Susan Wright/The New York Times
Susan Wright/The New York Times

Vacinação conflita com uma instituição sagrada para os italianos: as férias de verão

A campanha de vacinação está acelerada, mas as autoridades temem que algumas pessoas prefiram viajar a ficar em casa para tomar a segunda dose

Jason Horowitz, The New York Times - Life/Style

31 de maio de 2021 | 05h00

ROMA - Quando o Dr. Mario Sorlini recebe os pacientes num centro de vacinação perto da cidade italiana de Bergamo, gravemente afetada pela pandemia, ele explica uma potencial complicação da vacina contra o coronavírus.

A segunda dose, diz ele aos pacientes com rostos aterrorizados, cairá numa data no meio das férias de verão. “‘Mas aí estarei na Sardenha’”, ele disse que algumas pessoas respondem, angustiadas. Outras reclamam que já reservaram quartos de hotel. Algumas outras, disse ele, se levantam e vão embora.

Durante meses, os italianos ansiaram pelas vacinas que lhes dariam segurança, liberdade do lockdown e um gostinho da vida normal. Depois de armadilhas e obstáculos iniciais, a campanha de vacinação finalmente vem acelerando, mas também está se aproximando das férias de verão (no meio do ano para o hemisfério norte), que são sagradas para muitos italianos, o que gera entre as autoridades temores de que um número significativo de pessoas prefira viajar a se vacinar.

“Tenho certeza de que, depois de um ano tão difícil, muitas pessoas se arriscarão a adiar a vacina” até depois das férias de verão, disse Renata Tosi, prefeita de Riccione, cidade litorânea tão identificada com as aventuras de verão que emprestou seu nome a um novo hit de férias. Isso pode criar um perigo significativo no próximo outono, Tosi escreveu numa carta aberta ao presidente da região.

“Segunda dose impede férias”, dizia uma manchete no Messaggero Veneto, jornal do nordeste da Itália, ecoando preocupações em jornais, sites e contas de mídia social de todo o país.

Estima-se que 20 milhões de italianos - a maioria na faixa dos 40 e 50 anos - enfrentam a perspectiva de obter sua segunda dose em meados de julho. Ou, ainda pior, no fervor que é o agosto italiano, que tira as pessoas das cidades para zonas costeiras cada vez mais abarrotadas.

Para evitar a interrupção potencialmente desastrosa na campanha de vacinação e mais problemas econômicos, as regiões da Itália estão pedindo ao governo que encontre os veranistas onde eles estiverem e ofereça as doses na praia.

“Queremos dar a segunda dose aos turistas que não são do Vêneto”, disse aos jornalistas Luca Zaia, presidente da região, que inclui Veneza, “e também aos estrangeiros, se quiserem. Podemos encontrar uma solução para eles”. Ele vem liderando a iniciativa para pressionar o governo a ser mais flexível para salvar a temporada de turismo e afrouxar o rígido sistema de saúde regional, permitindo que os italianos sejam vacinados em regiões de sol e praia longe de casa.

O novo governo da Itália, liderado pelo primeiro-ministro Mario Draghi, se orgulha de seu pragmatismo e está desesperado para colocar a economia do turismo em movimento. Draghi anunciou recentemente que a Itália suspenderia as quarentenas e as restrições aos turistas internacionais vacinados e disse a eles: “está na hora de reservar suas férias na Itália”.

Ilhas paradisíacas como Capri, preferidas por muitos estrangeiros, aceleraram suas campanhas de vacinação e agora são consideradas livres de covid. Mas, quando se trata de italianos, que ainda estarão em processo de vacinação durante os meses do verão, o governo tem procurado encontrar um equilíbrio entre a abertura a ideias inovadoras e repreender os italianos por sua febre de primavera e verão.

“Se fizermos muitas invenções e coisas fantasiosas, estou fora”, disse Francesco Paolo Figliuolo, general do exército que foi encarregado do esforço de vacinação da Itália, tentando jogar água fria em planos lançados por governadores para inocular italianos em férias onde quer que eles possam ir.

Essa política provavelmente perturbaria rígidos bancos de dados regionais e o processo ordenado que finalmente começou a reduzir as mortes e contágios. Os italianos, disse o general, devem planejar suas férias perto de casa, levando em conta sua data de vacinação. “Quem vai sair de férias deve se planejar de acordo com o agendamento”, disse.

Massimiliano Fedriga, presidente da conferência das regiões da Itália, também considerou impossível vacinar os italianos de férias.

“Espero que todos saibam que vão chegar milhões e milhões de turistas a alguns lugares”, disse ele aos repórteres. “É tecnicamente impossível”.

Mas é mais fácil dizer do que fazer, e muitas pessoas reclamaram que o governo é o culpado por alterar as reservas e criar confusão. Num esforço para aumentar o número de italianos com alguma proteção contra o vírus, no dia 30 de abril, a Itália permitiu uma extensão do período de espera entre a primeira e a segunda dose da vacina Pfizer de 21 para 42 dias. Italianos que receberam a vacina AstraZeneca têm de esperar ainda mais entre as doses, e aqueles que estão recebendo a primeira dose agora muitas vezes estão com o retorno coincidindo com o fervor de agosto.

O resultado tem sido um dilema angustiante - ir ou ficar? - para os italianos que já planejaram as férias de verão e estão avaliando os depósitos perdidos, de um lado, e a perda da vacinação, de outro.

Tosi, a prefeita de Riccione, disse em sua carta que recebeu muitos apelos de pessoas que receberam a primeira dose em Milão querendo tomar a segunda dose em sua cidade litorânea.

“Queremos responder ‘sim’”, disse ela, e mostrar que o país tem a flexibilidade necessária para vencer o vírus e salvar o verão. “Devemos dar aos cidadãos a possibilidade de encerrar sua jornada de vacinação nos destinos de férias”.

Sorlini, em Albino, perto de Bérgamo, disse que, por enquanto, a maioria de seus pacientes estava aceitando a data de verão para a segunda dose, mas que muitos perguntaram: “‘Posso tomar a segunda na praia?’”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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