Maxim Babenko para The New York Times
Maxim Babenko para The New York Times

Universidade russa não tem estudantes

Uma importante instituição do ensino liberal ofende os nacionalistas do país

Ivan Nechepurenko, The New York Times

06 Setembro 2018 | 15h15

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA - Nesta época do ano, as salas de aula da Universidade Europeia de São Petersburgo, uma faculdade de artes de ensino liberal da segunda maior cidade da Rússia, estariam normalmente se enchendo de estudantes de volta das férias.

Pelo segundo ano consecutivo, entretanto, as salas de aula da faculdade estão vazias e escuras. A única movimentação ocorre os lugares da faculdade onde os professores subempregados se queixam do seu ano sabático forçado.

A Universidade Europeia tem um corpo docente de nível internacional, uma verba generosa e uma fama considerável como instituição de pesquisa. O que falta à escola, desde agosto do ano passado, quando as autoridades tiraram da universidade a licença para lecionar, são os estudantes.

No entanto, ultimamente, a esperança renasceu. A reeleição do presidente Vladimir V. Putin em março provocou um remanejamento do governo russo. Aleksei L. Kudrin, um dos políticos mais liberais da Rússia, tornou-se o diretor do Tribunal de Contas, com o poder de enviar seus próprios inspetores.

De repente, com a nomeação de Kudrin, a agência reguladora do ensino da Rússia não encontrou nenhuma violação quando investigou a universidade, e no mês passado concedeu à instituição uma licença para ensinar. Agora, ela planeja reabrir para os estudantes em outubro.

Mas as lutas da Universidade Europeia talvez não acabem. Houve vezes, no ano passado, em que a escola achou que a sua licença de ensino seria devolvida em breve, e todas as vezes suas esperanças se frustraram. A universidade se viu no meio das batalhas travadas no governo russo entre forças reacionárias, nacionalistas, e facções mais progressistas, com uma visão mais voltada para fora.

“O problema da Universidade Europeia está no fato de ser europeia”, disse Vladimir Y. Gelman, um professor da escola. “Os princípios pelos quais a nossa escola se pauta - a liberdade acadêmica, a organização própria e a abertura internacional - são o oposto daqueles seguidos pela Rússia de hoje: controle centralizado, poder vertical e isolacionismo”, ele explicou.

A Universidade Europeia foi o produto do imediato pós-era soviético, quando o dinheiro era escasso, mas as iniciativas de base floresciam. Ela foi criada em 1994 por um grupo de entusiastas que tentavam impedir a fuga de talentos. Seu objetivo era reunir os principais acadêmicos da Rússia nas áreas de ciências sociais e humanas, em uma instituição modelo, segundo os padrões das universidades ocidentais.

A escola foi um sucesso, os estudantes apareceram em grandes números do mundo todo. Em contraposição à maioria das universidades russas, os estudantes eram obrigados a pensar de maneira crítica, e tinham a liberdade para escolher as próprias áreas de interesse.

O sistema de ensino russo produzira grandes matemáticos e físicos, mas pouco mais além disso, e as disciplinas de economia, sociologia, ciências políticas e história estavam repletas de dogmas marxistas.

Para os nacionalistas russos, cuja influência cresceu com a ascensão de Putin à presidência, em 2000, a universidade era um intolerável posto avançado do liberalismo ocidental.

Em uma queixa apresentada em 2016, Vyacheslav Y. Dobrokhotov, ativista de um movimento nacionalista de São Petersburgo, citou um livro de um cientista político da Universidade que afirmava que o tecido social soviético se baseava na hipocrisia.

“Eu me dei conta de que esta organização é prejudicial para a Rússia”, afirmou. “Seu principal organizador são os Estados Unidos. Eles querem deflagrar uma revolução colorida no nosso país”.

Outra ação foi movida por Dmitry Bikbov, que se queixou de que operários estavam descarregando novas janelas de plástico perto do principal edifício da universidade, um palácio do século 18 revestido de mármore, que havia sido declarado monumento histórico.

As queixas criaram um pretexto jurídico para 11 organismos oficiais - entre eles o Ministério das Situações de Emergência - conduzirem as investigações. Seguiu-se uma disputa legal.

No final, o governo de São Petersburgo despejou a universidade do palácio, obrigando-a a se mudar.

Funcionários da Universidade afirmam que nunca souberam ao certo o motivo da revogação da licença de ensino.

“Tenho a certeza de que a razão pela qual não podemos estudar nada tem a ver com as normas de prevenção de incêndio”, disse Roman V. Popov, um estudante de economia, que teve de se transferir para outra faculdade de São Petersburgo para receber o seu diploma. “Pode ter sido político, ou talvez alguém só quisesse usar o nosso edifício”.

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