Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Ursos de hoje passam mais tempo acordados

Estudo aponta que o aumento nas temperaturas mínimas no inverno afetam o período de hibernação dos animais

Kendra Pierre-Louis, The New York Times

26 Maio 2018 | 10h45

GENOA, NEVADA - Há certas máximas que aprendemos na infância: o mar é salgado, as plantas crescem em direção ao sol, os ursos hibernam no inverno. Mas, conforme a mudança climática perturba a disponibilidade de alimento e os ritmos biológicos, os ursos pretos americanos estão mudando seus padrões de hibernação, dizem os cientistas.

Em alguns casos, os ursos nem chegam a hibernar. Em outros, os ursos acordam cedo demais. Para cada grau Celsius de aumento nas temperaturas mínimas do inverno, a hibernação dos ursos é reduzida em seis dias, de acordo com estudo realizado no segundo semestre do ano passado. Conforme as temperaturas globais continuam a aumentar, até meados do século é possível que os ursos pretos fiquem acordados por mais 15 a 39 dias ao ano, de acordo com o estudo.

Uma visita em fevereiro às montanhas Pine Nut, noroeste de Nevada, perto de Lake Tahoe, proporcionou uma amostra do que pode ser o futuro. No outono anterior, as temperaturas na região ficaram até 4,7°C acima da média do século XX. Em janeiro, as temperaturas ficaram 5,4°C acima da média.

Normalmente, a ecologista Rae Wynn-Grant estaria acompanhando os ursos adormecidos para compreender melhor como eles escolhem o local da hibernação. Mas quando ela verificou o sinal do GPS de dois ursos que tinham recebido coleiras, percebeu que estavam se movendo. “Até este ano, nunca tinha visto ursos acordados nessa época", disse.

Num clima temperado, os ursos costumam hibernar durante o inverno, quando o alimento é escasso, explicou Heather Johnson, bióloga e pesquisadora da vida silvestre ligada ao United States Geological Survey e coautora do estudo publicado em meados do ano passado. Não se trata simplesmente de um sono profundo: quando os ursos pretos hibernam, a temperatura de seu corpo cai e o ritmo cardíaco se reduz, chegando a apenas nove batimentos por minuto.

O estudo de Heather Johnson revelou que as temperaturas mais altas e a abundância de alimento diminuíram a hibernação. Para os pesquisadores, ambos os fatores desempenharam um papel, com alguns ursos de Pine Nut passando o ano inteiro acordados. A escassez de alimento típica do inverno não ocorreu por causa de eventos que tiveram início no ano anterior, quando uma temporada de muita neve proporcionou bastante umidade, resultando numa colheita particularmente farta de pinhões no outono passado. No começo desse ano, a baixíssima precipitação deixou os pinhões descobertos sobre o solo.

“Acreditamos que os ursos não sentiram a necessidade de procurar uma toca porque ainda havia oferta de alimento", disse Heather Reich, do Departamento de Vida Silvestre de Nevada.

As temperaturas mais quentes nem sempre significam mais alimento para os ursos. Nos anos mais recentes de forte seca, como 2014 e 2015, o suprimento de alimento entrou em colapso.

Com frequência, o primeiro sinal do despertar dos ursos chega na forma de uma queixa ao Departamento de Vida Silvestre de Nevada. Em 2015, uma moradora informou que um urso tinha entrado na sua casa. Ela encontrou “a porta da cozinha aberta e pegadas frescas de urso, dando a volta na mesa da cozinha e chegando à despensa, de onde o urso pegou um pacote de macarrão e um saco de salgadinhos antes de ir embora”.

Num ano típico, o Departamento de Vida Silvestre de Nevada lida com 69 casos de ursos que invadem propriedades ou são atropelados. Mas, em 2014, foram 143 ursos e, em 2015, 122 ursos (os anos de seca mais acentuada).

Os ursos pretos estiveram ameaçados de extinção no final do século 19, mas hoje estima-se que haja 300 mil espécimes nos Estados Unidos. É possível que o relacionamento entre humanos e ursos se torne mais difícil, com a mudança climática aumentando o tempo de vigília dos animais e perturbando seu suprimento natural de alimento.

“Calculo que teremos menos filhotes de urso sobrevivendo aos invernos, e tantos conflitos com moradores a ponto de eles pedirem uma caçada aos animais, como ocorreu no século 19", disse a ecologista Rae Wynn-Grant. “A diferença é que, dessa vez, eles poderão responsabilizar a mudança climática”.

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