Erika P. Rodriguez/The New York Times
Erika P. Rodriguez/The New York Times

Uma tartaruga, uma piscina e a luta para salvar as praias de Porto Rico

Uma tentativa de reconstruir uma piscina à beira-mar se transformou em uma história muito maior sobre as ameaças de erosão e desenvolvimento excessivo na ilha

Patricia Mazzei, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 05h00

RINCÓN, Porto Rico - A tartaruga, presumivelmente, não tinha como saber que se tornaria um símbolo de protesto ao ficar presa por horas em um canteiro de obras em uma praia no oeste de Porto Rico, sem poder voltar ao mar.

Mas a tartaruga-de-pente ameaçada de extinção vagou até o local de uma piscina sendo construída tão perto do oceano que um nadador poderia praticamente saltar da piscina para as ondas. Uma foto da tartaruga lutando, suas nadadeiras dianteiras cavando na areia, transformou este verão (no hemisfério norte) em um símbolo de desafio para os porto-riquenhos alarmados com o que está acontecendo em sua amada costa.

A erosão e o desenvolvimento excessivo ameaçam as belas praias de Porto Rico. Em uma ilha que tem lutado contra a falência, a infraestrutura em ruínas e a emigração de uma parte substancial de sua população, a areia imaculada e a abundante vida selvagem que tornaram as praias de Porto Rico famosas pelo mundo são tanto um motivo de orgulho como um importante atrativo turístico.

As preocupações com seu futuro vêm de décadas, mas foram exacerbadas nos últimos anos pelas mudanças climáticas, furacões e um frenesi de construção e reconstrução que está remodelando a orla marítima da ilha. Muitos porto-riquenhos temem que as últimas casas de família modestas e trechos desertos de habitat para tartarugas-de-pente e  tartarugas-de-couro desapareçam. Em seu lugar: empreendimentos de luxo acessíveis principalmente para pessoas ricas e investidores externos atraídos por incentivos fiscais.

Nos últimos 15 anos, os porto-riquenhos enfrentaram dificuldades debilitantes, de recessão econômica a furacões e terremotos. Assistir ao desaparecimento de suas praias preciosas só aprofundou sua sensação de que o próprio modo de vida da ilha está sumindo.

Durante o verão, e desde então, esse receio se manifestou na complicada saga de uma piscina em um condomínio localizado em uma praia onde uma tartaruga veio fazer seu ninho - a história de como o passado bucólico de Porto Rico encontrou seu presente pavimentado.

“Sem aquela tartaruga, nada disso teria acontecido”, disse Miguel Canals Silander, diretor do Centro de Ciência e Engenharia Aplicada aos Oceanos da Universidade de Porto Rico, que não mora muito longe da praia.

Mesmo antes da tartaruga-de-pente chegar em julho para botar seus ovos, o conflito em torno da piscina do Condomínio Sol y Playa havia crescido por semanas em Rincón, uma cidade turística conhecida pelo surfe com um pôr do sol espetacular na ponta oeste de Porto Rico.

Os proprietários do condomínio receberam permissão para construí-la depois que o furacão Maria destruiu a velha piscina em 2017. A nova construção horrorizou alguns vizinhos. A praia de Los Almendros havia se estreitado, sua areia diminuiu por causa do furacão e a elevação do mar. A piscina e o muro que a circunda estariam mais perto do oceano do que antes, resultando em menos espaço para as tartarugas marinhas, a maré e o público - em uma ilha onde a proteção dos recursos naturais para o benefício da comunidade é resguardada pela constituição.

Rincón vive do turismo, portanto, proteger as praias é crucial para sua sobrevivência. Muitos americanos de fora de Porto Rico compraram propriedades, atraídos por uma lei de 2012 que os isenta da maioria dos impostos sobre juros, dividendos e ganhos de capital. Considerando as dificuldades financeiras da ilha, os apoiadores da lei afirmam que ela ajuda a atrair os dólares necessários para a reconstrução e outros gastos, mesmo que por apenas alguns meses no ano. Os críticos argumentam que tal desenvolvimento está ocorrendo em detrimento da preservação ambiental.

Com esse pano de fundo, o Condomínio Sol y Playa, um belo edifício de quatro andares com amplas varandas, tentou reconstruir sua piscina.

Nem todos os proprietários aprovaram. José G. Barea Fernández, um proprietário, apresentou uma queixa em maio no Departamento de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico, que supervisiona as áreas costeiras públicas, argumentando que eles haviam errado ao não exercerem sua autoridade para impedir que uma agência separada concedesse licenças de construção.

Então, no início de julho, a tartaruga-de-pente rastejou por baixo da cerca da construção, botou 166 ovos e não conseguiu sair até que voluntários viessem ajudar. (Os voluntários realocaram os ovos e alguns deles eclodiram.)

As tensões aumentaram. A construção parou. A briga foi para o tribunal. Os legisladores realizaram audiências. Outras cidades questionaram se as licenças de construção perto de suas praias haviam sido devidamente emitidas.

A piscina se tornou um exemplo raro e tangível de como um planejamento e uma fiscalização deficientes - em um momento em que a mudança climática acelerada está causando a elevação do mar e furacões mais intensos - ocorrem, disse Pedro M. Cardona Roig, arquiteto e ex-membro do Conselho de Planejamento de Porto Rico.

“As pessoas têm que ver os impactos do que estamos falando: a foto de uma tartaruga-de-pente em um canteiro de obras”, ele disse.

Cardona Roig argumentou que a piscina foi construída ilegalmente mesmo em sua forma original, citando um memorando de 1997 de um agrimensor do Departamento de Recursos Naturais e Ambientais. A polêmica em torno da reconstrução ilustra como as autoridades falharam por décadas em aplicar os regulamentos existentes - ou redigir novos - para proteger o acesso à praia pública e limitar o desenvolvimento em áreas sujeitas a tempestades, ele disse.

“A piscina Sol y Playa foi destruída porque foi construída naquela zona”, disse Cardona Roig, “e a onda de tempestades a varreu”.

Um advogado da associação de condomínios não quis comentar, citando o litígio em andamento. Em declarações passadas, a associação culpou um pequeno grupo de detratores com motivação política por orquestrar protestos que resultaram em vandalismo, ameaças e invasão da privacidade de residentes por meio do uso de drones, alto-falantes e luzes fortes.

“Temos sido vítimas inocentes de uma perseguição brutal e seletiva por pessoas dedicadas a desestabilizar os sistemas democráticos da lei e da ordem”, disse a associação em agosto, depois que o conselho de planejamento concluiu que as autorizações para reconstruir a piscina haviam sido concedidas indevidamente.

O conselho ordenou que a construção permanecesse suspensa até dezembro.

Em uma declaração, Rafael A. Machargo Maldonado, secretário do Departamento de Recursos Naturais e Ambientais, manteve que o departamento havia sido “pró-ativo” no caso e estava trabalhando para aplicar a lei.

Em uma manhã recente, Carlos Rodríguez, um dos ativistas, passeava com sua cachorra, Almendra, cujo nome é uma homenagem à praia Los Almendros. Os manifestantes acharam-na uma cachorrinha minúscula. Rodríguez, um pescador, a segurou.

Vestindo uma camiseta com as cores da bandeira porto-riquenha e um colar com um pingente de tartaruga, Rodríguez, 63 anos, relembrou a praia imaculada de sua juventude. Ele colhia frutos de árvores que há muito foram substituídas por edifícios.

“Havia praia para caminhar”, ele disse. "Agora, não há nada."

Depois do canteiro de obras, uma fita amarela demarcava uma área no mato.

“Você viu?”, ele perguntou.

Dois ninhos de tartarugas marinhas. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.