Fotos de An Rong Xu para The New York Times
Fotos de An Rong Xu para The New York Times

Uma sapatilha que combine com as bailarinas negras

Usar tinta ou ‘maquiar’ as sapatilhas de ponta era prática comum entre bailarinas negras

Alex Marshall, The New York Times

02 Dezembro 2018 | 06h00

Durante quase toda a sua carreira, Cira Robinson realizou um ritual: pintar suas sapatilhas para que combinassem com a sua pele.

Começou em 2001, quando tinha 15 anos, em um programa de verão do Dance Theater do Harlem. A companhia disse que as suas sapatilhas precisavam ser de cor marrom, e não do tradicional rosa, mas ela não conseguiu achar nada desta cor nas lojas, então usou tinta spray. “Elas ficavam com um aspecto ‘crocante’ e... eca!”.

Quando ingressou no Dance Theater, alguns anos mais tarde, começou a usar base. “Procurava nas lojas mais baratas e comprava produtos para maquiagem”, ela contou, “alguma coisa que não serviria para por no rosto porque se destacaria demais”.

Usava cinco tubos por semana, para passar em 12 a 15 pares de sapatilhas - processo conhecidos nos círculos do balé como ‘maquiar’ a sapatilha. Levava 45 minutos ou mesmo uma hora só para pintar um par.

Mas agora, Cira - que está com 32 anos e é uma artista sênior do Ballet Black, uma companhia de dança inglesa - não é mais obrigada a fazer isto. Em outubro, a Freed of London, que fornece as suas sapatilhas, começou a vender dois tipos especificamente para bailarinos de cor: um marrom, o outro bronze.

“Não tem nada a ver com cor, a questão é se você sente que faz parte do balé ou não”, disse Virginia Johnson, diretora artística do Dance Theater de Harlem. “É um sinal de que o mundo está aberto para você”.

As sapatilhas de ponta foram inventadas por volta de 1820, informou Anna Meadmore, curadora das coleções da Royal Ballet School.

Elas contêm um “box” rígido na frente que permite que a bailarina dance na ponta dos dedos do pé. Originalmente eram brancas, e faziam com que as bailarinas parecessem seres fantasmagóricos - segundo o ideal romântico do início do século 19, as mulheres deveriam ser sublimes - mas a cor de rosa passou a predominar, por ser mais próxima da cor da pele das bailarinas europeias. As sapatilhas deveriam combinar com a cor da perna, disse Anna Meadmore, sem “quebrar a uniformidade da linha”.

A maioria das bailarinas as adapta à cor da pele, qualquer que seja. Algumas ainda preferem que sejam macias, e para isso costumam batê-las várias vezes conta a parede, ou até esmagá-las. Outras, as cobrem de cola, para mantê-las mais rígidas.

Cira disse que usava cor de rosa quando começou a dançar nos anos 50, e não se preocupou com o problema até os anos 70, quando Arthur Mitchell, um dos fundadores do Dance Theater of Harlem, decidiu que as bailarinas deveriam usar as sapatilhas e meias que combinassem com a cor da sua pele. “Era lindo estar no palco e ser simplesmente você mesma, exatamente da minha cor”, ela disse.

Ingrid Silva, do Dance Theater, é brasileira. Ela postou vídeos no YouTube mostrando como colore as suas sapatilhas para ajudar as jovens bailarinas. Segundo ela, as novas sapatilhas são um avanço positivo, mas que há necessidade de uma maior variedade de tons. E acrescentou: “Há tantas outras coisas que o mundo do balé precisa aprender, em primeiro lugar, que é preciso que as companhias contratem mais bailarinas negras”.

A Freed of London não pôde calcular quantas sapatilhas ela vende. “Precisamos ser realistas”, disse Sophie Simpson, uma das gerentes. “Na maioria das companhias, o número de bailarinas negras ou pardas é reduzido. Esperemos que isto mude”.

Cira Robinson contribuiu para a evolução das sapatilhas. “Sei que muitas pessoas dirão ‘Bom, é só uma sapatilha’, ela disse. “Mas uma bailarina ama as suas, assim como um jogador de basquete adora a sua bola. Elas são minhas. Fazem parte de mim”.

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