Victor Texcucano/The Tyler Morning Telegraph, via Associated Press
Victor Texcucano/The Tyler Morning Telegraph, via Associated Press

Uso indiscriminado da tecnologia pode resultar em desastres

Especialistas alertam para os riscos atrelados à dependência de dispositivos cujo objetivo inicial é facilitar a vida do usuário

Tom Brady, The New York Times

31 de março de 2019 | 06h00

A promessa de inovação raramente é cumprida, por mais que o poder de atração das novas tecnologias seja irresistível, disse ao Times o autor David Sax.

"Qual é o plano da sua empresa para a adoção dos dispositivos eletrônicos de vestir?", escreveu Sax. "Como anda seu programa de adoção do Google Glass? Qual sua posição a respeito do Big Data? Como está o desenvolvimento da IA? Aprendizado de máquina? Quanto tempo até produzir e lançar a plataforma em vídeo? Quantos tablets devemos comprar? Qual o orçamento da escola dos seus filhos para realidade virtual?".

Muito dinheiro é desperdiçado no processo, conforme dispositivos eletrônicos são adquiridos, em seguida mostrando-se insuficientes e caindo no esquecimento. As escrivaninhas para o trabalho em pé permanecem geralmente na posição de sentar, os drones ficam no chão, e os visores de realidade virtual começam a juntar pó. Mas, de acordo com Sax, esses não são os piores resultados.

"Essa abordagem para a inovação pode ser realmente destrutiva", escreveu ele. "Escolas que compraram apressadamente tablets para os alunos fizeram cortes nos cursos de teatro, música e esportes para arcar com o custo de aparelhos que trazem poucos benefícios comprovados".

Algumas cidades adotaram uma abordagem diferente, afastando-se das entregas em uma hora e das refeições pré-processadas e apostando em espaços de compras mais palatáveis para as pessoas. No decorrer dos últimos dez anos, houve nos Estados Unidos um grande aumento nas feiras livres, brechós, sebos e livrarias independentes. A gigante da internet Amazon agora está abrindo livrarias físicas. O Walmart planeja construir lojas que incluam refeitórios, feiras livres, aluguel de bicicletas e parques - os tipos de empreendimentos que as imensas lojas de preços baixíssimos da rede expulsaram das cidades americanas.

A tecnologia também prometeu tornar as viagens mais seguras, mas isso ainda não foi comprovado. Hoje, muitos carros alertam o motorista quando o veículo muda de faixa ou se aproxima de algum objeto, mas a dependência excessiva em relação a esses sistemas pode ser problemática.

O psiquiatra Vatsal Thakkar percebeu isso ao dar à ré no carro da mulher sem verificar a câmera traseira. Ele esperou por um alerta sonoro que nunca tocou, pois o carro da mulher, mais antigo, não tinha esse sistema. "Me tornei tão dependente desta tecnologia que parei de prestar atenção, um problema que pode ter consequências perigosas", escreveu Thakkar no Times.

Ele se preocupa com os objetivos da indústria, que parece desejar a automatização de muitas tarefas, incluindo a pilotagem. "Será que uma tecnologia projetada para nos salvar de nossos lapsos de atenção pode, na prática, nos tornar ainda mais desatentos?", escreveu ele.

A solução: uma embreagem manual. "Ao usar o câmbio manual e o pedal da embreagem, precisamos dos quatro membros para dirigir, o que dificulta, por exemplo, o uso do celular ao dirigir ou comer ao volante".

Um estudo realizado com adolescentes que sofrem de distúrbio de déficit de atenção revelou que, ao dirigir carros de embreagem manual, o resultado era uma condução mais segura do que nos carros automáticos. "Isso indica que a cura para nossos lapsos de atenção pode ser menos ajuda da tecnologia, e não mais", explicou.

A tecnologia tem invadido também nossas casas. Cerca de um terço dos lares americanos tem dispositivos inteligentes, proporção que deve chegar à metade da população já em 2022.

Mas, às vezes, os dispositivos são menos inteligentes do que gostaríamos. Sarah Coffey, que vive em Nova Jersey, queixou-se de que a assistente pessoal da Amazon, Alexa, às vezes começa a informar a previsão do tempo no meio da madrugada. "Não entendo por que a Alexa está falando comigo às 3h da manhã", disse Sarah, 44 anos, ao Times.

Para aqueles que assim desejarem, há escovas de dentes conectadas à internet, robôs aspiradores, geladeiras inteligentes, campainhas com câmeras e panelas com conexão Bluetooth. Mas há riscos à privacidade na presença de microfones em dispositivos como o Google Home e o Amazon Echo.

"Praticamente tudo que digo na minha sala pode ser gravado e transmitido a algum lugar", disse ao Times o professor-assistente Craig A. Shue, do Instituto Politécnico Worcester.

Sarah disse agradecer ao marido pelos esforços no sentido de modernizar a casa, computadorizando muitas funções do lar, mas talvez ele tenha exagerado. "Eu queria poder simplesmente acender uma luz sem ter de pedir ao celular que o faça", disse ela.

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