Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

Vale do Silício aposta em educação disruptiva para crianças

A empreendedora Susan Wu levou seus conhecimentos do setor de tecnologia para a área educacional e fundou na Austrália uma escola fora dos padrões tradicionais

Adam Baidawi, The New York Times

17 Março 2018 | 10h00

MELBOURNE, Austrália - Na Lumineer Academy, uma escola do ensino fundamental aberta recentemente em Williamstown, Austrália, não há lição de casa. Não há salas de aula, nem uniformes ou notas tradicionais.

Em vez disso, há "espaços do criador", sessões de "pensamento ensolarado" e "palcos de exposição".

A escola, equipada como uma startup cheia de lousas brancas e cadeiras macias, parece uma ideia saída do Vale do Silício - e é.

A empreendedora por trás do conceito é Susan Wu, 44 anos, uma americana que já foi chamada de "mulher mais influente do mundo da tecnologia" e recomendou ou investiu em empresas como Twitter, Reddit e Stripe.

Susan e sua equipe dizem ter criado um modelo para o ensino infantil, chamado Luminaria, que promete preparar as crianças para se tornarem arquitetas do mundo do futuro, e não apenas participantes dele.

"Os modelos de escola atualmente em vigor foram pensados há mais de cem anos, para a Revolução Industrial", disse Susan. "Era uma sociedade interessada em fábricas homogêneas, escolas que produziam um modelo de trabalhador. O mundo mudou".

Mas os críticos enxergam a Lumineer Academy como mais uma das muitas tentativas feitas pelo Vale do Silício de empregar as mesmas técnicas usadas para criar um grande número de aplicativos de sucesso e usá-las para criar crianças de sucesso.

Nos Estados Unidos, conforme mais executivos de tecnologia levaram a cabo suas tentativas de abrirem escolas, especialistas em ensino debateram os efeitos do dinheiro e influência corporativos chegarem à sala de aula, às vezes alertando contra o fenômeno. Escolas e programas de ensino foram financiados por Elon Musk, fundador da Tesla, Reed Hastings, diretor-executivo da Netflix, e Marc Benioff, fundador da Salesforce.

Apesar dos lançamentos cheios de pompa e das promessas de perturbar o mercado do ensino, as escolas financiadas por executivos de tecnologia ainda não tiveram sucesso demonstrável. A AltSchool, fundada pelo ex-executivo do Google, Ventilla, anunciou no ano passado o fechamento de várias de suas instalações após uma série de prejuízos, apesar de ter captado US$ 175 milhões de investidores como Mark Zuckerberg, e de cobrar anualidades de aproximadamente US$ 28 mil.

Susan tem consciência dos desafios enfrentados por seus colegas do setor da tecnologia, mas diz que o modelo de sua escola, sua equipe e a localização, na Austrália, pode diferenciá-la das demais.

Cerca de um terço das crianças australianas estuda em escolas particulares, proporção quase três vezes maior que a observada nos EUA, o que significa que a questão dos sindicatos tem menos peso no país, e a influência corporativa e o ensino pago não despertam reações tão intensas. Como a maioria das escolas independentes australianas, a Lumineer Academy não tem fins lucrativos.

Susan diz que ela e as demais cofundadoras, Sophie Fenton e Amanda Tawhai, combinam seu tino para os negócios com seu conhecimento do ensino.

Sophie foi premiada como professora do ano na Austrália em 2013 e prepara exames para o Victorian Certificate of Education, prova final aplicada aos estudantes que concluem o ensino médio no estado de Victoria.

A Lumineer Academy foi inaugurada em janeiro num subúrbio rico de Melbourne. Há 130 alunos matriculados, e o custo anual é de aproximadamente AU$ 10 mil, ou US$ 8 mil.

Diferentemente da maioria das escolas particulares australianas, os estudantes da academia não precisam usar uniforme. Em vez disso, os alunos são incentivados a criar o próprio guarda-roupa dentro das opções possíveis (listras e calças de sarja).

As salas de aula são chamadas de "estúdios". Não há carteiras, mas os cômodos são mobiliados com sofás, cadeiras macias e mesas para serem usadas durante o trabalho.

O modelo Luminaria diz equilibrar matérias objetivas como programação de computadores com matérias mais abertas como inteligência emocional e trabalho em equipe, habilidades procuradas pelos empregadores.

Estudos indicaram que de 30% a 50% dos professores australianos abandonam a profissão nos primeiros anos da carreira. A Lumineer Academy tentou manter alguns deles no emprego com a promessa de liberdade para a criação de currículos mais abertos.

Glenn Savage, especialista australiano em políticas de ensino, disse que era difícil enxergar como os objetivos ambiciosos dessa escola poderiam se encaixar no sistema de ensino "altamente estruturado" da Austrália.

"É importante que os pais não trabalhem com a premissa falsa segundo a qual mandar seus filhos para uma escola que diz fazer as coisas de maneira diferente significa que eles não se ocuparão de tarefas como as dos alunos de outras escolas, porque não é isso que acontece", disse ele.

Mas, um dia, a filosofia do ensino parecia distante do objeto de estudo: uma colônia de formigas. Ines Morgan, 8 anos, disse que gostava especialmente de observar as formigas.

"Nossa pergunta era, 'O que ocorre com uma colônia de formigas quando esta é perturbada?'" explicou ela. "Elas viveram no caos durante um ou dois dias, mas, depois, mantiveram-se juntas e decidiram reconstruir a colônia".

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