The New York Times
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Uma praia para mulheres muçulmanas

Alívio para o calor do Líbano e proteção contra olhares masculinos

Vivian Yee e Hwaida Saad, The New York Times

20 Setembro 2018 | 15h00

JIYEH, Líbano - É chamada a praia das senhoras. O nome sugere pudor; a cena, nem tanto - pelo menos, depois que elas passam pelo funcionário no portão e chegam até um retângulo de areia cor de bronze e mar.

Ali, retiram os hijabs da cabeça, afastam os véus do rosto. Então, jeans e abayas (os vestidos tradicionais) evaporam, revelando biquínis minúsculos, tankinis e shorts. Embaixo dos guarda-sóis, diante das ondas azuis, duas mulheres estão deitadas de bruços em cadeiras de praia; as costas nuas implicam frentes igualmente nuas. Ao seu redor, óleo de bronzear brilha sobre peles cor de cobre.

Quando um homem de jet ski se aproxima, uma salva-vidas o adverte com o apito para que se afaste. 

“Os homens”, disse Nada, supervisora de ônibus escolar de Beirute, caminhando dentro d‘água, “são sufocantes”.

No Líbano, uma fatia do país no Mar Mediterrâneo, as praias públicas e privadas, pagas, se estendem por toda a costa, desde Tiro, no sul, até Tripoli, ao norte. Cartazes exibem modelos de biquínis que promovem loções bronzeadoras. Mas muitas mulheres muçulmanas consideram “haram” - proibido - expor o próprio corpo em frente a um homem que não seja seu marido. As que frequentam praias de mistas com as famílias torram ao sol inteiramente vestidas.

Daí a criação de “praias para senhoras”, como esta, o Bellevue Beach Club de Jiyeh, a apenas 20 minutos de Beirute. Por 18 dólares por dia, elas podem desfrutar de um pedaço de areia para mulheres conservadoras em meio à mescla cultural do Líbano, que, com suas 18 seitas religiosas reconhecidas e festas que duram a noite inteira, tende a ser mais liberal do ponto de vista social do que outros países árabes.

Para algumas mulheres, os escrúpulos religiosos exigem uma maior cobertura. Segundo outras, as considerações de estilo e o calor pedem menos. “Aqui, estou livre para ser eu mesma”, disse Rabab Amhaz, 35, dona de casa do Vale do Bekaa, no interior, apontando para o seu tanquini brilhante, e entrou na água.

Nada, que começou a usar o véu quando casou, aos 14 anos, usava uma camiseta sem mangas com desenhos pretos e brancos e shorts pretos. “Quando você me vê no Facebook , pareço totalmente diferente”, ela disse, com os cabelos grudados na cabeça por causa da água. “Você não me reconheceria”.

As câmeras são proibidas, para proteger a privacidade. Mas as visitas a vários resorts libaneses sugeriram bem poucas diferenças entre as praias para mulheres e as mistas. Mexericos e odor de narguilé enchem o ar. Lanches, água e sombra são indispensáveis. No clube Bellevue, um homem recolhe os ingressos, mas nenhum outro homem é permitido. O pessoal de serviço composto exclusivamente de mulheres atende ao salão e à piscina. Há uma mulher DJ na tenda onde as banhistas ondulam, balançando os quadris com exuberância.

Rana Ghalayini, uma enfermeira de Beirute que usa o véu desde que casou aos 23, disse: “A religião é ampla. Trata-se de uma escolha pessoal”.

As suas razões para usar um traje de banho inteiriço eram um pouco mais mundanas. “Se eu fosse magrela”, ela disse, “usaria um biquíni”.

 

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