Tim Franco para The New York Times
Tim Franco para The New York Times

Unindo as duas Coreias, ponto por ponto

Projeto de artista da Coreia do Sul em colaboração com norte-coreanos desafia sanções internacionais

David Segal, The New York TImes

16 Agosto 2018 | 10h00

SEUL, COREIA DO SUL - Kyungah Ham, que vivia aqui nos anos 70, um dia encontrou material de propaganda mandado pela Coreia do Norte por meio de balões de hélio. Assim como suas colegas de escola, Kyungah mostrou os folhetos à escola, onde recebeu um prêmio por cumprir seu papel, ainda que pequeno, na silenciosa guerra ideológica da Coreia do Sul com o país vizinho.

Em 2008, encontrou outro folheto - desta vez embaixo do portão da casa de seus pais - parecia um objeto extraterrestre, vindo de outro planeta. Naquela época, ela já era uma artista multimídia que desconfiava da história que lhe haviam ensinado, pois sabia que os sul-coreanos também enviavam sua propaganda para o outro lado da fronteira. Começou a imaginar: será que poderia se comunicar com pessoas que uma tragédia geopolítica, hoje com 65 anos, proibia que ela pudesse contatar?

Foi assim que nasceu uma extraordinária colaboração que perdura até hoje. Há dez anos, Kyungah produz desenhos em seu computador que são impressos e contrabandeados na Coreia do Norte por meio de intermediários na Rússia ou na China.

Lá, um grupo de artesãos, que ela nunca conheceu e com os quais jamais conversou, são pagos para transformá-los em bordados, em um precioso trabalho de agulha e linhas de seda. Com subornos e subterfúgios, as obras são trazidas de volta. Ultimamente, estão sendo mostradas e vendidas em galerias e exposições.

As peças mais ambiciosas são reproduções em grande escala de lustres luminosos e resplandecentes, alguns com cerca de quatro metros de largura e três de altura, que de longe parecem fotografias. Ao nos aproximarmos, percebemos uma filigrana de pontos.

Seus bordados são uma tentativa de reunir, por meio da arte, pessoas que foram forçosamente separadas pela guerra, em 1953. O trabalho une a força do Sul (a tecnologia) à força do Norte (o artesanato).

As sanções internacionais proíbem o comércio com o Reino Eremita, portanto, teoricamente ela poderia ser processada. As penas para seus colaboradores são muito mais graves. Eles podem ir para a cadeia ou ser executados.

Kyungah não menciona a quantidade de dinheiro gasto para pagar os intermediários, os artesãos e as propinas. Mas não esconde a arte nem os métodos. O Projeto Bordado, como ela o chama, faz parte de mostras em museus em Londres, Viena e Cingapura, e as fichas afixadas nas paredes ao lado de cada peça explicam como ela foi feita. "Bordado norte-coreano feito à mão", diz uma delas. "Fios de seda sobre algodão, intermediário, ansiedade, censura, ideologia, moldura de madeira, aproximadamente 2.200 horas/2 pessoas".

As peças voltam dobradas em sacos plásticos pretos. A viagem de ida e volta da Coreia do Norte pode levar até um ano.

Desde que concluiu o mestrado em Belas Artes na Escola de Artes Visuais de Nova York, em 1995, Kyungah fez vídeos, esculturas, fotografias e uma variedade de instalações.

Hoje, suas peças são vendidas por preços que vão de US$ 25 mil a US$ 300 mil na Galeria Carlier Gebauer de Berlin e na Kukje de Seul.

Explicando como concebeu seus bordados, Kyungah diz que se inspirou em parte em um instante vislumbrado em um documentário sobre os Jogos Coletivos, uma extravagância socialista de Pyongyang, uma apresentação de música, dança e ginástica rigorosamente coreografadas. A produção reúne uma multidão de milhares de pessoas que seguram um livro perto do rosto com blocos de cores em cada página. As páginas são viradas em um uníssono perfeito, um enorme cartaz humano vai mudando incessantemente palavras e imagens.

Kyungah, que observava o espetáculo, de repente viu o rosto de um menino espiando por cima de seu livro colorido.

"Ele era como um pixel em uma imagem digital", ela disse. "Eu quis trazer essa ideia para minhas luminárias".

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