Lauren Fleishman / The New York Times
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Vanessa Kirby esperava por um papel que a apavorasse

Para seu primeiro papel principal em um filme, a atriz queria um personagem tão desafiador quanto muitos daqueles que ela interpretou no palco. Ela o encontrou em 'Pieces of a Woman', de Kornel Mundruczo

Eleanor Stanford, The New York Times - Life/Style

25 de janeiro de 2021 | 05h00

LONDRES – Vanessa Kirby nunca deu à luz, mas, depois de interpretar seu primeiro papel como protagonista nas telonas, em Pieces of a Woman, ela se sente como se já tivesse passado por isso. "Sempre que vejo uma mulher grávida agora, ou quando alguém me diz que acabou de parir, sorrio. Sinto uma enorme empatia", disse recentemente em uma conversa por vídeo.

Os dois dias que ela passou gravando uma cena muito intensa do filme podem explicar sua confusão e também a maneira como Kirby, de 32 anos, mergulhou no papel.

Em Pieces of a Woman, disponível na Netflix depois de um lançamento limitado nos cinemas físicos, Kirby interpreta Martha, grávida cujo parto em casa tem consequências terríveis.

Esse evento transformador no início do filme se estende por 24 minutos, em uma cena de tomada única que começa com as primeiras contrações de Martha e termina em tragédia. A câmera acompanha Martha, seu parceiro Sean (Shia LaBeouf) e a parteira, Eva (Molly Parker), no apartamento do casal, condensando as agonias do trabalho de parto em menos de meia hora.

Em setembro, o filme estreou no Festival de Cinema de Veneza, no qual Kirby ganhou o prêmio de melhor atriz e entrou na lista de principais candidatas ao Oscar.

Kirby disse que queria retratar o trabalho de parto de Martha da maneira mais autêntica possível. "Isso foi apavorante, porque eu não queria decepcionar as mulheres", acrescentou.

Por isso, ela se dedicou à pesquisa. Depois de assistir a muitas cenas de parto no cinema, Kirby teve a impressão de que ainda estava longe de compreender a experiência, retratada de maneira tão higiênica e censurada. "Depois fiquei ainda mais assustada, porque percebi que tinha a responsabilidade de mostrar um parto realista, mais ainda que as versões editadas dos documentários", explicou Kirby.

Ela conversou com mulheres que deram à luz e com mulheres que perderem o bebê durante o parto, além de consultar parteiras e obstetras em um hospital londrino. Enquanto estava lá, uma mulher chegou com contrações e permitiu que Kirby observasse o parto. "A experiência de acompanhar um parto durante seis horas me transformou profundamente. Absorvi cada segundo do que aconteceu com ela", comentou Kirby.

Assim, ela começou a entender como interpretar Martha: "A mulher no hospital entrou em um estado primitivo, quase animal. Seu corpo assumiu o controle da ação, e ver isso me ajudou muito a fazer a cena."

Ao longo de dois dias, a cena foi filmada seis vezes. Em entrevista por telefone, o diretor Kornel Mundruczo, que também trabalha com montagens para teatro e ópera, contou que foi como se tivesse preparado uma cena com dublê: "Não sabíamos o que ia acontecer, apesar do intenso planejamento."

No fim, cada tomada foi diferente, segundo Kirby: os diálogos entre Martha e Sean mudaram, e a reação do corpo de Martha às contrações foi diferente a cada tomada. "Acho que foi a melhor experiência que tive na minha carreira", observou Kirby a respeito dos dois dias de filmagem. Inspirada pelo parto que acompanhou, ela disse que tentou pensar o mínimo possível, sem julgar as reações de seu corpo na cena.

Depois de uma década de trabalho, Pieces of a Woman é o primeiro longa-metragem de Kirby como protagonista e é um papel ousado e memorável, que mostra toda a sua capacidade como atriz. Mundruczo comentou que precisava de alguém que estivesse exatamente no mesmo ponto da carreira que Kirby: "Quando todas as habilidades já estão presentes, mas o medo ainda não se instalou. Atores muito estabelecidos se tornam cada vez mais cautelosos."

Kirby tem desenvolvido essas habilidades desde a adolescência. Ela cresceu em um bairro de classe média alta em West London, onde frequentou uma escola particular só para meninas. Era no palco que ela fugia das pressões da vida de adolescente, em peças e apresentações amadoras. "Toda vez que entrava naquele espaço, eu parava de me sentir julgada e começava a me sentir aceita. Você não precisava ser nada nem fazer nada direito", afirmou Kirby.

Depois de se formar em Literatura Inglesa na universidade, Kirby foi aceita na famosa Academia de Música e Arte Dramática de Londres, em 2009. Alguns meses depois, foi convidada para interpretar três papéis teatrais por David Thacker, ex-diretor residente da Royal Shakespeare Company que, naquela altura, era diretor artístico do Octagon Theater, em Bolton, cidade no norte da Inglaterra.

Venha para Bolton, ele disse a ela, e você aprenderá mais com esses papéis – que incluíam Helena, de "Sonho de Uma Noite de Verão", e Ann Deever, de "Todos Eram Meus Filhos" – do que aprenderia em três anos de escola de teatro. Kirby concordou e agora descreve essa temporada como sua formação: "Aprendi tudo lá." Ela disse que trabalhar com Thacker a ensinou a confiar em si mesma e a encontrar seu caminho como atriz, em vez de esperar que outras pessoas lhe dissessem o que deveria fazer.

Kirby tem trabalhado constantemente desde então, com papéis principais no West End, além de importantes papéis coadjuvantes em filmes e séries de época na TV britânica. Estrelou The Crown como a princesa Margaret nas duas primeiras temporadas, com uma performance que assegurou um prêmio Bafta à atriz. Sua Margaret transborda de energia e é um contraste perfeito para a contida rainha Elizabeth interpretada por Claire Foy.

Em Missão Impossível – Efeito Fallout, de 2018, interpretou a Viúva Branca, glamorosa agente do mercado negro que carrega uma faca na cinta-liga e sabe como usá-la. A atriz foi convidada para participar de mais dois filmes da série Missão Impossível.

Kirby contou que, embora esses papéis coadjuvantes tenham trazido fama e prêmios, não tinha pressa para estrear nas telonas como protagonista. A atriz já representou muitas personagens complexas no palco: mulheres como Rosalind, a inteligente e sagaz heroína de "Do Jeito que Você Gosta", de Shakespeare. Ela disse que estava esperando por um papel no cinema em que pudesse sentir a "magia" de Rosalind, que tornava seu desempenho "parecido com o ato de voar quando eu pisava no palco".

Levando-se em consideração a formação teatral de Kirby, é apropriado que "Pieces of a Woman" tenha surgido como uma peça de teatro, escrita pela parceira de Mundruczo, Kata Weber, que se baseou na experiência do próprio casal de perder um filho. O texto original, que se passa na Polônia, contava com apenas duas cenas: o parto e um jantar explosivo com a família de Martha, mais ou menos na metade da adaptação. O espetáculo estreou em 2018, com direção de Mundruczo, no teatro TR Warszawa, em Varsóvia, e foi um sucesso. A produção segue no repertório da companhia até hoje.

Quando Mundruczo completou 40 anos, há cinco, ele começou a procurar um público maior para sua obra. Por isso, deixou de trabalhar em alemão, húngaro e polonês; Pieces of a Woman é seu primeiro filme em inglês. Mundruczo comentou que, ao adaptar a peça para a telona, mudou o cenário para Boston, porque sentiu que a cultura católica irlandesa da cidade era similar à paisagem social conservadora da Polônia.

A perda de um bebê raramente é retratada como entretenimento nas telas. Mundruczo disse que espera que a experiência de Martha encoraje "as pessoas a encontrar a própria resposta às perdas".

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