James Estrin/The New York Times
James Estrin/The New York Times
Sarah Maslin Nir, The New York Times

29 de março de 2020 | 06h00

LIVINGSTON, NOVA JERSEY – A comoção começou quando um adolescente foi pagar o seu suco de maçã. Ele ficou abanando as mãos extremamente agitado, puxando os fones de ouvido, depois se virou para a mãe e deu uma cabeçada. O caixa do supermercado não se impressionou, ficou sorrindo inabalável esperando pacientemente o rapaz se acalmar.

Kenneth Kaufman, de 15 anos, tem autismo, e é um cliente regular aqui, nesta pequena mercearia em LifeTown, um complexo de 5 mil metros quadrados para ajudar pessoas com autismo e outras com problemas físicos e intelectuais a lidar com as atividades diárias. Cerca de 25% do espaço é ocupado por uma vila de faz de conta com 15 lojas, apenas as fachadas, até mesmo um “banco”, onde os visitantes podem sacar US$ 12 para comprar salgadinhos em uma mini mercearia, ou fazer as unhas em um salão de beleza, chamado Linda’s Salon.

O balconista da mercearia, como outros funcionários do local, era um voluntário treinado que sabia que Kenneth, como muitos outros com autismo, poderia ser exuberante em dado momento, violento no outro, e frequentemente sensível a sons. Logo, Kenneth se acalmou. O balconista pegou o dinheiro do rapaz e o ajudou a colocar um canudo na caixa de suco. “Em outros lugares, a pessoa grita, dá pulos, dá cabeçadas até, e nunca mais será aceita na loja”, disse sua mãe, Ella Kaufman.

Ela leva o filho e o irmão, ambos com autismo, para o centro desde que abriu, em setembro do ano passado. Ali, experimentam coisas como fazer compras, marcar uma consulta com o dentista em um consultório fictício ou caminham obedecendo aos semáforos e cruzamentos, nos 45 metros de uma rua de cidade simulada. “A capacidade de aprender novas coisas é grande”, disse Ella. “Mas a possibilidade de não ser um marginalizado é a maior de todas. Aqui, você é aceito”.

LifeTown inclui uma cozinha prática onde se ensina a preparar comida, um playground acolchoado revestido de pelúcia e uma academia. A academia de compensado tem um teto à prova de som para as crianças que de outro modo não iriam jogar basquete porque o barulho poderia provocar uma sobrecarga sensorial.

O complexo de US$ 19 milhões é a criação do rabino Zalman Grossbaum e sua esposa, Toba Grossbaum, ambos especialistas em educação. Em 1997, Toba trabalhou meio período como instrutora de educação especial, e ficou impressionada com as dificuldades que os seus alunos enfrentavam, além do ônus para as famílias.

O casal montou o LifeTown seguindo o exemplo de um centro semelhante de 1,9 mil metros quadrados, em Detroit, o Friendship Circle. LifeTown é financiado pelas doações de 2,7 mil pessoas. A instalação cobra US$ 35 por cliente por visita. Suzanne Buchanan, do grupo de promotores desta ideia Autism New Jersey, elogiou a ideia do LifeTown, mas alertou que simular as experiências reais não é uma panaceia para as dificuldades complexas encontradas pelas pessoas com autismo.

A prática em ambientes controlados não é suficiente, ela disse: é preciso muita repetição, paciência e compreensão para expandir os seus benefícios para o mundo como um todo. Para Jerry DeFrance, uma tarde passada no lugar bem iluminado e tranquilo foi um começo muito desejado.

A família alimenta e veste o homem de 26 anos, e um assistente cuida dele constantemente para a sua segurança, porque ele tem síndrome de Down, o que torna o autismo difícil. Entretanto, uma tarde, recentemente, pedalando no seu triciclo sozinho, passou em frente ao Salão da Linda e da florista Sarah Jones na aldeia de faz de conta.

Ao se aproximar de um dos quatro semáforos da cidade, a luz vermelha acendeu, e ele freou rápido. “Consegui”, disse triunfante Jerry. O seu cuidador arregalou os olhos. “Fiquei tão feliz, tão orgulhoso ao ver isto”, disse Junior Docteur, seu assistente. “Eles precisam tanto deste lugar”, disse Docteur. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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