Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Usbequistão se distancia de tendência global ao autoritarismo

Novo líder do país está controlando a polícia secreta, libertando prisioneiros políticos e abrindo espaço para a liberdade de expressão

Andrew Higgins, The New York Times

04 Abril 2018 | 10h15

TASHKENT, USBEQUISTÃO - O Usbequistão é um raro exemplo de país que procura frear um perverso aparato de segurança. 

O jornalista Bobomurod Abdullaev foi levado para um centro de detenção em Tashkent, a capital do Usbequistão, e, segundo seu advogado, torturado depois de ter sido sequestrado em setembro por agentes do Serviço de Segurança Nacional do país. Mas Abdullaev, que foi acusado de “conspirar para derrubar o regime constitucional”, no ano passado teve a permissão para falar com um defensor dos direitos humanos e contou sobre o tratamento ao qual foi submetido. Dois policiais foram afastados do caso e estão sendo investigados por transgressão.

O caso de Abdullaev aponta para o que, um ano e meio depois da morte do ditador que dominou o Usbequistão, Islam Karimov, tornou-se uma questão central: será que o brutal e outrora todo-poderoso aparato de segurança pode se transformar em um organismo de defesa da lei?

Abdullaev continua detido. Ele contou ao advogado Sergei Mayorov que foi espancado, obrigado a ficar nu em uma cela gelada e privado do sono. De acordo com o advogado, os policiais ameaçaram estuprar sua esposa e filha se ele não confessasse. 

A internet ainda está censurada no país, embora menos do que anteriormente, e o medo do serviço de segurança, conhecido pela sigla em russo, SNB, ainda é geral. Mas funcionários de alto escalão e mesmo alguns críticos do Usbequistão insistem que o novo líder do país, o presidente Shavkat Mirziyoyev, está se mostrando contrário à tendência autocrática visível em todo o mundo - no Camboja, nas Filipinas, na Rússia, na Turquia e até em nações outrora democráticas como Hungria e Polônia.

No ano passado, pelo menos 27 dissidentes de grande destaque, alguns dos quais estavam na prisão há quase 20 anos, foram libertados no Usbequistão, e cerca de 18 mil pessoas foram retiradas de uma lista negra que impedia que viajassem ou trabalhassem. O governo também começou a rever a perseguição a médicos, professores, estudantes e outros, obrigados a trabalhar como verdadeiros escravos na colheita do algodão. “Tem havido uma enorme mudança para melhor”, afirmou Jonas Astrup da Organização Internacional do Trabalho, um organismo da ONU.

Sodiq Safoev, pessoa de confiança de Mirziyoyev, e vice-presidente do Senado do Usbequistão, disse que o abrandamento das medidas continuará porque existe um consenso em favor da mudança. “O gelo está derretendo neste país”, afirmou.

Ele reconheceu que o processo enfrenta a resistência em um país obrigado a obedecer há muito tempo às linhas vermelhas da arbitrariedade, que ninguém pode transgredir. “A maior linha vermelha é o domínio da mente das pessoas”, acrescentou.

Fazer os cidadãos abandonarem o medo e a desconfiança dependerá do controle sobre a SNB, que sob o governo de Karimov infestou o país de delatores, encheu as prisões de prisioneiros políticos que frequentemente eram torturados e esmagou o mais débil sinal de divergência.

Surat Ikramov, um veterano ativista dos direitos humanos, elogiou Mirziyoyev, que tomou o poder imediatamente depois da morte de Karimov, por tentar conter o formidável aparato de repressão do Usbequistão, mas disse que o sistema tem raízes fortes.

Ele acredita que a perseguição de Abdullaev, acusado pelo SNB de ser o autor de uma série de discursos políticos às vezes bem informados, mas incendiários, assinados com um pseudônimo, visa mostrar ao novo presidente que “ele tem inimigos em toda parte” e não deve arriscar-se a abrandar o sistema.

Karimov, que governou de 1991 até sua morte, em 2016, não perdoava o dissenso, particularmente depois da revolta ocorrida na cidade oriental de Andijon em 2005, que ceifou a vida de centenas de manifestantes pelas forças do SNB.

Shukrat Ganiev, diretor do Centro Humanitário Legal de Bukhara, acreditou inicialmente que Mirziyoyev se tornaria um novo Karimov. “Avisei as pessoas para que não esperem nada dele”, comentou. Hoje, surpreso com o tom da nova liderança, admitiu: “Eu estava errado”.

Em fevereiro, o presidente Mirziyoyev descreveu os membros rebeldes do serviço de segurança como “cachorros loucos” que precisam ser domados.

A esperança dos ativistas é que a concentração de poder permita ao presidente dobrar os serviços de segurança à sua vontade. Nas últimas semanas, mais de dez agentes do SNB foram presos. Em janeiro, Rustam Inoyatov, que chefiou o serviço por mais de 20 anos, foi demitido. O seu vice, Shukrat Gulyamov, também foi afastado, processado e condenado à prisão perpétua por tráfico de armas e outros crimes.

Yelena Ulaeava, uma ativista dos direitos humanos que foi presa repetidas vezes no governo de Karimov, disse que o SNB agora parou de assediá-la e permitiu, inclusive, que fizesse pequenos protestos. Ela contesta que os trabalhos forçados tenham realmente acabado, mas está muito feliz com os novos rumos do Usbequistão que começou uma petição para que Mirziyoyev seja indicado ao prêmio Nobel da Paz.

“Nosso país deu uma Guinada de 180 graus”, afirmou.

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