Dolly Faibyshev para The New York Times
Dolly Faibyshev para The New York Times

Valorização das terras indígenas chega por meio da arte nos EUA

Alguns espaços de performance em Nova York estão mostrando o trabalho realizado com índios

Siobhan Burke, The New York Times

12 Agosto 2018 | 11h00

Num fim de tarde de junho, antes do pôr do sol, uma fogueira queimava em frente ao Abrons Arts Center, no Lower East Side. Quem caminhasse pela Grand Street podia chegar e sentar no anfiteatro.

Enquanto os cantores tomavam suas posições ao redor de um grande tambor cilíndrico, a coreógrafa Emily Johnson se levantou e pronunciou algumas cautelosas palavras de boas-vindas.

“Gostaria de agradecer e apresentar o meu profundo respeito ao povo Lenape, aos mais velhos e aos antepassados - passado, presente e futuro”, ela disse. E apontou para a terra e o East River. 

“Agradeço e expresso minha profunda gratidão a esta terra e água Lenape que nos alimenta, enquanto estamos aqui reunidos todos juntos, e convido os presentes a me acompanharem neste agradecimento, no respeito e na gratidão”.

Em seu gesto de reconhecimento dos habitantes originais de Manhattan - os Lenape - e de sua terra ancestral, Lenapehoking, Emily Johnson participava de um ritual que, sob a sua direção, tornou-se cada vez mais comum em Nova York. Atualmente rotina na Austrália, Nova Zelândia e Canadá, o costume  de agradecer à terra indígena começou há pouco tempo a ganhar impulso nos Estados Unidos.

“Há cinco anos, não era comum ouvir a menção aos Lenape em Manhattan”, disse Joe Baker, o diretor executivo do Lenape Center, uma organização sem fins lucrativos que promove a cultura nativa. Mas hoje: “Você ouve Lenape. Houve um reconhecimento do povo originário”. (O Lenapehoking abrange a cidade de Nova York, Nova Jersey, Delaware e partes de Connecticut, Pensilvânia e do Estado de Nova York.)

Sempre que Emily, 42, artista nativa do Alasca de ascendência Yupik, viaja, ela homenageia publicamente e entra em contato com o povo indígena. “Como indígena, não poderia entrar na terra de outra pessoa indígena e começar a caçar ou pescar ou cultivar a terra ou construir uma casa”, ela disse. “Teria de seguir o protocolo. Posso estar aqui? Teria de haver uma conversação; eu ouviria um sim ou um não; eu acho que este protocolo é a razão pela qual nós podemos, por exemplo, viver sem construir um muro”.

Este ano, pelo menos quatro espaços para apresentações começaram a reconhecer regularmente a terra indígena. No Abrons, um cartaz diz que o centro está “empenhado em resistir ao colonialismo e ao desequilíbrio com a Mãe Terra por meio de uma programação voltada para a cultura e a práticas artísticas indígenas”. Emily sabe que este reconhecimento pode se tornar uma rotina e perder o seu sentido. Para ter impacto, enfatizou, deve ser feito “de uma maneira plenamente consciente”.

Teoricamente, a iniciativa deveria produzir importantes parcerias. O Centro Abrons, por exemplo, trabalhou com a artista para hospedar reuniões mensais ao redor de uma fogueira com a apresentação dos Silvercloud Singers, um grupo de canto e dança nativo americano com participantes de várias tribos.

Hadrien Coumans, um dos fundadores do Lenape Center, disse que considera o reconhecimento da terra um convite a refletir e apreciar onde, na realidade, nós nos encontramos.

“Nós fazemos parte de um ser vivo” afirmou. “A terra é um elemento vivo, portanto, quando reconhecemos a terra, na realidade reconhecemos a vida. Nada de nacionalismos, nem patriotismos. Apenas a vida”.

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