Ursos atormentam pastores nos Pirineus

Ataques de ursos a ovelhas aumentaram 46% m 2017, em comparação a 2016

Adam Nossiter, The New York Times

11 Agosto 2018 | 10h30

SAINT-GIRONS, França - O grande urso pardo raramente é visto nas montanhas, mas é possível perceber os sinais de sua presença iminente: as suas pegadas na lama, os restos destroçados de uma ovelha, imagens de vídeo capturadas por câmeras instaladas pelo governo.

O urso quase invisível assombra os pastores que conduzem seus rebanhos pelos altos Pirineus; de longe é possível ver as manchas claras das ovelhas nos flancos verdes das montanhas com trechos ainda brancos. São elas que abastecem a França de saborosos queijos tenros e cordeiros.

Escondidos pela neblina onipresente ou vislumbrados apenas na distância, os ursos predadores afugentaram alguns destes pastores dos altos pastos.

“Vi as carcaças”, disse Christian Marrot, um criador de ovelhas que ajudava a conduzir um rebanho pelas ruas de Saint-Girons. “Agora, deixo as minhas lá em baixo”.

Ursos, carneiros e seres humanos são uma mistura extremamente instável nestas montanhas. A combinação provocou um confronto entre Paris, orientada pela União Europeia, e uma das miríades de microculturas da França.

O governo francês tenta recompor a população secular de ursos, que esteve próxima da extinção nos anos 90, vitima das invasões e da caça.

Os pastores não estão interessados no urso como “elemento  da cultura natural dos Pirineus”, como afirma um livreto do governo. Eles veem as ovelhas como comida.

Todo ano, no mês de junho, os pastores passam dois dias desfilando seus rebanhos pelas aldeias da região. Em Saint-Girons, os aldeões vão à janela para apreciar o fluxo de 800 ovelhas passando pelas ruas.

Segundo os pastores, os ursos criaram um conflito entre burocratas e camponeses.

“Em Paris, eles fazem pesquisas sobre a nossa vida aqui no Ariège”, disse Pierre Fort, 74, também criador de ovelhas que levava o seu rebanho pelas ruas da cidadezinha. O Ariège é o departamento francês onde os ursos são mais numerosos.

“Eles não perguntaram para a gente se queríamos os ursos aqui”, afirmou Fort. Ele perdeu 35 ovelhas devoradas pelos ursos no ano passado.

No fim deste ano, o governo pretende introduzir mais dois ursos na população atual de 43. Uma decisão da justiça em março lhe deu pouca escolha, depois de anos de atraso por causa da oposição local. Segundo o tribunal determinou, a França não manteve sua promessa de recuperar os ursos nem uma ordem da União Europeia sobre a biodiversidade.

Apesar da oposição, as autoridades trazem os ursos anestesiados de caminhão da Eslovênia há mais de 20 anos, e os soltam nas montanhas. “Estes ursos eslovenos são muito mais oportunistas”, disse Robin Cazalé, um camponês que perdeu três ovelhas em junho.

Os números respaldam a convicção de que estes animais estão se tornando uma grande ameaça. Os ataques contra as ovelhas aumentaram 46% em 2017, em comparação a 2016. Cerca de 464 ovelhas foram mortas ou feridas por ursos, a maior quantidade desde a implantação do programa de importação dos ursos, em 1996.

No ano passado, dezenas de ovelhas, apavoradas com os ursos que criavam tumulto, correram para a morte despencando de rochedos ao todo cerca de 260.

“Eu perdi a metade do meu rebanho”, contou Marrot. “Não vale a pena”.

O governo francês e os defensores dos ursos declaram que os proprietários são plenamente indenizados pelos eventuais prejuízos. Nenhum ser humano foi atacado.

Mas alguns pastores ameaçam ignorar a proibição da caça aos ursos.

Eles são “uma espada de Damocles pendurada sobre as nossas cabeças”, afirmou François Thibaut, ex-pastor. Ele contou que perdia de 40 a 50 animais ao ano antes de desistir, tempos atrás, de levá-los para os pastos nas montanhas.

“É uma sensação de impotência”, disse Thibaut, que agora cria ovelhas em uma cooperativa. “E isto, é muito muito estressante. Isto arrebenta a gente completamente”.

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