AJ Mast para The New York Times
AJ Mast para The New York Times

Uma obra que fugiu ao controle de seu criador

O artista Robert Indiana, que morreu em maio deste ano, empreendeu uma longa luta para ir além de 'LOVE', sua obra mais famosa

Brett Sokol, The New York Times

08 Junho 2018 | 15h30

Uma “mercadoria perigosa, repleta de riscos”. Foi assim que o artista Robert Indiana, já falecido, descreveu a emoção do amor. Ele também poderia referir-se a “LOVE”, a obra de arte que o tornou tão famoso, criada em meados da década de 1960.

Uma das imagens mais reconhecíveis do século XX é um desenho enganosamente simples: a palavra "love" (amor) foi escrita com todas as letras maiúsculas, as duas primeiras letras sobre as duas últimas, com a letra O em itálico, sugestivamente inclinado para a direita.

Lançado como desenho, depois como quadro, e logo depois em uma escultura, tornou-se um fenômeno cultural e foi usado para adornar todos os tipos de objetos, de livros a selos (foram vendidos 330 milhões, e a contagem não para aí), abotoaduras e tênis. Grande parte desta produção não tinha patente e fugiu do controle do seu criador. Indiana culpou a popularidade impressionante de “LOVE” pela destruição de sua carreira, que transformou este porta-estandarte da vanguarda dos anos 1960 em avatar do kitsch.

“Tenho a certeza de que todas as pessoas que nasceram há 20 anos só me conhecem por causa de “LOVE”, queixou-se Indiana ao The New York Times em 2013.

Para seu livro “Robert Indiana: Figures of Speech”, publicado em 2000, Susan Elizabeth Ryan fez longas entrevistas com o artistas. Ela escreve que a ideia de “LOVE” surgiu no final de 1964, como uma palavra mais explícita, de quatro letras (na língua inglesa) - que começava com F, e a segunda letra era U, inclinada de maneira intrigante para a direita. Depois de um complicado rompimento com seu intermitente parceiro romântico e colega artista, Ellsworth Kelly, Indiana passou a concentrar-se em quadros de quatro letras.

“Para Ellsworth era uma brincadeira”, disse Susan, uma brincadeira que Kelly considerou provocação. Como devoto abstracionista, prosseguiu, “Ellsworth ficou horrorizado com a ideia de quadros que têm palavras como tema. E quanto mais ele ficava horrorizado, mais Robert queria levar a coisa a sério”.

Em dezembro daquele ano, Indiana mudou as quatro letras de sua obra-prima para "LOVE" (amor), e a usou em cartões de Natal feitos à mão que enviou para seus amigos, e engavetou o termo grosseiro que a antecedera. O diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York viu alguns dos cartões e pediu a Indiana que fizesse uma produção industrial deles para a loja de presentes do museu.

Até o final de 1965, o cartão com a palavra “LOVE” do MoMA tornara-se o mais vendido, e inclusive estavam sendo produzidas imitações baratas. Indiana patenteou seu precioso “amor”, dedicou-se à feitura de algumas variações em quadros, passando a fazer versões em três dimensões.

Barbara Haskell, curadora do Whitney Museum of American Art e organizadora da retrospectiva de 2013, “Robert Indiana: Beyond Love”, disse que, para um homem homossexual em 1964 - quando o simples fato de entrar em um bar gay poderia levar à prisão -, a postura cautelosa de Indiana em relação ao amor tinha seu fundamento. O problema, ela disse, era que ele nunca agiu de acordo.

Na persistente esteira da popularidade desta imagem, afirmou Barbara, “ele deu à sua obra o sentido de que não passava de algo comercial e de que ele se esgotara por esta única imagem. Nada do que ele fez depois foi tão bom”.

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