Sebastien Salom Gomis/Agence France-Presse
Sebastien Salom Gomis/Agence France-Presse

Velejadores testam limites da solidão em prova ao redor do mundo

Competidores da Golden Globe Race enfrentam meses de isolamento e tempestades em alto mar

Chris Museler, The New York Times

06 de março de 2019 | 06h00

Em 1968, nove velejadores zarparam para competir na Sunday Times Golden Globe Race, a primeira competição solo, sem escalas, ao redor do mundo. Eles rumavam para o desconhecido, sem a menor ideia de como seus barcos ou as suas mentes se comportariam em quase um ano de isolamento.

Algumas embarcações apresentaram problemas, e tiveram de desistir da disputa. Houve velejadores que não suportaram a tensão emocional. Um deles, Donald Crowhurst, tentou fraudar na prova, e depois simplesmente desapareceu, abandonando o barco no Atlântico. Robin Knox-Johnston foi o único que a concluiu, depois de navegar por 312 dias.

Para celebrar os 50 anos da competição, foi planejada outra Golden Globe Race. A moderna Golden Globe Race, no entanto, não foi menos difícil. Em julho do ano passado, 17 veleiros de 11 metros de comprimento partiram de Les Sables-d'Oloonne, na França. Até hoje, dois deles retornaram. Somente três continuam na disputa, e um está a alguns meses da linha de chegada. Os outros abandonaram seus barcos quando faltavam 24 mil quilômetros, no Oceano Índico.

"Os que terminaram a competição não foram tantos quanto havíamos pensado", disse Don McIntyre, um dos fundadores.

A competição foi criada para promover a navegação a vela no oceano para o velejador médio, em pequenos barcos com orçamentos modestos. Os competidores não podem usar o piloto automático elétrico e valem-se apenas da força dos ventos para se deslocar. Só é permitida a comunicação por rádio. Para a navegação, são usados os sextantes.

O piloto da Marinha indiana Abhilash Tomy feriu gravemente a coluna quando seu barco perdeu o mastro entre o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, e a Austrália, um dos lugares mais remotos do planeta.

Susie Goodall foi resgatada no início de dezembro depois que seu barco perdeu o mastro. Sem motor ou instrumentos eletrônicos, ela pediu socorro e foi retirada de seu barco inundado por meio do guindaste de um cargueiro que passava.

Mark Slats, um dos dois velejadores que terminaram a prova, contou que as tempestades pareciam não ter fim e que os concorrentes buscavam um a ajuda do outro, um luxo que Knox-Johnson não teve no primeiro Golden Globe.

"A disputa teve um aspecto bastante humano", disse Slats. "Nós procuramos realmente sobreviver juntos graças ao rádio".

McIntyre explicou que vários competidores não estavam preparados para o isolamento a que disputa os obrigava. "Estes velejadores pertencem a um mundo diferente do de 1969. Hoje, estamos muito acostumados a viver conectados. Alguns não suportaram esta situação", disse.

No dia 29 de janeiro, o francês Jean-Luc Van Den Heede, que participou de várias disputas ao redor do mundo, ganhou o troféu Golden Globe ao terminar a prova em 211 dias, 23 horas e 12 minutos. Aos 73 anos, ele é a pessoa de mais idade a completar a navegação solo e sem escalas.

"Sua mente nunca mais será a mesma depois disso", afirmou Van Den Heede. "Você aprende a ser otimista, a levar a vida como ela é. Sozinho você tem muito tempo para pensar, para refletir sobre sua vida".

A Golden Globe Race agora é disputada a cada quatro anos. Apesar de seu acidente no mar, Tomy ainda pretende competir na de 2022. A própria Susie Goodall informou que está interessada em velejar de novo.

"Algumas pessoas vivem pelo prazer da aventura. É da natureza humana", disse ela, depois de ser resgatada. "Para mim, o mar é uma aventura".

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