Patrick Arrasmith/The New York Times
Patrick Arrasmith/The New York Times

Vendendo apartamentos de luxo onde Oliver Twist uma vez pediu mingau

Quer entender a transformação econômica de Londres? Dê uma olhada na conversão de uma workhouse em condomínio perto de onde vivia o jovem Charles Dickens

David Segal, The New York Times - Life/Style

24 de janeiro de 2022 | 05h00

Durante décadas, a pergunta inspirou um jogo de salão para detetives literários com uma inclinação vitoriana: que workhouse (casa de trabalho) inspirou a mais famosa do mundo, o inferno úmido em Oliver Twist, o romance de Charles Dickens de 1838 sobre os tormentos e triunfos de um órfão londrino?

Em 2010, de repente, a resposta pareceu incrivelmente óbvia.

Esse foi o ano em que uma estudiosa, Ruth Richardson, ligou dois pontos que estavam eminentemente visíveis e foram essencialmente ignorados por mais de um século. O primeiro era uma casa onde Dickens e sua família moravam. O segundo era a Strand Union Workhouse, construída na década de 1770, cerca de 100 metros abaixo na mesma rua.

Pense nisso. O jovem Dickens bem aqui. Uma workhouse bem ali.

A descoberta de Richardson veio na hora certa. A workhouse, ainda incrivelmente intacta, era então uma parte não utilizada de um hospital de propriedade de uma fundação ligada ao Serviço Nacional de Saúde, que queria demoli-la para dar lugar a apartamentos de luxo. Logo ficou claro que a estrutura na Cleveland Street, em um bairro chamado Fitzrovia, era aquela workhouse, especialmente quando Richardson desenterrou detalhes sobre o lugar que ecoavam no romance.

A Strand Union Workhouse tinha uma regra, por exemplo, proibindo expressamente segundas porções de comida, o que pode ter dado origem à frase mais famosa do livro: “Por favor, senhor, eu quero um pouco mais” - o pedido rejeitado de Oliver por outro prato de mingau.

Em 2011, a workhouse foi “tombada”, dando-lhe status de preservação histórica. Para os ativistas locais, isso foi uma vitória.

Para Peter Burroughs, foi algo muito diferente.

Burroughs é diretor de desenvolvimento da University College London Hospitals Charity, que investe dinheiro em assistência médica. A organização é proprietária da workhouse e, agora que o local não pode ser demolido, ele está encarregado de transformá-la em 11 apartamentos de alto padrão e duas casas, todos com previsão de venda no final do próximo ano.

Em uma cidade amada por ricos investidores imobiliários de todo o mundo, o plano faz sentido financeiro, mas esta pode ser a conversão em condomínios mais ignorante da história das conversões em condomínios, com problemas que vão muito além das restrições impostas sobre como o edifício pode ser alterado. A propriedade inclui terrenos que nos séculos XVIII e XIX serviram de cemitério para os indigentes. No ano passado, os arqueólogos começaram a exumar corpos, cerca de 1.000 no total.

“Sabíamos que tínhamos um cemitério e sabíamos que tínhamos um prédio tombado”, disse Burroughs. “Mas ninguém poderia saber a extensão do trabalho necessário.”

O preço do projeto subiu para mais de US $130 milhões, o que inclui o custo das exumações e um novo grande complexo de apartamentos que em breve será inaugurado no terreno que costumava ser o cemitério. Para piorar, este é um péssimo momento para vender apartamentos de luxo em Londres. Com a pandemia acelerando a queda nos preços de moradia causada pelo Brexit, a incógnita é quanto dinheiro a instituição acabará perdendo.

A resposta depende de outra pergunta: afinal, como você comercializa uma antiga workhouse? Usar as raízes literárias do edifício é uma opção. (“Sim, você pode comer mais!”) Fugir delas é outra.

De qualquer forma, o edifício é um símbolo do mundo real tão evocativo quanto qualquer outro no cânone de Dickens. Ele conta a história do tratamento direcionado aos pobres em Londres, que evoluiu de punitivo para humano, bem como a abordagem ambivalente da cidade para preservar seu passado. Os elementos reverenciados e brilhantes da história da Grã-Bretanha - a monarquia, os castelos e todos aqueles museus superlotados - têm muito apoio popular. Não há um eleitorado natural para os destituídos de outrora, embora suas histórias superem em muito as da aristocracia e digam tanto sobre este país quanto as fortunas de qualquer duque.

Em última análise, foi preciso o poder do homem que criou Um Conto de Natal, Grandes Esperanças e mais de uma dúzia de outros clássicos para resgatar a workhouse.

“Sem Dickens”, disse Richardson em uma entrevista, “não teríamos nada”.

Um guardião sem nome

Hoje, o prédio é um canteiro de obras barulhento. Em uma tarde recente, cerca de uma dezena de homens estavam martelando e perfurando enquanto Burroughs oferecia um tour. Há muito tijolo aparente no momento, com os contornos dos apartamentos tomando forma. Qualquer um que queira ver sinais do propósito original do prédio - um antigo refeitório cheio de tigelas de madeira, talvez - ficará desapontado.

Durante anos, este edifício foi chamado de Anexo Middlesex, e serviu como um ambulatório um tanto austero de um hospital próximo. Aparentemente, poucos reconheceram que era a workhouse original do século 18 até 2004. Foi quando Nick Black, professor de serviços de saúde e autor de Walking London's Medical History, notou que uma workhouse em uma litografia antiga tinha exatamente a mesma pegada e arquitetura do Anexo.

Quando o edifício foi ameaçado de destruição, em 2007, Black e uma instituição de caridade dedicada à arquitetura da era georgiana tentaram preservá-lo. Eles inicialmente falharam, mas a bola demolidora  não balançou imediatamente, em parte porque a crise financeira de 2007-08 deixou muitos construtores sem vontade de gastar. Não ajudava o fato de que a terra atrás do Anexo fosse conhecida por estar cheia de corpos, embora ainda não estivesse claro quantos.

A essa altura, o Anexo já havia fechado e o University College London Hospitals National Health Service Foundation Trust - o nome oficial da organização proprietária do prédio - começou a alugar uma miscelânea de quartos para cerca de 40 londrinos em busca de uma vida barata e comunitária. Essa é uma estratégia comum entre os proprietários britânicos - povoar prédios vazios para evitar que sejam vandalizados ou transformados em um paraíso de posseiros. Os inquilinos desses edifícios são conhecidos como “guardiões”, um termo um pouco enganador.

“Ninguém andava por aí com um rifle”, disse Dominic Connelly, que morou no Anexo até 2017, quando finalmente todos tiveram que sair. Ele pagava cerca de US $600 por mês por um quarto grande de hospital que incluía uma caixa de luz de raios-X em funcionamento.

Os inquilinos eram uma mistura de jovens - instrutores de ioga, atores, um segurança de clube - morando em meio a uma variedade de equipamentos médicos, sistemas de segurança, uma mesa de recepção e placas de hospital, incluindo uma para o departamento de psiquiatria infantil. O cenário também parece ter inspirado Crashing, uma minissérie de televisão de 2016 sobre jovens que flertam e viram casais em um hospital abandonado, escrita e estrelada por Phoebe Waller-Bridge, a autora de Fleabag.

Entre os estudiosos de Dickens, houve algum ceticismo inicial sobre a ligação da workhouse com o livro. O romance situa-se a quilômetros de Londres, e alguns estudiosos interpretaram isso literalmente. Outros disseram que provavelmente era uma mistura de lugares. Essa foi a posição de David Paroissien, membro fundador da Dickens Society. Até que Richardson o levou para a loja de botões improvavelmente pitoresca no térreo do número 22 da rua Cleveland.

“Ele perguntou à proprietária se era verdade que Dickens tinha morado no prédio, e ela disse: ‘Ah, sim'”, lembrou Richardson. "Então ele se virou para mim e disse: 'Está na memória popular'."

Naquele dia, Paroissien assinou uma petição para salvar a workhouse.

Em 2011, a workhouse foi tombada, dando fim à ameaça de destruição. O National Health Service Trust acabou se afastando do problema de converter o edifício em condomínios. Tem sido a dor de cabeça de Peter Burroughs desde então.

Nenhum Scrooge aqui

Na versão de Dickens desta história, Burroughs é o chefe cruel de uma corporação gananciosa e considera edifícios antigos e cadáveres um incômodo. Esta não é uma história de Dickens.

“Estamos absolutamente encantados com a preservação da workhouse”, ele disse, sentado no escritório de construção subterrâneo do outro lado da rua do prédio. “Você tem que apreciar o que restou do lugar. Eram quatro paredes, e essas paredes estavam em péssimo estado.”

Burroughs, 77 anos, contador credenciado, fala com cuidado e quase sussurra, como se estivesse narrando um torneio de golfe. Você tem a sensação de que ele gostaria de alguma empatia por gerenciar um desastre imprevisível após o outro. Isso inclui as consequências do incêndio em Grenfell em 2017, que matou 72 pessoas e causou uma reescrita dos códigos de construção, exigindo mudanças nos planos de construção. Depois foram as covas, empilhadas com até oito caixões.

Os restos mortais foram transportados para um armazém fora da Grande Londres, onde serão estudados, catalogados e eventualmente enterrados novamente, disse Stephen McLeod, arqueólogo sênior da Iceni Projects, empresa contratada para lidar com as exumações. Muitos dos mortos, concluiu sua equipe, eram internos da workhouse.

Uma vez concluída, a workhouse será vendida como unidades de um, dois e três quartos, com preços que começam em torno de US $1,3 milhão. Burroughs espera que, quando os locais estiverem prontos, o mercado imobiliário no centro de Londres tenha começado a se recuperar.

Dificilmente essa é uma aposta certa. O mercado de condomínios de luxo em Londres cresceu de forma constante por cerca de cinco anos, começando em 2011, quando compradores estrangeiros arrebataram apartamentos, muitas vezes para fins de investimento, disse Adrian Philpott, corretor imobiliário da Winkworth. Os preços atingiram o pico por volta de 2016. Então o referendo do Brexit foi aprovado, mas ninguém sabia exatamente quando e em que termos a Grã-Bretanha deixaria a União Europeia, transformando o que as pessoas esperavam ser uma rápida “correção” pós-Brexit em uma desaceleração contínua.

A pandemia prejudicou ainda mais a demanda, pois milhares de londrinos fugiram da cidade para os subúrbios e casas de campo. Philpott disse que o mercado caiu entre 10% e 15% em relação há cinco anos, quando os investidores pensaram que onda após onda de compradores estrangeiros continuaria chegando.

“Muitos construtores por aqui não alcançarão o retorno que banqueiros e financiadores imaginaram que alcançariam quando começaram”, ele disse.

O prédio de apartamentos se chamará Cleveland Court, um nome que soa elegante e a-histórico. Isso irrita Richardson, que sempre quis que o lugar voltasse a funcionar como um hospital e disse que o local poderia ter sido extremamente útil durante a pandemia. Ela está irritada, também, que os novos moradores possam estar alheios ao passado singular do edifício. Não há planos para fixar uma daquelas placas azuis redondas que comemoram locais importantes em toda Londres.

Então ela fez uma placa online, um modelo que representa seu maior desejo.

“Workhouse de Londres + cemitério de indigentes”, diz no topo. “História profunda neste local para sempre porque Oliver Twist nasceu aqui.”

Não está perfeita, ela disse mais tarde.

“Tentei acrescentar: ‘Os donos deste prédio não querem que você saiba disso'”, ela acrescentou com uma risada. “Mas não coube.” / TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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