Purnima Shrestha para The New York Times
Purnima Shrestha para The New York Times

Vendedores de água lucram com mudança climática e corrupção

A água do caminhão-pipa custa em média dez vezes mais que a oferecida no sistema hídrico do governo

Peter Schwartzstein, The New York Times

21 de janeiro de 2020 | 06h00

KATMANDU, NEPAL - Já tinham se passado 11 dias após a ruptura de uma válvula que reduziu o fornecimento de água ao distrito de Kupondole a uma mera goteira, e os telefones da empresa de caminhões-pipa de Pradeep Tamanz tocavam sem parar. Uma residência da embaixada da Malásia tinha ficado com as reservas de água perigosamente baixas, e os diplomatas pagariam extra por uma entrega rápida. Uma usina de processamento de café estava quase interrompendo a produção depois de esvaziar o tanque de armazenamento. 

Esta também pagaria mais para receber qualquer quantidade de água disponível. Do outro lado da cidade, os chamados eram tão frenéticos que Sanjay, motorista do caminhão-pipa, indagou-se brincando a respeito da possibilidade do caminhão ser sequestrado. “É como ouro líquido", disse ele, apontando para a preciosa carga. “Talvez valha mais que o ouro.”

Acelerando das estações de abastecimento até as casas e fábricas em um frenético vai e vem, Tamanz tentava atender à demanda. Suas três equipes de caminhões-pipa mantinham os veículos rodando por até 19 horas. Ele repassou parte do trabalho a concorrentes, prática incomum no disputado mercado dos caminhões-pipa de Katmandu.

Mas a escassez de água era grave demais. Quando o ramal de fornecimento foi consertado, alguns lares já estavam vivendo à base de latinhas de água há quase um mês. “Ainda não estamos na época de auge do consumo, e a situação já está assim", disse Tamanz. “Imagina como estariam as coisas se nós não existíssemos.”

Em Katmandu, como em boa parte do Sul da Ásia e partes do Oriente Médio, da América do Sul e da África Subsaariana, caminhões-pipa como esses às vezes evitam que cidades inteiras passem sede. “A cidade depende de nós", disse Maheswar Dahal, dono de seis caminhões que operam no distrito de Jorpati, em Katmandu. “Seria um desastre se não fizéssemos nosso trabalho.”

Mas, com frequência, a água dos caminhões-pipa é de baixa qualidade, causando até problemas de saúde. Eles costumam cobrar muito mais do que a conta do governo, devastando os pobres. A água do caminhão-pipa custa em média dez vezes mais que a água oferecida no sistema hídrico do governo, de acordo com um estudo do World Resources Institute a respeito do acesso à água em 15 cidades de países em desenvolvimento.

Em Mumbai, esse valor pode chegar a 52 vezes o preço da água na torneira. Relatos locais falam em frequentes negociações ilícitas, sabotagem do fornecimento e destruição ambiental. “São todos ladrões, malditos, e deveriam ser enforcados", disse Dharaman Lama, senhoria da capital nepalesa. “É nojento o que fazem conosco.”

Monstros molhados

Esses caminhões-pipa são apenas outra fase de um processo global de privatização da água que já dura décadas. Muitos governos acreditam que o setor privado é mais competente para obter resultados de serviços sobrecarregados, cedendo o controle de recursos essenciais.

A frota de caminhões-pipa de Karachi, no Paquistão, talvez tenha dobrado ao longo dos dez anos mais recentes. Seu número em Lagos, Nigéria, quadruplicou no mesmo período, de acordo com estimativas de dois pesquisadores. No Iêmen, os caminhões-pipa dominam o mercado desde o início da intervenção comandada pelos sauditas, em 2015. E, na Índia, o ramo empresarial dos caminhões-pipa decolou conforme as cidades incharam. Esses caminhões molhados e enferrujados se tornaram presentes no dia a dia de cidades de Bangladesh até a Bolívia.

A indústria dos caminhões-pipa também pode ser uma das primeiras ilustrações de como partes do setor privado podem lucrar com um mundo cada vez mais quente e urbanizado. Projeções indicam que a população urbana do Sul da Ásia deve quase triplicar até 2050, chegando a 1,2 bilhão de pessoas, e conforme a infraestrutura falha e as cidades continuam se expandindo para áreas onde o fornecimento é simplesmente inexistente, os caminhões-pipa se encontram bem posicionados para atender a parte dessa demanda.

Até 1,9 bilhão de moradores das cidades devem passar por períodos de falta de água até meados do século, de acordo com o Banco Mundial. Para autoridades municipais que já lutam para manter o fornecimento de água em meio à mudança climática, e para quem a contratação de fornecimento adicional pode ser um desafio ainda maior, os caminhões-pipa podem parecer uma rede de segurança à qual é impossível resistir. 

Quando uma seca aguda esvaziou os reservatórios da Cidade do Cabo em 2017 e 2018, moradores ricos evitaram o racionamento comprando água adicional de fornecedores informais. Quando Chennai, uma das maiores cidades da Índia, quase ficou sem água em meio a um período de chuva fraca em meados do ano passado, mais de cinco mil caminhões-tanque particulares trouxeram água à cidade.

Equilibrada ao pé do Himalaia, rico em águas, e abençoada com uma poderosa monção, Katmandu jamais deveria ser um exemplo dos riscos da dependência em relação aos caminhões-pipa. Mas, depois de anos de flagrante incompetência do governo na gestão das águas e crescente migração de camponeses para a cidade sobrecarregaram a rede de fornecimento.

A partir do fim dos anos 1990, os caminhões-pipa passaram a ser vistos como solução para os problemas de água da cidade. Isso logo mudou quando os menos abastados começaram a recusar os preços altos e práticas insalubres. Tarefas antes corriqueiras começaram a exigir um cuidadoso cálculo financeiro. “Antes, não pensava em quantas vezes poderia tomar banho ou em quando eu poderia faxinar a casa", disse Laxmi Magar, dona de casa e mãe de seis. “Mas agora a água é tão cara que valorizo cada gota.”

Muitas famílias foram obrigadas a mudar a dieta que fazem e a frequência com que recebem visitas. Pratos que exigem muita água, como o espinafre, estão fora do cardápio de muitos. Às vezes, os visitantes são um fardo. Custando aproximadamente 1,8 mil rúpias nepalesas (US$ 15,60) pela carga de 5 mil litros, a água do caminhão-pipa vale cerca de 40 vezes o preço da água da torneira.

Como poucas das favelas de Katmandu estão ligadas à rede de fornecimento de água, os habitantes mais pobres da cidade dependem da assistência externa durante a temporada de seca. Nesse momento, o preço dos caminhões-pipa sobe de acordo. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os lares não gastem mais de 3 a 5% do seu orçamento com a água, mas os nepaleses, dependentes dos caminhões-pipa, acabam gastando 20% do que ganham com isso, uma proporção que pode ultrapassar a marca de 50% em partes da Jordânia.

Os moradores também relatam a incidência de frequentes problemas de pele, parasitas intestinais e diarreia. Os caminhoneiros estabelecem acordos com funcionários públicos corruptos para limitar o fluxo na tubulação e maximizar seu ganho, ao mesmo tempo fazendo campanha contra projetos públicos que poderiam libertar a população dessa dependência.

A concorrência entre os cerca de 400 operadores de caminhões-pipa de Katmandu é tão feroz que eles costumam quebrar os veículos uns dos outros e pedir favores de políticos aliados para fechar os negócios dos rivais. E, pior ainda, os barões da indústria têm poucos obstáculos à superexploração dos recursos hídricos, colocando em risco o meio-ambiente e a vitalidade das cidades no longo prazo.

Difícil caminho da recuperação

Os caminhoneiros dizem não ser os grandes vilões da história. Insistem que esse rótulo cabe ao estado. A falha no sistema começa na tubulação. O fornecimento de água no Vale de Katmandu é tão precário que seus clientes recebem, em média, até uma hora de água corrente por semana. A pressão do sistema é tão fraca que muitos lares mal conseguem juntar 250 litros por vez. As autoridades admitem que se trata de uma crise, mas dizem que a solução está além do seu alcance.

“Sinceramente, a lacuna entre demanda e oferta é imensa: a demanda é da ordem de 400 milhões de litros por dia. A oferta varia entre 90 e 150 milhões de litros", disse Sanjeev Bickram Rana, diretor executivo do conselho de gestão de águas do Vale de Katmandu. “Como vamos reverter esse quadro?”

As estradas rurais são tão precária que os caminhões não podem acelerar, e os problema de projeto da rede de transporte da cidade geram trânsito pesado. Os empresários do setor dizem que seus caminhões poderiam sobrar a média de quatro entregas diárias e vender a preços mais acessíveis se pudessem circular mais rápido. Da parte do estado, corrupção e burocracia são os grandes obstáculos. 

Os caminhoneiros recebem tantos pedidos de suborno que, às vezes, o melhor é ter bastante dinheiro em mãos. Se não pagarem somas que variam entre 5 mil e 100 mil rúpias (US$ 43 e US$ 866), correm o risco de terem o caminhão apreendido. Esse custo também deve ser repassado ao consumidor.

Secando

A demanda por água cresce tão rapidamente que os operadores de caminhões-pipa não conseguem atender a todos os pedidos durante a temporada de seca. A oferta também está diminuindo. Katmandu está crescendo e invadindo as áreas florestais remanescentes, que alimentam as nascentes, e construindo sobre a área de recarga dos aquíferos. A mudança climática torna a chuva mais imprevisível, limitando a coleta de água nos telhados, causando também enchentes que contaminam alguns aquíferos.

Moradores de distritos com pouco fornecimento de água atacaram as autoridades. Caminhões-pipa foram atacados quando decidiram fazer greve, e cada vez mais as pessoas lutam entre si conforme a água se torna mais cara e mais escassa. Com alguns lares sobrevivendo com até 15 litros por pessoa por dia, muito abaixo do mínimo aceito pelas Nações Unidas para refugiados (20 litros), líderes comunitários alertam para a possibilidade de mais violência a não ser que o governo encontre uma solução para a crise.

Há sinais de esperança. Alguns operadores de caminhões-pipa começaram a adotar práticas de extração mais sustentáveis. Em Chandragiri, subúrbio de Katmandu em rápida expansão, seis operadores se reuniram para tentar salvar a floresta da qual suas nascentes dependem.

Delhi está reabilitando até 500 lagos e pântanos para melhorar a recarga dos lençóis freáticos; em grande parte da África Subsaariana, o acesso à rede pública de fornecimento foi expandido; e em algumas outras cidades, há iniciativas para reduzir a dependência em relação ao fornecimento informal de água. Mas, em Katmandu, os moradores esperam poucas mudanças.

Em uma manhã de sábado no mês de outubro, Sunita Suwal esperava do lado de fora de sua casa em Bhaktapur pela entrega semanal de água via encanamento. Ficou cada vez mais frustrada conforme o horário esperado foi passando, a ponto de perder um turno no ateliê de costura que ela não podia se dar o luxo de abrir mão. 

Finalmente, quando a manhã chegou ao fim sem nem uma gota de água na torneira, Sunita perdeu a paciência. “O estado nos deixa na mão. Os mafiosos dos caminhões-pipa nos assaltam", disse ela. “Só querem saber de ganhar dinheiro às nossas custas. Não há muita diferença entre eles.” Rojita Adhikari contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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