James Estrin/The New York Times
James Estrin/The New York Times

Recuperação de um vendedor de rua em NY pode ser termômetro para outros

Rossi se tornou conhecido como o “rei do cachorro-quente” do museu por manter seu carrinho na calçada em frente à entrada principal

Corey Kilgannon, The New York Times - Life/Style

15 de outubro de 2020 | 05h00

NOVA YORK – Quando o Metropolitan Museum of Art fechou em março, enquanto o coronavírus atacava Nova York, os carrinhos alinhados na frente do edifício – um dos espaços mais cobiçados da cidade para a locação de pontos de venda – pararam de funcionar. “Sem museu, sem compradores”, disse Dan Rossi, de 70 anos, que há mais de 13 anos é conhecido como “o rei do cachorro quente” do museu e ocupa o lugar principal na calçada, bem em frente à escadaria do Met. Rossi não fez as malas.

Por mais de cinco meses, manteve seus carrinhos fechados no respectivo lugar, na Quinta Avenida com a Rua 82 em Manhattan, e vinha constantemente de sua casa nos subúrbios para assegurar-se de que não seriam retirados. “Agora, com a reabertura do museu para o público, ele acendeu suas grelhas e voltou a vender seus sanduíches por US$ 3 e as garrafas de água por US$ 1. Ele voltará a trabalhar atraindo os clientes de outros sete vendedores ao seu lado com suas bancas de pretzels, comida halal, sorvetes e mais cachorros quentes.

A concorrência pode ser tão intensa que, ao longo dos anos, a polícia foi chamada para solucionar guerras territoriais e outras disputas. E agora, o retorno destas disputas entre vendedores que definem a economia da rua em muitas partes de Nova York, poderá ser o termômetro para os pequenos comerciantes que, como Rossi, dependem dos turistas para grande parte das suas vendas. Em tempos normais, os degraus do Met costumam estar tomados por enxames de gente, permitindo-lhe faturar até US$ 2 mil em um dia bom.

“É um negócio que depende do volume de vendas, e agora não há volume nenhum”, ele disse, olhando para os degraus, que durante meses ficaram praticamente desertos. Com a pandemia que devastava os negócios de Rossi, ele pôde desfrutar de uma pequena vantagem. A pausa lhe deu a chance de dormir em sua própria cama.

Para impedir que os seus carrinhos de cachorro quente fossem apreendidos ou levados para outro lugar, ele dormiu na maioria das noites dos últimos sete anos em frente ao Met, frequentemente em uma cadeira de jardim em um carrinho apertado entre a grelha e a prateleira dos condimentos, os pés fora da porta aberta. O departamento de parques da cidade, a certa altura, passou a cobrar muito caro pelo direito exclusivo de vender comida na frente do Met.

Um contrato com um vendedor chegou a custar US$ 650 mil ao ano. Em 2007, Rossi, um fuzileiro da Marinha do Bronx, simplesmente, montou dois carrinhos de cachorro quente e começou a baixar os vizinhos. Ele disse que as tentativas da prefeitura de afastá-lo – desde prendê-lo a batalhas judiciais para mais de 100 bilhetes – foram inúteis.

Ele se recusou a tirar os seus carrinhos, de dia ou de noite. Por fim, a prefeitura parou de proibir os donos dos carrinhos de venderem sua mercadoria neste local. O departamento de saúde emitiu 3.100 autorizações para a venda de alimentos, renováveis a cada dois anos, que incluem autorizações para veteranos e pessoas com deficiências físicas. Também emitiu mais mil autorizações sazonais e outras mil para bancas de fruta e verduras.

No pico da epidemia na primavera, a prefeitura declarou os vendedores de rua trabalhadores essenciais, e muitos deles continuaram operando. Nos distritos mais afetados – como Jackson Heights e Corona, ambos em Queens – os carrinhos foram cruciais para o fornecimento de refeições, disse Carina Kaufman-Gutierrez, vice-diretora da ONG Projeto dos Vendedores de Rua, que representa milhares destes trabalhadores em Nova York.

Mais recentemente, eles levaram outro golpe perdendo negócios para os cerca de 10 mil restaurantes que puseram mesas na calçada, ela disse, acrescentando que os vendedores já enfrentam problemas porque não receberam a ajuda concedida pelo governo aos seus negócios por causa da pandemia. Rossi disse que sobreviveu nos últimos cinco meses graças ao Seguro Social e à pensão da Marinha. Ele começou no setor construindo carrinhos para a venda de cachorro quente nos anos 1980 e gradativamente adquiriu cerca de 500 licenças, que passou a alugar a vendedores individuais.

Comprou uma casa em Greenwich, Connecticut, e explorou um império no valor de milhões. Nos anos 1990, a prefeitura reprimiu os proprietários de licenças múltiplas, e passou a emitir autorizações apenas a indivíduos, revogando todas menos uma das suas licenças, a da venda móvel de comida que ainda detém.

Ele brinca que foi “da pobreza à riqueza para abaixo da pobreza”. Depois que as autoridades determinaram que não poderia mais dormir em seu carrinho, começou a passar a maioria das noites em bancos do outro lado da rua onde sua van branca, ficava estacionada nas proximidades. Os carrinhos de Rossi ficam um ao lado do outro.

Ele opera um, e sua filha Elizabeth, também inválida da Marinha, tem a licença para operar o outro. Enquanto um ajudante afasta um carrinho de cada vez para uma rápida limpeza, Rossi fica de olho no local. A única vez em que ele desloca os dois, é para o evento anual do Met-Gala, e mesmo nesta ocasião os carrinhos voltam às suas posições pouco depois da saída das últimas limusines. Entre as poucas pessoas sentadas nos degraus do museu, no início da semana passada, estavam John Noble Barrack, de 27 anos, e Brooke Shapiro, 29, ambos atores desempregados.

“Os carrinhos de comida fazem parte da cultura de rua em Nova York, e é animador ver que estão voltando”, disse Noble Barrack, que encontrou trabalho temporário organizando uma equipe que toma a temperatura dos visitantes na entrada do Met. Shapiro, que começou a trabalhar em uma clínica médica, comentou: “Eu sei o que eles estão passando porque o nosso setor depende igualmente da reabertura de Nova York”. O rei dos cachorros quentes também espera uma volta dos negócios. “Veremos o que acontece esta semana”, disse Rossi. “Mas, eu falo pra você, acho que este vai ser um inverno muito duro”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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