Pete Kiehart para The New York Times
Pete Kiehart para The New York Times

Uma tradicional corrida holandesa em pistas congeladas da Áustria

Para fugir dos invernos mais quentes na Holanda, os patinadores da Elfstedentocht agora percorrem 11 cidades austríacas

Andrew Keh, The New York Times

08 de março de 2019 | 06h00

WEISSENSEE, ÁUSTRIA - Mil patinadores holandeses se reuniram recentemente antes do nascer do sol sobre a superfície congelada do Weissensee, o comprido lago que dá nome a essa cidadezinha. As lanternas presas às suas cabeças lançavam seu brilho no gelo escuro. Todos foram alertados a não removerem os óculos de proteção, para evitar que os olhos congelem com o vento. Apesar das condições climáticas brutais, todos se sentiam no paraíso.

"A maior beleza dessa vida é patinar sobre uma pista de gelo escuro, no frio, ouvindo os sons da patinação no gelo na natureza", disse o banqueiro Wim Wiltenburg, 53, em visita vindo de Tilburg. 

A patinação em velocidade no gelo natural é um passatempo adorado pelos holandeses. A tradição sobrevive hoje - mas não necessariamente na Holanda, onde a mudança climática produz, agora, invernos quentes demais para o congelamento consistente das vias aquáticas. O efeito disso é sentido profundamente em um evento histórico chamado Elfstedentocht, uma viagem de longa distância percorrendo 11 cidades da província da Frísia em um só dia. É um acontecimento sagrado para a cultura holandesa.

A corrida, cujo nome significa "tour das 11 cidades", é realizada casualmente desde o final dos anos 1700, e em caráter mais oficial desde 1909. Cobrindo uma rota contínua de aproximadamente 200 quilômetros, a Elfstedentocht ocorre somente quando os lagos e canais da Frísia têm formação de pelo menos 15 centímetros de gelo. Antes, isso era relativamente comum. Desde sua oficialização, em 1909, até 1963, a Elfstedentocht foi realizada 12 vezes. A partir de então, foram três, a mais recente em 1997. Alguns habitantes da Frísia se indagam se o evento voltará a ocorrer ali um dia.

Mas os holandeses se recusam a deixar que o espírito da corrida se perca. Assim, a cada inverno, quase 6 mil deles fazem uma peregrinação até Weissensee (753 habitantes). Conhecida como Elfstedentocht Alternativa, a corrida transplantada proporciona aos holandeses a rara oportunidade de patinar a mesma distância impressionante de 200 quilômetros percorrida por seus ancestrais.

"No passado, nossos canais e lagos sempre congelavam", disse um dos organizadores, Toine Doreleijers. "Isso não ocorre mais, mas a prática ainda está no nosso sangue".

Hans Visser, da Agência de Avaliação Ambiental da Holanda, disse que a probabilidade anual de condições para a realização da Elfstedentocht caiu de 26% em 1950 para 6,7% em 2017 (ou, em termos de intervalos médios, passou de uma vez a cada quatro anos para uma vez a cada 15).

A Elfstedentocht Alternativa realizada na Áustria tenta remediar o anseio dos holandeses. Em janeiro, o trajeto de 12,5 quilômetros seguia em ambos os sentidos no lago, que, de longe, parecia um formigueiro movimentado, com numerosos patinadores por toda parte.

Os participantes patinaram por 16 voltas, atentos ao gelo, que apresentava longas rachaduras. Sua idade variava entre 14 e 77 anos. Todos começaram a prova no escuro, e o último a terminá-la também o fez no escuro, 11 horas mais tarde.

Marieke Lassche, 59, terminou com o tempo de 9 horas, 53 minutos e 11 segundos. Essa professora de Ommen participou da verdadeira Elfstedentocht em 1986, quando tinha 26 anos. Disse gostar da paisagem límpida de Weissensee, mas sonhava em patinar novamente pela cacofonia da Frísia.

"Começamos em Leeuwarden quando está escuro, mas há carros com seus faróis acesos e bandas", disse ela a respeito da experiência vivida 33 anos atrás. "Quando chegamos a uma cidade, todos estão gritando, 'Vamos, você consegue!'. É como ter asas".

Klasina Seinstra, 50 anos, viaja a Weissensee há 27 anos, primeiro como patinadora e, hoje, como técnica. É dela o tempo mais rápido entre as patinadoras do lago austríaco, alcançado em 1995, 1996 e 1997, antes de se tornar a primeira mulher a cruzar a linha de chegada da Elfstedentocht de 1997, a última realizada na Holanda. "Fico com lágrimas nos olhos", disse, pensando naquele dia. "Nunca mais tive aquela sensação".

Aos 43 anos, Erben Wennemars praticamente se aposentou da patinação em velocidade profissional, mas participa de algumas provas por ano para se manter qualificado para a parte profissional da Elfstedentocht, na esperança que ela ocorra. Para ele, a pureza do evento (há apenas poucos patrocinadores locais, e nada de prêmio em dinheiro) era um antídoto contra o mundo demasiadamente "programado" do esporte de elite moderno.

"Fui campeão do mundo oito vezes, tenho duas medalhas olímpicas, mas trocaria tudo isso pela Elfstedentocht", disse.

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