Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Vendedores de livros de Paris tentam resistir a um triste fim

A pandemia custou muito caro a livreiros da capital francesa, cujas bancas se estendem por quilômetros ao longo do Sena

Liz Alderman, The New York Times – Life/Style

03 de janeiro de 2021 | 05h00

PARIS – Recentemente, Jérôme Callais embrulhava uma biografia usada de Robespierre em papel celofane, cobrindo a capa de couro cor de vinho com um movimento rápido do pulso, e o colocou perto de um pesado tomo de Talleyrand na sua banca verde em uma doca ao longo do rio Sena.

O céu era de um azul brilhante, e o sol lançava uma luminosidade rosada sobre as carrancas das gárgulas que ornamentam o Pont Neuf, não muito longe de onde Callais vendeu clássicos empoeirados a inúmeros visitantes durante mais de 30 anos. Em tempos normais, parisienses e turistas do mundo todo vasculhariam a sua mercadoria, e a de outros aproximadamente 230 vendedores de livros ao ar livre conhecidos como “les bouquinistes”, cujas bancas quadradas de metal se estendem por cerca de 7 quilômetros ao longo das margens esquerda e direita do rio.

Mas as restrições do lockdown destinadas a conter a pandemia do coronavírus afastaram os clientes em potencial, ameaçando rapidamente o ganha-pão dos vendedores. Muitos lutam contra o que temem possa tornar-se o capítulo final de uma profissão secular icônica de Paris quanto o Louvre e Notre-Dame. “Estamos tentando manter-nos à tona”, comento Callais, de 60 anos, que é também o presidente da Associação dos Bouquinistes, enquanto lançava um olhar preocupado para as fileiras de bancas que ladeiam o Quai de Conti, em frente à ponta da Ile de la Cité.

“Mas a covid fez desaparecer a maioria dos nossos clientes”. Antes mesmo de a França impor um novo lockdown nacional, no mês passado, para combater um recrudescimento do vírus, os turistas que são fundamentais para a renda dos “bouquinistes” deixaram em grande parte de aparecer. E o passatempo favorito dos parisienses, a flânerie – passear sem objetivo definido desfrutando a vida – praticamente acabou, asfixiado pelos toques de recolher e as quarentenas que privaram os vendedores de compradores persistentes.

As vendas despencaram em média 80% este ano, disse Callais, jogando os vendedores em uma situação precária, principalmente os que viviam da venda de chaveiros da Torre Eiffel, canecas de café com a Mona Lisa estampada e outros souvenirs kitsch, além dos livros, como maneira de tirar dinheiro dos turistas que lotavam os quais. Há dias em que eles não vendem um livro sequer, e quando vendem, terão sorte se embolsarem mais de 30 euros, contou.

Mais de 80% das bancas que ocupam ambas as margens do rio, de Notre Dame ao Pont Royal, fecharam mais ou menos em caráter permanente. “Mal ganhamos para comer”, disse David Nosek, ex-engenheiro de som que vendeu literatura clássica, pinturas modernas e litografias antigas perto do Louvre por 30 anos.

Nosek é um dos que tentam permanecer abertos apesar da queda de clientes. Mas em um sábado de outubro antes do novo lockdown, ele fechou inusitadamente cedo, às 18h30 depois de vender um único livro por 10 euros. Nos quatro dias anteriores, ele não havia vendido absolutamente nada.

O que está impedindo que muitos dos seus colegas e ele também afundem é uma nova rodada de ajuda do governo para as pequenas empresas em dificuldade de até 1,5 mil euros por mês, que começou em outubro, depois de três meses de benefícios na primavera. Mas os bouquinistas querem trabalhar.

Estão ansiosos por manter uma tradição que data do século 16, quando os mascates vendiam livros de segunda mão no Pont Neuf em carroças de madeira e grandes bolsos costurados em seus casacos. A profissão enfrentou dificuldades ao longo das eras, inclusive proibições intermitentes sob vários reis franceses.

Finalmente, nos anos 1800, Napoleão autorizou as bancas permanentes nos parapeitos do Sena, popularizando os bouquinistes e tornando-os uma atração para estudantes, intelectuais e escritores como Honoré de Balzac. Hoje, uma vasta livraria ao ar livre com cerca de 300 mil volumes se encontra nas bancas que se estendem por 12 quadras.

Muitos bouquinistes de hoje são aposentados que vivem de pensões e são excêntricos colecionadores de literatura e revistas secretas, na maioria adquiridos de fazendas e das casas de particulares. Eles têm carreiras ecléticas, são ex-professores de filosofia, cantores de punk rock e farmacêuticos. Uma crescente categoria de pessoas, de 30 - 40 anos, ingressou recentemente no setor, atraída pela liberdade de trabalhar fora de um escritório, faça chuva ou faça sol, e pela criatividade de construir um universo literário em um espaço minúsculo.

Antes mesmo da pandemia, os bouquinistas enfrentaram mudanças culturais que afetaram o negócio dos livros em toda parte – porque, com as distrações da tecnologia, as pessoas não leem livros físicos como costumavam fazer, e quando o fazem, recorrem à Amazon para adquiri-los. Elena Carrera, de 30 anos, que abriu uma banca no ano passado, faz parte da geração do Instagram que hoje se dedica a esta profissão nos quais.

Elena, cuja banca tem uma variedade extravagantes mercadorias, revistas em quadrinhos de Asterix, Playboys antigas e biografias de Brigitte Bardot, ganha a metade das suas vendas postando fotos do seu estoque na sua conta do Instagram. Muitos vendedores mais jovens que entraram recentemente no ramo também obtém a maior parte dos seus ganhos online.

“Nós pertencemos à geração mais nova que entrou no setor pelo seu amor aos livros e cabe a nós manter viva a profissão”, ela disse. “Mas para tanto, os bouquinistes precisam mudar juntamente com os tempos”, prosseguiu. “Nós não podemos ser dinossauros”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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