Siarhei Hudzilin for The New York Times
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Usinas nucleares expandem o alcance da Rússia

Uma empresa estatal russa está financiando e construindo reatores em todo o mundo, colhendo para Moscou tanto o lucro quanto a influência geopolítica

Ivan Nechepurenko e Andrew Higgins, The New York Times

26 de março de 2020 | 06h00

ASTRAVETS, BELARUS – Erguendo-se dos antigos campos de trigo e batata de uma fazenda coletiva, enormes torres de concreto acenam para um dos países mais pobres da Europa com a promessa de suprimento barato e abundante de eletricidade para as próximas gerações. Mas a localização da primeira usina nuclear da Bielorrússia – uma região de terras agrícolas intocadas a cerca de 60 quilômetros da capital da vizinha Lituânia – aponta para cálculos que vão além dos quilowatts.

A usina foi construída pela Rosatom, um conglomerado estatal russo, e financiada por uma linha de crédito de US$ 10 bilhões de Moscou. Os dois reatores da instalação, que começarão a operar em breve, irão produzir muito mais eletricidade do que a Bielorrússia consegue consumir.

A Lituânia, vista como um promissor mercado potencial quando a usina começou a ser planejada, há mais de uma década, agora está tão horrorizada com a perspectiva de ter uma fissão nuclear russa na porta de casa que proibiu a compra da eletricidade que a usina produzir e começou a fazer treinamentos para emergências em caso de acidente nuclear.

Apesar de todos os problemas e protestos, a usina de Astravets é, em muitos aspectos, um modelo de sucesso daquilo que, sob o presidente Vladimir Putin, se tornou um agressivo impulso da indústria nuclear da Rússia para o mercado externo. A Rosatom fechou mais de 30 acordos de fornecimento de reatores. No ano passado, a empresa alegou ter em seu portfólio projetos internacionais no valor de US$ 202,4 bilhões.

O sucesso da Rússia – desde que Putin chegou ao poder, em 1999, o país vendeu mais tecnologia nuclear para o exterior do que Estados Unidos, França, China, Coréia do Sul e Japão juntos – é comercial, pois gera contratos lucrativos na Europa, na Ásia e até na África, sustentando os mais de 250 mil funcionários da Rosatom.

Mas é também geopolítico, pois dá a Moscou uma poderosa ferramenta para submeter clientes como a Bielorrússia e também membros da União Europeia, como a Hungria, a uma longa dependência em relação à Rosatom e, portanto, ao estado russo. “Significa uma parceria estratégica com outro país por muito, muito tempo”, disse Mark Hibbs, especialista no setor de energia nuclear em Berlim.

Grande parte do sucesso da Rosatom vem da concessão de créditos para financiar as usinas. Ao contrário das empresas ocidentais do setor nuclear, que devem obedecer a regras que limitam o apoio financeiro estatal e impõem outras restrições, a Rosatom, que recebe generosos aportes do governo e do tesouro russos, tem toda a liberdade para fazer seus próprios negócios.

Na última década, a Rússia abriu linhas de crédito de mais de US$ 60 bilhões para usinas nucleares em seis países. A empresa fechou um contrato de US$ 30 bilhões para quatro reatores no Egito e outro acordo para uma usina nuclear na Turquia. O sucesso da Rússia no fechamento de contratos provocou no Ocidente o temor de que o mercado global esteja se transformando em um duopólio controlado pela Rússia e pela China, onde o estado também fornece aporte financeiro e outros tipos de apoio para aumentar as vendas no exterior.

“A preocupação é que, até 2030 ou 2040, todos os novos negócios sejam operados pela Rússia e pela China, porque esses países oferecerão condições de financiamento que ninguém mais consegue oferecer”, disse Hibbs. Em 1993, um relatório da Academia de Ciências da Bielorrússia classificou a área próxima a Astravets como “região desfavorável à construção de uma usina nuclear” devido a atividades sísmicas e a questões hidrológicas.

O cientista que assinou o relatório de 1993 depois retirou suas conclusões. Outro relatório, compilado por especialistas europeus em 2018, recomendou “uma revisão do catálogo de zoneamento e de atividade sísmica” da região. E também afirmou que o projeto não atende aos padrões de alguns elementos estruturais importantes.

Ainda assim, para a maioria dos moradores de Astravets, que costumava ganhar dinheiro contrabandeando cigarros e combustível pela fronteira com a União Europeia, receber uma usina nuclear foi como ganhar na loteria. Hordas de trabalhadores da construção civil chegaram para erguer casas, escolas e outras edificações.

Em 1991, Svetlana Dmitrievna, de de 70 anos, deixou a cidade de Khoiniki, infectada pela radioatividade da explosão de Chernobyl, para se instalar em Astravets, uma das poucas áreas livres de césio na Bielorrússia. Svetlana, que se recusou a dar seu sobrenome, disse que a construção da fábrica da Rosatom trouxe, até agora, muitos benefícios para a cidade.

“Quando chegamos, Astravets parecia horrível”, disse ela. “Eu tinha medo de sair para trabalhar, todas as pessoas eram estranhas, nos chamavam ouriços de Chernobyl. Agora é uma bela cidade”.  Anatoly Kurmanaev contribuiu com a reportagem / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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