Rob Pybus|The New York Times
Rob Pybus|The New York Times

Vale do Silício sonha com reinvenção urbana

Empreendedores do Vale do Silício querem usar a tecnologia para melhorar a infraestrutura das cidades

Emily Badger, The New York Times

02 Março 2018 | 11h03

SAN FRANCISCO – Apesar de toda a inovação e a riqueza que se produzem aqui, San Francisco pode dar a sensação de não funcionar muito bem.

O custo da habitação afastou professores e cozinheiros. A desigualdade da renda é uma das maiores dos Estados Unidos. O problema dos sem-teto parece nunca desaparecer. O tráfego é uma confusão.

"Poderia ser muito melhor", disse Ben Huh, que se mudou para San Francisco em 2016, depois de gerenciar o império do blog Cheezburger, em Seattle.

Na extrema discrepância entre a maneira como este lugar funciona e como inventores e engenheiros da cidade acham que deveria funcionar, muitos se apaixonaram por esta mesma ideia: e se as pessoas que constroem circuitos e redes sociais pudessem construir as cidades também?

Huh dirige um projeto da aceleradora de startups Y Combinator para explorar a criação de novas cidades. Em outubro do ano passado, a Sidewalk Labs, uma companhia da holding Alphabet, anunciou que se associaria a uma agência do governo em Toronto para reurbanizar uma parte da cidade "da internet em diante".

Para outros da área tecnológica, fantasiar sobre novos projetos de cidades tornou-se uma atividade paralela. Eles têm sonhos utópicos com carros automáticos, modelos radicais de propriedade de empreendimentos, casas impressas em 3-D e arranha-céus montados em questão de dias.

"Os sujeitos tech – modo como as pessoas se referem à sua abordagem – merecem crédito por pensarem grande, mais do que qualquer um no governo, neste momento", disse Paul Romer, ex-economista chefe do Banco Mundial, cujas ideias (e conferências TED – Technology, Entertainment and Design) sobre novas "charter cities" (cidades governadas por estatuto especial) influenciaram pessoas na área de tecnologia.

Se tomarmos ao pé da letra a afirmação do economista Ed Glaeser no livro "Triumph of the City", segundo o qual as cidades são nossa maior invenção, deveria ser possível reinventá-las.

"Hoje, existem muitas pessoas que viram muitos sucesso pensando: 'Como posso melhorar isso? O que pode ser maior do que criar uma companhia de muitos bilhões de dólares?'", indagou JD Ross, 27, um dos fundadores da Opendoor, uma empresa de compra de casas. "Temos a tela 'home' inicial de nosso celular, temos a tecla 'home' em cada aplicativo. Mas, na realidade, o termo significa casa – a casa das pessoas –, e isso é muito mais importante".

Os projetos de cidades utópicas raramente foram bem-sucedidos. Mas não é exagero dizer que esses empreendedores da área tecnológica estão olhando a cidade de maneiras quase irreconhecíveis para qualquer um que trabalhe com problemas urbanos.

Ausência de regras

Em uma visita a Dubrovnik, uma cidade portuária da Croácia, Huh, como muitos outros estudantes de planejamento urbano antes dele, encontrou inspiração nas ruas estreitas e na arquitetura do Velho Mundo. E as novas cidades que ele e outros da área tecnológica descrevem não são tão diferentes do que muitos urbanistas defendem. Eles querem criar bairros que as pessoas possam percorrer a pé, embora por linhas "hyperloop", que viajariam de maneira mais rápida do que qualquer trem bala. 

Eles visam habitações acessíveis, embora a escassez destas lhes pareça menos uma questão de política do que um problema que uma tecnologia da construção mais avançada pode resolver.

"Não afetamos os elementos fundamentais de construção de infraestrutura e sociedade", disse Huh."Nós melhoramos isto", acrescentou, indicando seu laptop. "Melhoramos as coisas novas. Não melhoramos as coisas antigas".

Refletindo sobre como fazer isso, as pessoas da área de tecnologia respeitam "os princípios básicos" que sugerem que a consciência histórica e a experiência tradicional podem atrapalhar ideias inovadoras. A estratégia funcionara antes. O Uber não existiria se Travis Kalanick tivesse começado pesquisando como os táxis são regulamentados no mundo todo. Ao contrário, o Uber produziu um serviço que infringia essas regras.

No caso das cidades, isso significa deixar de lado as histórias de outras utopias, códigos da construção que deram uma forma à cidade de San Francisco, bem como a dinâmica política que bloqueia a mudança.

"Os seres humanos, atualmente, moram em cidades que são o equivalente dos celulares flip", disse Jonathan Swanson, um dos fundadores da companhia Thumbtack, que põe consumidores em contato com profissionais que vão de pintores de casas a juízes de casamentos. Se alguém construísse uma versão melhor de San Francisco – o iPhone X das cidades – a duas horas de distância, as pessoas aqui exigiriam estas melhorias, segundo ele. Uma nova cidade poderia beneficiar milhões de outras pessoas que não moram aqui.

Quando existe concorrência, é possível ver iOS contra Android ou Lyft contra Uber", disse Swanson.

Pessoas e ideias

"Mas uma cidade não se encontra em seu nível fundamental otimizável", disse Nicholas de Monchaux, autor de "Spacesuit", que descreve as tentativas fracassadas, dos anos 1990, de aplicar às cidades conceitos da era espacial. O dinamismo de uma cidade deriva também de suas ineficiências, de pessoas e ideias que se chocam de maneira imprevisível.

Tampouco está claro para que você precisaria otimizar toda uma cidade. Você precisaria otimizar a habitação acessível, mas também poderia criar uma cidade mais populosa do que muitos moradores desejariam. Você pode projetar cada casa de modo que receba a luz solar (ideia que os chineses tentaram), mas isso poderia significar que a cidade não é suficientemente densa para suportar restaurantes variados e trânsito intenso.

Tais compromissos exigem escolhas políticas. E, assim, os tecnólogos que esperam evitar a política são obrigados a deparar-se novamente com ela.

O Sidewalk Labs, da Alphabet, parece estar mais próximo de criar alguma coisa. A companhia, dirigida pelo ex-vice-prefeito de Nova York, Dan Doctoroff, concluiu que, para inovar, precisava de uma página que não esteja totalmente branca.

Com um número excessivo de pessoas ou de edifícios já construídos ocupando o lugar, nunca se poderia instalar uma grade de energia, ou testar o que acontece quando o trânsito de automóveis particulares é proibido. Mas uma cidade autônoma no meio do nada não funcionaria, disse Doctoroff, porque as pessoas não iriam querer se mudar para lá.

"O movimento pela cidade inteligente como um todo decepcionou, em parte porque é difícil conseguir que as coisas aconteçam em um ambiente urbano tradicional", afirmou. "Por outro lado, se você desrespeita completamente a tradição urbanista, não acredito que ela possa ser reproduzida. E provavelmente seria bastante ingênuo".

Uma experiência de laboratório em Toronto

Toronto tinha o que o Sidewalk Labs procurava - cerca de 325 hectares de espaço mal utilizado na zona portuária, que poderia ser reimaginado de outra maneira como um bairro, talvez até mesmo como toda uma metrópole, com carros automáticos, construções pré-fabricadas e canais subterrâneos para que robôs pudessem entregar mercadorias e fazer a coleta do lixo. A companhia se encontra no meio de um ano de consultas públicas a respeito de uma fase piloto do projeto. Por fim, o Sidewalk Labs se tornou uma planejadora principal para todo o site, juntamente com uma organização governamental que a administra.

Huh não disse que modo o projeto da Y Combinator assumiria no final. O grupo não anunciou nenhum lote de terra e nem o parceiro do governo. Mas Huh definiu a iniciativa como um "lançamento permanente", que ainda está sendo ensaiado na questão da habitação acessível que, segundo a Y Combinator, se conecta com todo o resto.

É possível que o maior impacto tecnológico não seja provocado pelo hyperloop, ou pelas novas cidades norte-americanas. Poderá ocorrer no mundo em desenvolvimento, para o qual alguns economistas esperam que os construtores da futura cidade voltem suas atenções.

O economista Glaeser levanta uma questão menos provocadora - mas talvez mais produtiva - sobre como construir uma San Francisco melhor. "O principal", segundo ele, "é como podemos produzir moradias de plástico em massa para as favelas, de maneira que sejam higiênicas e realmente baratas?".

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