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Estudo acusa problema em conciliar exploração de petróleo e proteção de ursos

Técnica de câmera usada para identificar tocas de ursos polares identifica menos da metade deles, indica pesquisa

Henry Fountain, The New York Times

14 de março de 2020 | 06h00

No debate referente à exploração de petróleo no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico, no Alasca, os ursos polares têm grande peso. O que está em questão é a possibilidade de prospectar petróleo, principalmente por meio de testes sísmicos para encontrar reservas, sem prejudicar estes animais que já foram muito afetados pela mudança climática.

Um novo estudo levanta dúvidas sobre o que pode ser considerado um dispositivo de última geração para não perturbar os ursos polares detectando as suas tocas. O estudo mostrou que, em mais de dez anos, na Vertente Norte do Alasca, as companhias localizaram menos da metade das tocas conhecidas de ursas grávidas usando câmeras de raios infravermelhos, ou FLIR, na sigla em inglês.

“Nós queríamos levantar a bandeira de cautela”, disse Tom Smith, um ecologista da vida selvagem da Brigham Young University, o principal autor do estudo que foi publicado na revista PLOS ONE. A indústria petrolífera “precisa admitir que mesmo nas melhores condições, você deixará de detectar alguns ursos”, acrescentou Smith, que é também assessor da Polar Bears International, um grupo conservacionista que fornece recursos para o estudo.

As ursas polares grávidas cavam tocas na neve  perto do fim do ano, e emergem de lá com os filhotes, na primavera seguinte. As tocas não detectadas podem ser perturbadas ou esmagadas durante uma pesquisa sísmica, com caminhões de grande porte transitam pela região. Na Vertente Norte do Alasca, onde as prospecções ocorrem desde os anos 1970, as pesquisas só são permitidas no inverno, quando há neve suficiente para proteger a tundra ártica.

As câmeras FLIR instaladas a bordo de aviões podem detectar o calor em baixo da a neve. Mas Smith disse que as condições precisam ser perfeitas, sem muito vento e com pouca umidade. “Se a neve que cobre uma toca tem mais de um metro de espessura, a FLIR não vai conseguir vê-la”, ele disse.

“O calor se dissipa no banco de neve”. Usando relatórios do setor sobre pesquisas por FLIR de 2004 a 2016 e comparando-os com documentos no solo, os pesquisadores constataram que as câmeras conseguiram localizar somente 45% das 33 tocas foram localizadas pelas câmeras.

O refúgio do Ártico é uma área de proteção importante para as subpopulações de ursos polares do Mar de Beaufort do Sul. O eventual dano aos ursos tornou-se um tema de grande destaque em meio aos esforços do governo Trump para permitir a exploração no refúgio. O Departamento do Interior elaborou uma declaração de impacto ambiental, exigida antes que as locações possam ser vendidas, mas não foi tomada nenhuma decisão final.

No caso de ocorrer uma pesquisa sísmica, um documento dos cientistas do Departamento do Interior sugeriu algumas maneiras de reduzir o incômodo. Publicado em dezembro na revista The Jornal of Wildlife Management, o documento utilizou simulações por computador de desenhos de pesquisas que variavam quanto ao lugar e à época em que os caminhões sísmicos passariam, a fim de evitar as áreas de refúgio.

E constatou que com restrições mais específicas, o número de tocas perturbadas poderia ser reduzido em mais de 90%. Ryan R. Wilson, um autor do estudo, disse: “Se nos oferecerem mais informações, poderemos ir mais longe na tentativa de reduzir o incômodo dos ursos polares’. O estudo dos projetos de pesquisa agora está aberto a comentários públicos, o que é raro para um estudo acadêmico.

“O documento mostra claramente o problema em que se esbarra ao procurar conciliar a exploração de petróleo e a proteção dos ursos polares ameaçados de extinção”, disse Robert Dewey, um vice-presidente do grupo ambiental Defenders of Wildlife. “O período dos comentários dará a indústria a oportunidade para tentar desacreditar o estudo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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