Alex Welsh para The New York Times
Alex Welsh para The New York Times

Uma ousada luta pela mudança da Etiópia

Primeiro-ministro Abiy Ahmed prometeu mudanças, mas enfrenta uma estrutura de poder já enraizada.

Somini Sengupta, The New York Times

28 Setembro 2018 | 10h15

LOS ANGELES - Na manhã do seu primeiro dia de aula, quando tinha 7 anos, Abiy Ahmed ouviu a mãe sussurrar em seus ouvidos. “Você é único, meu filho”, disse ela. “Vai acabar no palácio. Assim, quando for à escola, tenha em mente que, um dia, você será alguém que vai servir ao país.”

Com essa profecia, tão exuberante para um menino que crescia numa casa sem eletricidade num pequeno vilarejo etíope, ela lhe deu um beijo de despedida e o deixou partir.

Abiy, agora com 42 anos, fez mais do que chegar ao palácio do primeiro-ministro. Ele também se tornou o líder mais observado da África: um homem que afirma seu desejo de mudar o próprio país de dentro para fora.

Depois de assumir o governo, em março, ele encerrou oficialmente duas décadas de hostilidades contra a Eritreia, antiga rival e vizinha da Etiópia. Além disso, começou a relaxar o controle de uma economia administrada de perto pelo estado, prometeu eleições pluripartidárias num país há muito conhecido pela detenção de dissidentes, e começou a atrair os críticos mais ácidos do governo: os membros da diáspora etíope, que há tempos organizam insurgências à distância. Lideranças de um grupo de oposição anteriormente classificado como ilegal retornaram à capital do país no dia 15 de setembro.

A tarefa é imensa. A Etiópia é o segundo país mais populoso da África, com mais de 100 milhões de habitantes, numa parte do continente que as potências globais buscam influenciar.

O mesmo vale para os riscos: milhões de jovens descontentes, pobreza generalizada, uma violenta disputa pelos recursos entre os grupos étnicos concorrentes da Etiópia e uma série de detratores dentro e fora do governo que se sentem ameaçados pelas mudanças - seja por considerá-las excessivas ou insuficientes.

As mudanças de Abiy são uma grande ruptura para a Etiópia, que há muito aposta num modelo de governo semelhante ao da China, enfatizando o crescimento econômico comandado pelo estado e a supressão da dissidência política.

Mas Abiy sabe que a grande maioria da população do país é jovem, com uma média de idade de 18 anos e a sede por liberdade econômica e política.

“Fechar a porta é a pior abordagem", disse ele ao New York Times em Los Angeles entre reuniões com etíopes que vivem nos Estados Unidos.

Muitas das promessas de Abiy ainda não foram cumpridas. Falta suspender as restrições à sociedade civil, e ainda não está claro como uma eleição pluripartidária pode ser realizada como prometido por ele num país cuja coalizão de governo e seus aliados controlam amplamente praticamente todas as instituições - ocupando todos os assentos do parlamento.

A congressista democrata Karen Bass, da Califórnia, que se reuniu com Abiy no fim de agosto, elogiou as mudanças promovidas, mas alertou para os riscos das crescentes demandas.

“Ele cumpriu o que prometeu, mas, se a vida não mudar para todos, a população fica impaciente", disse ela.

Mais conteúdo sobre:
Etiópia [África]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.