Eva Uzcategui/Reuters
Eva Uzcategui/Reuters

Nossos valores e a arte

Tornando as 'certezas tão escorregadias quanto uma casca de banana'

Robb Todd, The New York Times

05 de janeiro de 2020 | 06h00

A arte escapa às definições. Pode ser uma banana colada a uma parede, ou um comediante lunático na tela do cinema. Ou nenhuma das duas coisas, dependendo do olhar do observador.

O diretor Martin Scor­sese escreveu no Times que não vê arte nas adaptações dos quadrinhos que proliferam em Hollywood, acrescentando que muitos na indústria parecem “absolutamente indiferentes às questões da arte".

A tensão entre a visão de um artista e a conta bancária de um estúdio sempre foi parte da produção cinematográfica, mas, nas palavras dele, “tratava-se de uma tensão produtiva da qual nasceram alguns dos melhores filmes já feitos. Hoje, essa tensão desapareceu". O predomínio financeiro do “entretenimento audiovisual", acrescentou ele, criou um clima “brutal e inóspito para a arte".

O diretor Todd Phillips parecia entender isso quando apresentou sua ideia para o filme Coringa. Seu desejo era criar um estudo de personagem ousado, de acordo com o Times, e assim ele reimaginou a origem do vilão dos quadrinhos do Batman, transformando-o em um comediante enlouquecido usando maquiagem de palhaço, como “forma de trazer clandestinamente ao sistema um filme de verdade disfarçado de adaptação dos quadrinhos".

Já foi questionado se os filmes sequer poderiam ser considerados arte. Quando Scorsese e outros diretores da sua geração iniciaram suas carreiras, escreveu ele, esses artistas “defendiam o cinema como algo equivalente à literatura, à música ou à dança".

Outras formas de arte também são questionadas. São perguntas como: pode uma banana valer US$ 150 mil quando é colada à parede com fita adesiva? Pergunta seguinte: qual é o gosto dessa “arte”?

A resposta à segunda dúvida foi dada pelo artista performático David Datuna, que arrancou a fruta de uma obra intitulada “Comediante”, de Maurizio Cattelan, na Art Basel Miami realizada no mês passado, comendo-a em seguida. Datuna escreveu no Instagram: “Performance artística idealizada por mim. Adoro a obra de Maurizio Cattelan e gosto muito dessa instalação. É deliciosa".

A banana foi substituída, e três exemplares da obra foram vendidos, a preços variando entre US$ 120 mil e US$ 150 mil cada.

Jason Farago, do Times, defendeu a qualidade artística da cara obra de Cattelan, escrevendo que “ninguém pode ser chamado de filisteu se disse que acha tudo isso uma certa bobagem". Ele acrescentou, “A bobagem, e a vazante sensação de uma cultura que antes incentivava o sublime e hoje só permite gracinhas cafonas, são a marca de Cattelan".

Farago comparou Cattelan ao artista de rua Banksy, que, nas palavras dele, “satisfaz uma crença surpreendentemente comum segundo a qual todos os artistas seriam farsantes, e os museus, colecionadores e críticos de arte não passariam de parvos ou trapaceiros".

Os artistas de verdade não tentam enganar ninguém, disse Farago, acrescentando que a diferença entre Cattelan e Banksy (“um brincalhão tedioso e culturalmente irrelevante”) está no fato de Cattelan se implicar “dentro dos sistemas econômicos, sociais e discursivos que estruturam nossa forma de ver aquilo que valorizamos". Cattelan, disse ele, “como todos os melhores clowns, é um trágico que torna nossas certezas tão escorregadias quanto uma casca de banana".

Podemos acrescentar o comediante de stand-up Dan Soder à lista de palhaços que inclui Cattelan e o Coringa. Mas não devemos chamá-lo de artista. Jason Zinoman, do Times, escreveu que Soder “caçoa da pretensão dos comediantes que se consideram artistas".

“Acham que eu concorro com a arte?” pergunta Soder. “No balé, ninguém cobra consumação mínima.” / AUGUSTO CALIL

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