Chris Pizzello/Reuters
Chris Pizzello/Reuters

Uma paleta com o poder de mudar o mundo

Segundo a Pantone, a sua cor do ano, ultravioleta, comunica visão, originalidade e criatividade

Robb Todd, The New York Times

25 Março 2018 | 10h00

O tom púrpura foi escolhido a cor do ano porque, segundo Leatrice Eiseman, diretora executiva da Pantone Color Institute, “comunica originalidade, criatividade e uma maneira de pensar idealista”.

Segundo a convicção e o modelo de negócio da Pantone, “as cores exercem um forte poder, frequentemente subliminar sobre a mente humana”, escreveu Bruce Falconer no “The Times”. Laurie Pressman, vice-presidente da companhia, afirmou que a escolha da cor reflete o que ela pensa a respeito das necessidades do mundo e não o mundo em si.

Ultravioleta é a mais complexa de todas as tonalidades, disse a executiva, porque ela precisa de duas cores que parecem diametralmente opostas e “ao fundi-las cria algo novo”.

Essas duas cores, azul e vermelho, têm poderes próprios.

Uma consequência feliz da decisão de deixar a União Europeia, pelo menos para os britânicos que apoiaram o Brexit, será o retorno ao seu passaporte azul. Desde 1988, estes documentos eram cor de vinho, uma tonalidade escura de vermelho, como uma mostra de solidariedade com a UE, e voltarão a ser azuis em outubro de 2019.

“Dado o alto risco e os inúmeros pontos de discórdia, muitos concluíram que os passaportes vermelho vinho representavam uma submissão desnecessária a Bruxelas”, escreveu Michael Wolgelenter no “The Times”.

Nigel Farage, um defensor do Brexit e ex-líder do Partido Independente, de direita, declarou no Twitter que os passaportes azuis indicam que a Grã-Bretanha “voltará a ser um verdadeiro país. Estamos recuperando a nossa individualidade e identidade nacional”.

Entretanto, observou Wolgelenter, o país não precisava do Brexit para mudar os passaportes. A escolha da cor sempre foi da Grã-Bretanha. A União Europeia dita alguns elementos a respeito dos passaportes, o emprego de determinada tonalidade de vermelho era opcional.

Nos séculos 17 e 18, britânicos e europeus adotaram outra nuance de vermelho, escreveu Elizabeth Malkin no jornal. Ocorre que a Espanha descobrira no México uma tinta extraída de um pequeno parasita chamado cochonilha. O matiz é tão intenso que, na época, valia mais do que o ouro.

“Os britânicos também foram conquistados pela cochonilha”, afirmou Malkin, “que foi usada para tingir o tecido de lã dos uniformes dos oficiais do exército. Já em 1648, o sacerdote e viajante britânico, Thomas Gage, escreveu: ‘Os ingleses são como o seu sol, que é vermelho, e portanto se sentirão influenciados a usar o escarlate, enquanto for possível encontrar a cochonilha nas Índias’”.

A cochonilha, tema de uma recente exposição na Cidade do México, também encantou artistas como Van Gogh, e se tornou um símbolo do poder para a realeza.

“Luís XIV ordenou que o estofamento das cadeiras e das cortinas da alcova real em Versalhes fosse tingido na cor da cochonilha”, escreveu Malkin. “O comércio de cochonilha era tão rico que só era superado pelo da prata como a exportação mais valiosa das colônias americanas da Espanha”.

Entretanto, os tons pastel poderiam expressar motivos diferentes. Se uma cor pode ter tanto poder, algumas pessoas usam a diluição do pigmento para declarar que prefeririam ignorar o mundo a salvá-lo.

“As conotações atávicas do pastel”, disse Alice Gregory no “The Times”, “foram integradas, como tantas outras coisas, por uma autoconsciência irônica e talvez mesmo por uma percepção sutil da tragédia”.

Enquanto o vermelho assinala talvez uma clara rebelião, o pastel expressa uma insurreição mais sutil.

“O preto parece óbvio demais - e demasiado resignado”, escreve Gregory. “Usar cores pastel é como dar um sentido mais apropriado a uma calúnia. ‘Quem é o ingênuo agora?’ elas parecem sussurrar, sempre inseguras de que alguém possa ouvir”.

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