Talia Herman para The New York Times
Talia Herman para The New York Times

Usando uma impressora 3D para um futuro sustentável

Casal de arquitetos democratiza impressão 3D usando materiais destinados ao lixo

Patricia Leigh Brown, The New York Times

20 de março de 2019 | 06h00

OAKLAND, CALIFÓRNIA - Num dia frio de chuva pesada, os arquitetos Ronald Rael e Virginia San Fratello se refugiaram em sua aconchegante cabana impressa em 3D que construíram no quintal. Plantas suculentas brotavam em toda a fachada, em azulejos feitos de cascas de uva chardonnay, serragem e cimento.

As gotas de chuva caíam sobre as telhas de cerâmica elaboradas em 3D. No interior, uma parede de bioplástico com redemoinhos semelhantes a nuvens - também impressa em 3D - mudava de cor enquanto Ronald com um controle remoto, passava do rosa ao verde e ao púrpura.

Pioneiro da impressão em 3D, o casal, que desenvolveu técnicas de construção sustentáveis, utiliza frequentemente materiais descartados como lama, cascas de nozes, borra de café e outros que “essencialmente não custam nada”, disse Virginia. Eles tornaram a impressão em 3D mais acessível, usando impressoras leves para fabricar componentes arquitetônicos.

Virginia e Ronald “criam formas complexas e fantásticas que não seriam possíveis de outra maneira”, disse Ellen Lupton, curadora sênior de design contemporâneo no Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum, que no ano passado incluiu o trabalho dos dois em uma exposição. “Eles têm o cérebro híbrido de um arquiteto, de um alquimista e de um chef confeiteiro”.

Rael e Fratello, 47, são os divulgadores da causa do 3D: ele é professor de arquitetura e trabalha com arte na Universidade da Califórnia, em Berkeley; ela é professora adjunta de design na San Jose State University. O escritório Rael San Fratello produz designs elegantes e mesmo um pouco bizarros inspirando-se na antiga tradição artesanal, como as cerâmicas espiraladas.

Eles utilizam uma variedade de métodos, e usam frequentemente um processo inventado no Massachusetts Institute of Technology chamado “binder jetting (fabricação aditiva)", que consiste de uma substância líquida borrifada sobre uma fina camada de pó centenas ou milhares de vezes até que surge um material endurecido. Como documentaram no livro Printing Architecture: Innovative Recipes for 3D Printing, publicado no ano passado, a lama é algo muito caro a eles. Rael cresceu em uma casa de tijolo de adobe construída por seu avô no San Luis Valley do Colorado.

Os dois se conheceram em 1995 no primeiro dia de aula na faculdade de arquitetura na Columbia University em Nova York, e viajaram para o Iêmen onde exploraram a antiga cidade murada  de Xibam, um conjunto de edifícios de tijolos de barro apelidada “a cidade de arranha-céus do deserto”. O projeto dos dois arquitetos para uma estrutura de adobe independente impressa em 3D, pode ser visto atualmente na mostra “New Cities, Future Ruins at the Border”, no Rubin Center for the Visual Arts na Universidade do Texas, em El Paso (que vai até 6 de abril).

A subsidiária da empresa do casal, Emerging Objects, trabalhou com 3D Potter em um novo tipo de impressora para criar habitações de baixo custo, usando adobe. “Eles se recusaram a aceitar os materiais exclusivos  produzidos e vendidos pelas companhias fabricantes de impressoras 3D”, disse Joshua D. Stein, co-diretor do Data Clay, um banco de dados voltado para cerâmicas e tecnologias emergentes.

Rael e San Fratello estão empenhados em democratizar o processo 3D, conhecido como “fabricação aditiva”, e fazem questão de salientar que imprimir com materiais upcycled, transformados, que poderiam ir para o lixão, e não comprar materiais de construção, é uma estratégia mais sustentável.

Sua dedicação a este processo, afirmam, é a relação que ele proporciona entre o designer e a maquina, uma relação perdida com a produção em massa. “Há toda uma cultura arraigada nos materiais que nos cercam”, observou Rael. “Nós perdemos a intimidade com os materiais, a sua tatilidade. Como é possível ter intimidade com a espuma?”.

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