga americana Paula Green reúne os sobreviventes de guerra em lugares como Bósnia e Ruanda e os ajuda a superar suas diferenças a fim de poderem voltar a conviver. Recentemente, ela começou a notar nos Estados Unidos sinais de angústia social, os quais pôde reconhecer graças ao seu trabalho no exterior. 

"As pessoas estão criando histórias sobre 'os outros' - muçulmanos, eleitores de Trump, quaisquer que sejam os 'outros'", disse Paula. "Dizem, 'eles não têm os valores que nós temos. Eles não se comportam como nós. Não são pessoas boas. São pessoas más'. Há uma verdadeira desumanização. E quando ela se espalha, pode ser muito difícil corrigi-la.".

Um número cada vez maior de especialistas em solução de conflitos vem aplicando suas competências para ajudar os americanos. Eles destacam a retórica política - por exemplo, a do presidente Donald J. Trump quando ele se refere aos veículos de comunicação como "inimigos do povo", ou aos migrantes do México como criminosos, ou mesmo quando diz "essa gente do Oriente Médio". 

A violência acabou explodindo: em outubro, um homem matou fiéis em uma sinagoga da Pensilvânia, depois de referir-se de maneira desvairada a uma agência de refugiados. Naquela mesma semana, um partidário de Trump enviou pelo correio uma série de bombas a uma dezena de críticos do presidente. Em 2017, um indivíduo em Illinois obcecado pela política da esquerda matou quatro pessoas em um evento do Congresso.

Segundo especialistas em conflitos, embora os Estados Unidos não se encontrem na situação calamitosa de alguns outros países, a capacidade de tolerância de suas instituições está sendo posta à prova. O Fundo para a Paz, organização sem fins lucrativos voltada para países fragilizados, declarou que em 2018, os Estados Unidos foram a quarta nação em que as condições haviam se agravado, depois do Catar, Espanha e Venezuela. Em 2017, a empresa de consultoria Economist Intelligence Unit rebaixou os Estados Unidos do grau de "democracia plena" para "democracia falha", citando a queda da confiança do povo no governo.

Daniel Noah Moses da Seed of Peace, organização sem fins lucrativos que começou com o trabalho sobre o Oriente Médio, mas recentemente intensificou seu foco nos Estados Unidos, disse que quando se mudou de Jerusalém para os EUA, em 2017, o clima político lhe pareceu estranhamente familiar.

"Fiquei surpreso com a semelhança - a dificuldade de compreensão, os níveis de emoção, a negação do 'outro'", observou.

A psicóloga Paula Green lançou recentemente uma missão de paz americana com 18 pessoas de Massachusetts e 11 de Kentucky. A ideia inicial para uma reunião foi de Jay Frost, consultor de treinamento aposentado de Massachusetts, que admite que, no começo, não tinha uma opinião muito elevada sobre os eleitores de Trump. Ele escreveu em um e-mail que queria compreender "como era possível que eleitores brancos das áreas rurais pudessem apoiar um candidato à presidência tão vulgar, distópico", frase de que agora se arrepende.

Gwen Johnson, administradora da área de educação de Kentucky, afirmou que duas pessoas choraram quando leram o e-mail. Ela decidiu, então, fazer uma viagem de 15 horas em uma van até Massachusetts para explicar às pessoas daquele Estado que, embora algumas talvez estivessem doidas no início de 2016, ela foi doida na maior parte de sua vida.

Nell Fields, pesquisadora da saúde de Kentucky, contou que teve a sensação de que os participantes de Massachusetts "foram gentis em trabalhar em um projeto em que no final acabariam dizendo: 'Beleza, olhem, demos um jeito neles'".

Quando finalmente se encontraram, no final de 2017 em Massachusetts, a Paula aplicou uma regra básica da psicologia: quando as pessoas percebem que estão sendo ouvidas, fica mais fácil falar de questões mais complexas. Ela pediu que todos do grupo falassem das suas famílias, porque "todos têm uma família". Quando a conversa passou para a política, eles conseguiram manter uma atitude civilizada. Falaram de Trump, da imigração e de armas, mas não houve explosões emocionais.

Nell Fields disse que conseguiram conversar sobre temas difíceis por causa da sensação de que, fundamentalmente, haviam se tornado iguais.

"Eu realmente aprendi que, ainda que você pense ou vote de maneira diferente, se você para um pouco para enxergar a outra pessoa, do modo como ela é, alguém que tem uma família, uma história, isso torna tudo mais fácil".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.