Kenzo Tribouillard/Agence France-Presse
Kenzo Tribouillard/Agence France-Presse

Falta de solidariedade ameaça União Europeia

Apesar da nova gestão do Conselho Europeu, a UE não mostrou-se solidária ao que ela tanto insistiu em relação ao maior problema dos últimos cinco anos: a migração

Steven Erlanger, The New York Times

04 de janeiro de 2020 | 06h00

BRUXELAS – Donald Tusk cresceu no movimento Solidariedade da Polônia, a revolta dos operários que se uniram aos intelectuais para derrubar o regime comunista.

O Solidariedade foi um elemento fundamental da ideologia de Tusk e da sua vida. O movimento continua sendo “minha palavra favorita”, ele disse recentemente em uma entrevista. Mas também simboliza o seu maior fracasso como presidente do Conselho Europeu, a união dos países membros da União Europeia, cargo que ele acaba de deixar depois de um mandato de cinco anos. Apesar dos apelos de Tusk, a UE não mostrou a solidariedade em que ela tanto insistiu em relação ao maior problema dos últimos cinco anos: a migração.

A crise alimentou uma política da identidade e o populismo em países como Alemanha, Hungria, Itália e na Polônia de Tusk, e ajudou a Grã-Bretanha em sua saída da União Europeia – outro fracasso para Tusk, que foi absolutamente contrário ao Brexit. “Não se pode forçar as pessoas a serem solidárias”, afirmou Tusk, de 62 anos, refletindo sobre seu mandato e o estado da Europa.

Os problemas dos migrantes, das fronteiras e da islamofobia foram alimentados internamente, e Bruxelas foi o bode expiatório. O conflito foi particularmente complicado em relação ao velho amigo e colega anticomunista, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban. Tusk acaba de assumir um novo cargo em Bruxelas, o de líder de um partido de centro-direita chamado Partido Popular Europeu. Orban e o seu partido Fidesz são membros preeminentes.

E o que Tusk pretende fazer? Ele reluta em responder, porque assistiu à transformação de Orban, anteriormente anticomunista, em um autoritário populista, envolvido em islamofobia e antissemitismo, que se orgulha de ter criado uma “democracia iliberal”. Usando o seu mandato para mudar a Constituição húngara, Orban continua sendo uma poderosa força no interior da União Europeia e da política populista, identitária e anti-Bruxelas. Pedimos a Orban um comentário, mas nossa solicitação não foi atendida.

No entanto, admite Tusk, o problema de Orban é ainda mais complexo, porque na Europa muitos acham, assim como Tusk, que ele tinha razão de defender ardorosamente as fronteiras da Europa contra a imigração descontrolada, inspirada em parte pela decisão da chanceler Angela Merkel da Alemanha de abrir as fronteiras do seu país.

“Não só o Partido Popular Europeu, mas toda a família europeia compreendeu que se você quer ter uma política de asilo, deve ter condições de controlar as fronteiras externas”, argumentou Tusk.

Liberalismo

O que prejudicou Merkel foi a sensação de caos e de perda de controle. Mas Orban compreendeu, disse Tusk, que “a primeira condição é a ordem”. E isto levou o ex-primeiro-ministro polonês, um democrata liberal, ao que ele descreve como o seu pesadelo. “O maior medo hoje, e não só na Europa, é que as pessoas pensem que liberalismo é sinônimo de vulnerabilidade e desordem, caos e fragilidade”, afirmou.

“A democracia liberal deve ser também forte e decidida e às vezes até mesmo impiedosa quando se trata de proteger o próprio povo, fronteiras, territórios, etc.”, acrescentou. “Se as pessoas começam a acreditar que não há nenhuma possibilidade de combinar liberdade e valores liberais com segurança e ordem, não teremos condições de sobreviver”.

Quanto ao que fará com Orban, Tusk se recusou a responder. Mas a política continua estranha. “Evidentemente, é um problema também por causa do atual debate sobre migração. E quase ninguém no EPP quer punir Orban por causa deste mesmo contexto", destacou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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