Claudio Peri/EPA, via Shutterstock
Claudio Peri/EPA, via Shutterstock

Uma praia em Roma onde ninguém ousa nadar

Presente de verão é inaugurado no fim da estação

Elisabetta Povoledo, The New York Times

07 Setembro 2018 | 10h00

ROMA - A praia fluvial aberta deveria ser um presente de verão oferecido pela criticada prefeita de Roma, Virginia Raggi, aos cidadãos. Chamada de “Tiberis", antigo nome dado à principal via aquática de Roma, a praia municipal foi promovida como resposta de Roma às instalações à margem do Sena, em Paris.

Mas, quando foi finalmente inaugurada no mês passado, em meio a dúvidas se a praia seria de fato aberta, levando em consideração o fato de o verão europeu estar praticamente no fim, a área - um conjunto de cadeiras de praia com guarda-sóis, duas quadras de vôlei de praia e máquinas de bebidas e alimentos - foi descartada por muitos, para quem o esforço foi insuficiente e tardio.

Em vez de se tornar um símbolo do governo progressivo do partido de Virginia, Movimento Cinco Estrelas, Tiberis se converteu em outro polo da ira dos romanos, que desabafam contra a prefeita.

Nas redes sociais, alguns fizeram piadas referindo-se à praia primária, localizada num populoso subúrbio de Roma, que seria mais adequada para os frequentadores mais assíduos do Rio Tibre: os ratos. Outros se queixaram que, diferentemente de outras capitais europeias como Berlim e Copenhague, cujas piscinas urbanas incluem áreas adequadas para nadar, os banhistas suarentos de Tiberis só poderiam recorrer a chuveiradas em cubículos de plástico.

“Há muito esgoto sem tratamento que ainda é despejado do Tibre, que é portanto um rio poluído", disse Giorgio Zampetti, diretor geral da associação ambiental italiana Legambiente. “É uma vergonha, e um problema para o qual chamamos a atenção muitas vezes.” Mas a limpeza do rio pode ser uma empreitada cara e imensa para a cidade.

“Uma praia sem água para nadar é um pouco ridícula", disse Tom Rankin, ex-diretor da organização sem fins lucrativos Tevereterno, que promove projetos artísticos para o Tibre. Ele disse que a prefeitura poderia ter “pensado numa ideia melhor".

Não ajudou o fato de um jornal de Roma ter publicado que a cidade tinha chegado a um acordo secreto com um chefão do bairro chamado “Zorro” na tentativa de impedir que a praia fosse atacada por vândalos. Funcionários da prefeitura disseram ser um caso de “notícias falsas".

Outros disseram que a cidade desperdiçou uma oportunidade importante de reestabelecer um elo com o Tibre, que já foi central para a identidade da capital italianas, mas agora vive no abandono.

De acordo com a lenda, Roma foi fundada nas margens do Tibre, onde Remo e Rômulo, os míticos fundadores gêmeos da cidade, foram resgatados e amamentados por uma loba. Margens altas foram construídas ao longo de trechos do rio após as desastrosas enchentes de 1870, separando a cidade do Tibre, mas, durante os séculos anteriores, os romanos tinham acesso direto às suas águas.

Nos anos mais recentes, restaurantes e bares se tornaram a paisagem típica das margens do Tibre, atraindo moradores e turistas. Mas sucessivas prefeituras tiveram dificuldades em encontrar uma solução de longo prazo para o estado de abandono em que o rio se encontra.

O projeto da praia Tiberis foi um começo.

Numa tarde escaldante, Marta Di Matteo, que vive a cinco minutos de distância, disse ter sido “atraída por Tiberis", acrescentando, “É como ter uma praia bem diante de casa".

Ela fez pouco das críticas. “O fato é que antes não havia aqui praia nenhuma, e agora, há", disse ela. “Vamos aproveitar.”

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